" " NOVA CASTÁLIA: Abril 2014

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domingo, 27 de abril de 2014

ASSIM MORRE A INOCÊNCIA





       Casualmente, foi dessa maneira que J. Castor defrontou-se com o quadro no terceiro andar daquela agência de publicidade. Seu escritório era no sétimo, e jamais se deslocava ao terceiro, onde havia apenas o almoxarifado. Dia desses, abrindo-se a porta do elevador, atendeu ao impulso, e acabou descendo no piso errado. Tendo o elevador se fechado com velocidade, hesitou entre aguardá-lo de novo ou utilizar a escada, e antes que viesse a decidir, avistou o quadro. Tratava-se, na verdade, de uma ilustração, uma ilustração de características refinadas, admitiu J. Castor. Provavelmente servira a alguma campanha do passado, mas perdendo sua utilidade, terminara figurando na parede suja daquele corredor. O contraste, decerto o contraste com a parede sórdida justificava suficientemente o seu espanto. A jovem da ilustração, a jovem de cabelos rubros, vestido branco e singelo, carregando flores em um cesto, aquela jovem passeando em cenário campestre, em um cenário longínquo, descosturado da realidade, aquela jovem cativou J. Castor.


       Havia um segredo no terceiro andar, e J. Castor tornou-se cúmplice dele. Sempre que possível, descia de modo discreto e, em silêncio, contemplava a protagonista da ilustração. Suas feições não se encontravam meticulosamente delineadas pelo artista: o nariz delicado e os lábios polposos distinguiam-se, porém, o resto do semblante era apenas a suposição da placidez. Mesmo a suposição – tão-somente ela – foi o bastante: J. Castor esperava com ânsias beber na fonte daquela placidez