" " NOVA CASTÁLIA

Curta a Página do Autor

terça-feira, 3 de junho de 2014

PRIMEIRAS INSTRUÇÕES


Poema dedicado ao filósofo Olavo de Carvalho

Se te lançaste à senda sinuosa
do saber carregando na bagagem
o valor da modéstia, tua viagem
bem começou. Recorda então que a rosa

antes de abrir-se inteira se recolhe
em discrição, e assuma o mesmo intento
de conservar discreta no momento
a intenção. Melhor que se desfolhe

a sapiência em ti serenamente
e só revele o centro frutuoso
ao termo do caminho – é mais honroso
e conserva o vigor da tua mente.

Ocupa-te do estudo em muitas obras
e busca no homem culto a instrução
e em tudo entrega a alma à correção,
ao sacrifício. Assim é que tu dobras

o chumbo sem valor, e expões ao fogo
o ser inteiro até que o duradouro
ofício consagre-te o tesouro
da verdade. Se à voz do pedagogo

dás ouvidos e tens fidelidade
em cada ato, firme estás na senda
onde ao termo o espírito desvenda
os mistérios sutis da realidade.

domingo, 11 de maio de 2014

AS SAGRADAS ESCRITURAS: CAMINHO DE SANTIDADE



    

       Cabe-nos encontrar em Jesus Cristo o nosso modelo de santidade. O Filho de Deus se revela, sem dúvida, a máxima regra a partir da qual todas as outras procedem[1]. Sim, Cristo mostra-se o paradigma, e iluminados pelo Espírito Santo, devemos adquirir-lhe a semelhança, imitando as feições de Sua divindade. São Paulo confessa: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2: 20), demonstrando quão possível é alcançar esse ideal. Os santos – todos eles – comprovam-nos também essa realidade, em maior ou menor escala. Portanto, devemos urgentemente ser imitadores de Jesus Cristo. Tal verdade, já tantas vezes apresentada por apóstolos, teólogos e místicos, propõe-nos um horizonte. Ora, todo indivíduo que se disponha à peregrinação, calcula, antecipadamente, a distância que o separa do objetivo, levando em conta, é claro, o ponto de partida. Sem saber localizar-se corretamente, o êxito da jornada torna-se comprometido. Também nós nos colocamos como peregrinos, e o que desejamos é assumir integralmente o Cristo. Porém, a que distância estamos desse modelo que se chama Jesus?

       Temos, muitas vezes, certa visão vacilante acerca daquilo que somos. Ocasionalmente ocorre considerarmo-nos melhores ou piores do que deveríamos considerar, e esse equívoco de julgamento certamente é obstáculo árduo a vencer durante a peregrinação. Como disse, carece ter a ótica precisa do que somos, e utilizar essa informação como ponto de partida. Poderemos então, em seguida, responder às seguintes questões: Quanto nos falta até alcançar a imitação correta de Cristo? Quando será possível afirmar, sinceramente, aquilo mesmo que afirmou São Paulo: é Cristo que vive em mim? Com a quantidade extensa de informações oferecidas pelos meios de comunicação, acontece-nos, constantemente, ser soterrados por uma avalanche de imagens, regras de comportamento, slogans de campanha, ditaduras da moda, exortações ideológicas, etc. Tudo isso, de variadas maneiras, gruda-se à nossa personalidade, deturpando-a, e tornando mais complexa a tarefa que nos compete, ou seja, conhecer a nossa real situação diante do verdadeiro modelo: Jesus Cristo.

       Há determinadas circunstâncias em que nos questionamos com grande profundidade e contrição a respeito daquilo que somos ante a face de Deus. Claro que suscitar questões é algo corriqueiro dentro da caminhada espiritual e, não obstante, nessas situações específicas, a dúvida exacerba-se na intimidade da alma. Torna-se necessário, dessa maneira, que Jesus envie luzes sobre a criatura para que, observando-se a si mesma com outro discernimento, consiga melhor conduzir-se na caminhada em direção à santidade. Utilizo esse termo preciso “conduzir-se”, aparentemente em contraponto à idéia de ser conduzido por Deus, porque embora o Senhor guie-nos de diversas formas, é também verdade que a Ele agrada-lhe que usemos de maneira livre e sabiamente a nossa vontade com o intuito de tomar decisões adequadas em nossa existência. Ora, só toma decisões adequadas aquele que conserva a clareza da visão, e só conserva a clareza da visão quem sabe reconhecer a si mesmo diante de Cristo. Trazendo, pois, esse dilema no coração, e tendo meditado durante algum tempo, suponho ser adequado constatar – valendo-me do auxílio da graça, é claro – que as Sagradas Escrituras contêm o maior e mais importante cabedal existente de situações e tipos humanos, e que suas palavras decerto nos auxiliam a interpretar aquilo que somos. Portanto, havendo alcançado essa constatação, urge ao peregrino desvencilhar-se do método de interpretação da Bíblia utilizado atualmente – o método modernista – com o intuito de, escolhendo outra vereda, atingir a interpretação de si mesmo segundo a Bíblia.  

2.

       A teologia chamada modernista que, durante o século vinte, exerceu inegável influência dentro do catolicismo, chegando, inclusive, a determinar algumas teses centrais do Concílio Vaticano II – mesmo depois de ter suas bases condenadas pelo Papa Pio X na encíclica Pascendi Dominici Gregis – é originária da teologia liberal protestante. As religiões demonstram em sua história, por vezes, certas “viradas” extravagantes, como acontece no caso do protestantismo que, tendo firmado os alicerces primordiais sobre o famoso conceito de sola fide, em seguida viu desenvolver-se em seu seio uma tendência teológica de tal maneira racionalista que, transformando o uso do questionamento (ou da dúvida metódica) em uma espécie de fetiche, pretendeu descobrir explicações naturais para o caráter sobrenatural dos textos bíblicos, e, não as deparando de modo absoluto, terminou incidindo no ceticismo. O ceticismo, nesse caso, é evidente que corrói, em essência, a possibilidade de justificação pela fé, pois se existe experimentalmente pouquíssima certeza a respeito de tudo aquilo que argumentam as Sagradas Escrituras, então a “hipótese da fé” transmite a impressão de ter sua credibilidade comprometida. Uma virada histórica que conduz à contradição!   

       Sob a influência desse racionalismo estrito, a teologia modernista transformou o campo da exegese bíblica em território habitado por arqueólogos, linguistas, historiadores, sociólogos, psiquiatras, etc., que, distanciando-se demasiadamente da interpretação transcendente e tradicional das Sagradas Escrituras, enveredaram pelo caminho de dissecação dos textos. Assim como ao anatomista interessa-lhe mais compreender o funcionamento interno do corpo humano que descobrir as causas espirituais que originam a vida desse mesmo corpo, igualmente o exegeta moderno atribui maior relevância ao estudo do contexto social e político da narrativa, ao rigor terminológico da tradução, à identificação do estilo literário escolhido pelos autores, etc. Utilizando esse método analítico, o exegeta também demonstra a pretensão de datar com extrema certeza os eventos históricos, averiguando, assim, a veracidade dos acontecimentos e a credibilidade existencial dos personagens. Tencionam colocar à prova os diversos testemunhos miraculosos encontrados na Bíblia, com o objetivo de enquadrá-los ou não dentro do gênero de enfermidades como, por exemplo, a psicose, a esquizofrenia ou a alucinação em massa. A gênese divina do texto bíblico e sua mensagem soteriológica são relegadas à segunda ordem – muitas vezes, são até mesmo abolidas do estudo –, e o que se nota, geralmente, é a desmedida ambição de comprovar a narrativa sagrada a fim de que, somente então, ela se faça digna de fé.                  

        Tal virada histórica que conduz à contradição não se manifesta apenas dentro do contexto protestante com o aparecimento da teologia liberal – conforme foi acima mencionado –, manifesta-se também dentro do catolicismo. A teologia tradicional da Igreja Católica, desenvolvida principalmente no decorrer dos períodos da patrística e da escolástica, partia da seguinte premissa: credere ut intelligere, ou seja, crer para compreender. Logo, a Bíblia não necessitava receber antecipadamente o carimbo da razão para, só então, conquistar o status de veracidade. Ao contrário, em Santo Agostinho, Santo Anselmo da Cantuária, São Tomás de Aquino e tantos outros semelhantes, exigia-se a fé em Deus – isto sim! – como bagagem imprescindível àquele peregrino que demonstrasse a pretensão de percorrer as Sagradas Escrituras. Tendo a fé, o indivíduo encontraria franqueado o acesso ao conhecimento da realidade divina.                                                                                                                            
       Por certo, não me oponho, em absoluto, à utilização de certas ciências como instrumentos de investigação. A linguística ou a arqueologia, por exemplo, ocorrem de ser proveitosas – e, de fato, já o demonstraram em algumas ocasiões – quando conseguem lançar luzes sobre determinados aspectos dos textos bíblicos, tornando-os, desse modo, mais evidentes à nossa inteligência. Cito aqui Marcos 12: 30, onde Jesus Cristo diz: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento e com todas as forças.” O entendimento (ou a razão) deve, portanto, consistir em meio de adoração a Deus, e realmente sempre o foi nos escritos dos Santos Padres e dos escolásticos, porque, então, o intelecto estava a serviço do homem que se dirige ao Senhor e do Senhor que se dirige ao homem. Porém, considerando a teologia modernista – cuja característica expressei acima – o uso da razão descamba para o racionalismo estrito, e em seguida, desse racionalismo estrito para o ceticismo descarado, subvertendo a ordem natural e sobrenatural do ser humano ao fazer com que o entendimento seja colocado em atitude contrária a Deus, e não a seu favor, como é conveniente. Para a teologia modernista, parente próxima do iluminismo e do positivismo, o conhecimento transforma-se, por diversas vezes, em arma que costuma ser utilizada contra a própria fé, tencionando assim desmistificá-la.  

       Mas o fato é que essa tendência teológica espalhou-se, durante todo o século vinte, influenciando seminários, universidades, publicações, movimentos religiosos, paróquias, etc., a despeito da condenação lançada pelo Papa Pio X em 1907. Na encíclica Pascendi Dominici Gregis, o Papa ofereceu o seu aviso aos católicos, afirmando que o modernismo ameaçava arruinar as estruturas da fé cristã com o veneno da argumentação racionalista. Pois bem, ao que parece, esse aviso teve prazo de validade curto, e após o mal haver-se disseminado, os mesmos católicos assistiram, espantados, a uma grande evasão de fiéis – evidência de que a fé daqueles que abandonavam a Igreja Católica encontrava-se prejudicada. Um Papa posterior (Bento XVI), quando ainda professor na Universidade de Tübingen, prognosticou: “A Igreja diminuirá de tamanho…”, e disse ainda, nessa mesma circunstância, que do grupo pequeno restante, a Igreja encontraria forças para se erguer outra vez. Também acredito nisso. Contudo, suponho ser interessante reiterar que essa crise do catolicismo contemporâneo acha-se intimamente ligada ao desmoronamento daquilo que chamamos de virtude da fé, e ainda antes disso, ao equívoco na escolha do método a ser utilizado quando o objetivo é dedicar-se à leitura das Sagradas Escrituras.

3.

       A Bíblia não contém somente a história da salvação da humanidade, mas também a história da salvação de cada ser humano, em particular. Temos, por vezes, a tentação de diluir tal conceito ou, melhor dizendo, tal realidade – a realidade soteriológica – dentro de um tratamento que se vale desse termo demasiado abstrato: humanidade. Talvez porque seja mais simples encarar a salvação em comboio, ao invés de encará-la individualmente, e conquanto eu compreenda, sem dúvida alguma, a dimensão coletiva da salvação – reconhecida como Igreja Católica – o esforço de cada indivíduo rumo à santificação de si mesmo é absolutamente necessário. Em João 10: 14-15 o Filho de Deus assevera: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai.” Portanto, mesmo veladamente, a alusão a todos aqueles que serão resgatados pelo sangue do cordeiro é inserida na história da salvação – ou seja, dentro das Sagradas Escrituras – quando Cristo proclama: conheço as minhas ovelhas… Isso nos deve conduzir à conclusão do quanto é imprescindível compreender a mensagem de Deus dentro da perspectiva de nossa própria salvação. Ou seja, temos que suscitar, com incansável constância, este importante questionamento: o que a Palavra do Senhor está dizendo-me especialmente?              

       Mencionei no começo deste ensaio que todos nós carregamos conosco variados dilemas. O ser humano é um enigma para si mesmo! Se não nos esforçamos no sentido de encontrar soluções verdadeiras para tantas dúvidas, as questões vão-se acumulando e, inevitavelmente, em algum momento, compreendemo-nos enredados, surgindo a impressão de experimentar, inúmeras vezes, uma circunstância carente de saída. Cada existência humana traz, portanto, seus dilemas particulares, e resolvê-los significa, em derradeira instância, dar um novo passo em direção a Deus. Pode-se também utilizar a seguinte imagem: sempre que outro nó é desatado, encontramo-nos um pouco mais libertos de nossas limitações, e, ao mesmo tempo, mais próximos do Senhor. Conforme os véus que escondem a presença de Jesus Cristo em nosso interior são erguidos, contemplamos a Sua presença com maior clareza e, em consequência, refletimos mais perfeitamente em nós as suas virtudes. A história de vida legada por alguns santos serve-nos, sem dúvida, como testemunho desse esforço. Cito, por exemplo, os casos de Santo Agostinho, Santo Inácio de Loyola e do Beato Charles de Foucauld. Todos eles se colocaram no caminho de Cristo à medida que tentaram dar solução às suas dúvidas interiores – e o fizeram bebendo continuamente na fonte das Sagradas Escrituras.

       Não se argumente, em oposição, que a ótica aqui apresentada incorre no perigo de transformar a vida espiritual em uma via excessivamente personalista. De fato, se estou propondo um relacionamento mais íntimo e individual do cristão com Deus através do texto bíblico, não o faço sugerindo o estado de isolamento. A leitura da Bíblia, por si apenas, sem o encontro comunitário junto à ceia eucarística ou sem o diálogo amoroso com os irmãos não produzirá os mesmos frutos da santificação. Porém, em contrapartida, quando o indivíduo escolher edificar a existência sobre os pilares tradicionais da fé cristã, buscando, ao mesmo tempo, nas Sagradas Escrituras, a solução para as questões essenciais da alma, neste caso, então, estou convicto de que, como fiel devoto, avançará na peregrinação rumo a Jesus Cristo, tornando-se mais próximo não somente do Filho de Deus, mas igualmente e de modo necessário, da comunidade.

4.

       Não tenciono estabelecer, nesta dissertação, qualquer método de leitura da Bíblia que se pretenda único e exclusivo. Quando a teologia descamba para o discurso ideológico, existe a tendência acentuada de proclamar-se o método novo e definitivo que suplantará todos os anteriores. Há nisto, é evidente, além de prepotência desavergonhada, sem dúvida uma descomunal ignorância histórica. Pois a teologia cristã tem, praticamente, dois mil anos, e desprezar a sua herança espiritual e intelectual, declarando-se superior significa assinar um atestado de estultice. A verdadeira inovação compreendida nesse tipo de estudo consiste geralmente em acrescentar alguma ou outra peça preciosa a esse tesouro conservado; mas também é possível defini-la como o aprofundamento do sentido sobrenatural da ciência teológica. Caso qualquer nova teologia surgida argumente condenando a tradição, nesta circunstância é necessário toda cautela, porque estamos diante de uma moeda falsificada. Por esse motivo, ao defender aqui o método de leitura que eu convenientemente denomino via negativa, admito não estar inaugurando nada de tão inédito. Tampouco pretendo com esse método varrer os dois milênios de cristianismo como diversas vezes tencionaram fazer os modernistas.

       O método da via negativa consiste pura e simplesmente em colocar-se a si mesmo na posição das principais personagens bíblicas a fim de reconhecer o contraste resultante da comparação. Por exemplo: em variadas circunstâncias, Deus dirigiu-se a homens e mulheres durante a história da salvação, transmitindo-lhes, pouco a pouco, todo o conteúdo da palavra revelada, e outorgando-lhes certas missões muitíssimo específicas. Tais personagens, às vezes com alguma teimosia, outras vezes demonstrando até mesmo escasso preparo, sabemos que, na maioria dos relatos, levaram a bom termo suas missões. Caso estivéssemos vivenciando exatamente essas circunstâncias, como é que nós nos comportaríamos? Ou seja, trata-se, em suma, de ocupar experimentalmente o lugar de Abraão, Moisés, Elias ou Davi, assim tencionando enfrentar aquelas situações que a eles competiam. Proponho, dessa maneira, uma espécie de exercício que reputo ser verdadeiramente escola de humildade, porque ao realiza-lo é mais provável que nos reconheçamos incompetentes para cumprir satisfatoriamente tais incumbências, o que nos conduzirá, então, a confessar quão indignos somos de assumir tais responsabilidades. Que contraste! A santidade dos patriarcas, profetas, apóstolos, etc., lançando luzes sobre nossas misérias, a fim de revelar a indigência espiritual em que vivemos. Dessa maneira, percebemos com maior clareza quem nós somos ante a face do Senhor. Admito novamente que esse método aludido não chega a ser qualquer novidade, contudo, é fato inquestionável que anda bastante esquecido.              

       O caráter negativo desse método está justamente na possibilidade de reconhecer, através dele, as limitações do peregrino. Quando julgamos, em algumas ocasião, ter já alcançado altíssimo nível espiritual, estamos à beira de uma situação perigosa: o orgulho pode, em breve, derrubar-nos com facilidade. Para impedir essa queda, creio ser suficiente colocar diante dos olhos, por exemplo, a figura de São João Batista, realizando, desse modo, uma espécie de comparação. Ora, qualquer indivíduo que conte ainda com alguma sinceridade, e também disponha de sanidade mental intacta, perceberá a perturbadora diferença existente entre ele e o Precursor. Com isso, trata de despir-se consequentemente das elevadas imagens que tanto acalentava a respeito de si mesmo. Ocorre, nesse momento, aquele rasgar-se dos véus que encobrem a realidade, aquela ruptura das ilusões que escamoteiam aquilo que somos. Vem à tona, em seguida, a verdade! A verdade sobre a nossa situação defronte de Deus. Ora, se carecemos das virtudes exigidas para alcançar a semelhança de São João Batista, quão grande teremos que admitir ser a distância entre nós e a real imitação de Jesus Cristo! O peregrino desfruta, assim, daquele conhecimento importante: o conhecimento do ponto de partida. Compreendendo com maior distinção, finalmente, os estágios que necessitará ultrapassar até atingir o derradeiro objetivo.



[1] Por exemplo, as diversas regras monásticas.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

EVOCAÇÃO


O cheiro da morte,
sim, da morte,
– odor delicado de rosas –
em frágil vestígio
na memória:
esse rastro o verso contém.

O verso contém
como espólio
dos que traspassaram o rio,
esse nó cerrado,
renitente,
no espaço côncavo do peito.

O relógio antigo
ou o sofá
no canto solene da sala,
quase tudo cabe
nestes versos
em formato de evocação.  

Se há sutileza,
se a dor
com o tempo transfigurou-se,
o verso contém
– por que não? –
o resquício tênue da morte.

domingo, 27 de abril de 2014

ASSIM MORRE A INOCÊNCIA





       Casualmente, foi dessa maneira que J. Castor defrontou-se com o quadro no terceiro andar daquela agência de publicidade. Seu escritório era no sétimo, e jamais se deslocava ao terceiro, onde havia apenas o almoxarifado. Dia desses, abrindo-se a porta do elevador, atendeu ao impulso, e acabou descendo no piso errado. Tendo o elevador se fechado com velocidade, hesitou entre aguardá-lo de novo ou utilizar a escada, e antes que viesse a decidir, avistou o quadro. Tratava-se, na verdade, de uma ilustração, uma ilustração de características refinadas, admitiu J. Castor. Provavelmente servira a alguma campanha do passado, mas perdendo sua utilidade, terminara figurando na parede suja daquele corredor. O contraste, decerto o contraste com a parede sórdida justificava suficientemente o seu espanto. A jovem da ilustração, a jovem de cabelos rubros, vestido branco e singelo, carregando flores em um cesto, aquela jovem passeando em cenário campestre, em um cenário longínquo, descosturado da realidade, aquela jovem cativou J. Castor.


       Havia um segredo no terceiro andar, e J. Castor tornou-se cúmplice dele. Sempre que possível, descia de modo discreto e, em silêncio, contemplava a protagonista da ilustração. Suas feições não se encontravam meticulosamente delineadas pelo artista: o nariz delicado e os lábios polposos distinguiam-se, porém, o resto do semblante era apenas a suposição da placidez. Mesmo a suposição – tão-somente ela – foi o bastante: J. Castor esperava com ânsias beber na fonte daquela placidez, ser também ele habitante do cenário campesino, e partilhar a companhia da jovem. Os escritórios claustrofóbicos, as criaturas gélidas e descoradas de sua convivência, a cidade colossal, a cidade compressora de gente, a cidade e todo o restante, enfim, contrapunham-se ao sonho. Sua existência denunciava aridez, e J. Castor só queria mesmo deambular por outra paisagem, umedecendo os pés descalços, sorvendo o oxigênio puro, mirando, extasiado, os traços fisionômicos de sua jovem companheira. Sofria calado e medonhamente ao debater-se no rodamoinho de tal delírio. Talvez não ignorasse totalmente estar distanciado da realidade palpável, mas como aquele fascínio exibisse garras tiranas, J. Castor não foi forte o suficiente para se libertar da situação.


       O delírio baralha a compreensão dos signos externos – qualquer tratado de psicologia confirma isto – e a vertigem de J. Castor transbordou, infectando inteiro o seu cotidiano. Subindo a avenida central durante uma tarde chuvosa, enfim ele acreditou surpreender a jovem no contato fortuito e miraculoso entre ambas as realidades. O talhe humilde da mulher certamente acrescentava consistência humana à beldade retratada na ilustração. J. Castor quase levitou ao testemunhar aquele desejo supostamente realizado. Sim, é ela, estou convicto… Outra pessoa em semelhante situação, caso comparasse as duas com alguma lucidez, demonstraria ceticismo. A camponesa da ilustração exibia o porte elegante e os cabelos fartos que faltavam à outra. O nariz da mulher de talhe humilde imitava a delicadeza – concordo –, no entanto, a pele achava-se recoberta com pequenas manchas. Quanto aos lábios polposos, eram característica exclusiva da jovem campesina. Porém, J. Castor tinha um trunfo, e esse trunfo consistia em haver discernido vestígios de inocência pastoral no semblante daquela mulher. O encontro fortuito sucedeu em outras ocasiões, e J. Castor brevemente cartografava todos os roteiros dela. Chegava logo cedo a um casarão da avenida central e, ao entardecer, deixava o mesmo endereço rumo ao seu lar. Certa vez, J. Castor observou-a conduzindo com meticuloso desvelo um homem idoso pelas alamedas arborizadas do parque e, dessa forma, concluiu tratar-se de uma enfermeira. Cada dia passado mais aumentava a sua afeição, alimentando-se do testemunho visível oferecido por aquele cotidiano tão generoso. Sabia necessário abordá-la em algum momento, porém, percebia-se confuso quando tentava forjar mentalmente a situação que lhe parecesse mais adequada.


       Refém dessa confusão, J. Castor acabou produzindo um desastre quando decidiu agir. Carecendo de uma estratégia antecipada, bateu à porta do casarão talvez acreditando que a ousadia fosse suficiente para conferir o êxito. Se ao menos tivesse ensaiado duas ou três sentenças… J. Castor saiu-se com um balbuciar de frases trêmulas e desconexas enquanto, junto à porta, a mulher testemunhava o seu vexame mal conseguindo esconder o desconforto da situação. Sem dúvida foi desastroso. Saiu dali abalado, devendo a ela justificativas convincentes, e supondo ter estragado tudo. Desde então, seria totalmente impossível cruzarem-se na avenida central como dois desconhecidos, e J. Castor viu-se limitado a espreitá-la, sorrateiro e a distância, oculto entre as árvores ou em diferentes esconderijos. Privar-se daquele contato mais próximo com a inocência pastoril, contato diário e supostamente casual, rápido ia-se tornando algo desumano, e J. Castor afundava em dolorosa tristeza. Consumia o tempo formulando soluções, qualquer coisa que fosse capaz de consertar definitivamente o estrago. Mas na verdade considerava-se já desmoralizado – diante de si mesmo e da outra – de tal modo que todas as soluções refletidas se apresentavam como puras tolice e banalidade. Foi assim se ajustando à condição de renegado, escolhendo abrigos que pudesse encurtar o afastamento. Pouco mais daquele esforço, e a resignação talvez fizesse com que se sentisse até mesmo satisfeito. A rotina do admirador longínquo atingia certa estabilidade, e J. Castor imaginou ter driblado a tristeza.


       Sua satisfação reduzira-se ao mínimo – tinha consciência –, no entanto, só dispunha daquilo realmente. Por esse motivo, semanas depois, agoniou-se ao ser privado também daquele escasso deslumbramento. A mulher de caráter humilde desapareceu – assim repentinamente – como se os tons e as linhas da realidade palpável houvessem esmaecido. Outra pessoa assumiu as obrigações no casarão, alguém tão diferente dela e também da campesina que J. Castor não se permitiu ludibriar outra vez. Tomado pela abstinência, buscou o terceiro andar, e ali descobriu que a contemplação fria da imagem tornara-se insuficiente. Sua natureza exigia, ao menos, estar vigilante atrás de árvores, protegido contra o risco de qualquer encontro desastrado. A enfermeira carecia do porte elegante, entretanto, J. Castor afeiçoara-se ao corpo em movimento. O vestígio campestre nela encontrado – pouco, muito pouco – era o seu simulacro de primavera salvando-o do desespero padecido em ambientes suburbanos. Só existia uma atitude a tomar em tal circunstância, e embora J. Castor não a ignorasse, tremia sempre que se dispunha a calcular suas consequências. Certa vez, ao cair da tarde, ousara seguir aquela mesma mulher até a região distante onde ela habitava. Utilizara todos os cuidados disponíveis, e conseguiu realizar o trajeto dissimulando-se a ponto de não ser descoberto. Havia despendido, então, duas horas de trem até atingir os limites da cidade, mantendo a distância segura, e ali avistara a mulher ingressando por uma estrada de terra. Dessa maneira, J. Castor supunha estar ciente de seu paradeiro.


       Evocando essa recordação, J. Castor decidiu-se novamente pela ousadia. Tomou o trem, e tendo saltado naquela região longínqua, após alguns minutos de caminhada, acercou-se da estrada de terra. A lama decerto respingaria nos sapatos, sujaria a barra de suas calças, mas isso em nada o perturbou. Um casebre construído na base de tijolos, cimento e ripas de madeira parecia aguardá-lo, e ainda titubeante J. Castor bateu à porta. Foi atendido por uma velha de semblante sisudo, trajada em negro do pescoço à borda inferior do vestido. Procuro uma senhorita, acredito que more aqui, uma senhorita enfermeira. Havia algo de astuto e enérgico naquela senhora, e mesmo com os olhos amarelecidos pela velhice, analisou-o com austeridade. Entre, disse. O ambiente era escuro, e além da umidade respirava-se na atmosfera um cheiro rançoso de podridão. Com a mão rija e áspera, a velha segurou o pulso de J. Castor: o contato causou nele imediata repugnância. Ela passou a noite em claro, meu senhor, está cansada. Fez o possível… todo o possível. Conduziu-o a outro cômodo, e solenemente mostrou-lhe o corpo do menino depositado sobre a mesa. Vê? Ele parece tranquilo agora, mas escarrou sangue durante duas noites. Ela fez todo, todo o possível. J. Castor estremeceu. Meio coberto por um véu branco, o garoto parecia um boneco de cera. Obscena e explícita, a morte ali exibida era o contraponto grotesco de suas esperanças. Buscava a vivacidade dos campos, a fonte da vera inocência, os desejos realizados, não obstante, o cadáver sobre a mesa tudo corrompia. J. Castor atentou para tossidos oriundos de outro canto do cômodo. Deus tenha misericórdia! disse a velha. O caçula também se adoentou. Está febril, tem tremores e, às vezes, delira. O outro se achava junto à parede, deitado sobre um colchão miserável, e seu semblante macerado voltava-se na direção do morto.


       J. Castor evitou o desfalecimento diante de um cenário tão deprimente. Sob a atenção hábil e sinistra da senhora, sentiu-se esgotar ao contato com tantas desgraças. Houve o impulso de fugir, contudo, existia igualmente a consciência de ter-se atraído por outra motivação. Talvez resistisse ainda dentro dele vestígios daquele propósito inicial. Ah, o repouso campesino… Belinda! O nome foi proferido pela velha. Um homem veio te ver, Belinda. Surgindo por trás da parede que separava o cômodo de dormir, Belinda adiantou-se vagarosamente. Decerto estivera tentando descansar, reunir de novo as energias físicas perdidas após o fracasso da batalha. O outro garoto continuava vivo, afinal, e exigiria dela novo combate. Manchas escuras rodeavam os olhos de Belinda, rugas acentuavam-se no semblante, e os cabelos que jamais foram rubros e fartos agora se mostravam de constituição ainda mais frágil e carente de viçosidade. Fitou J. Castor desnorteada pelo sono. Belinda é tão só, sussurrou a velha, o senhor pode salvá-la. Belinda gastou alguns instantes até visualizá-lo com clareza, e passado certo estranhamento, assomou-lhe ao rosto toda a estupefação. Havia reconhecido o protagonista de uma circunstância patética. Reagiu com certa indignação no começo, mas em seguida o cansaço venceu, repondo nela a letargia. Mesmo visivelmente humilhada, Belinda submeteu-se a encará-lo de modo suplicante. J. Castor recuou automaticamente: não viera preparado para aquilo. Trata-se de um engano, senhorita, me perdoe, me perdoe. Soltando-se das garras hábeis da velha, evadiu-se às pressas do casebre.


       Pegou o táxi que surgiu na primeira esquina. Dentro do automóvel, aspirou o cheiro consistente do couro macio nos bancos. Sentia-se, finalmente, seguro. Para onde, doutor? J. Castor considerou a pergunta, e respondeu ao motorista: Me leve para longe… para bem longe.           


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).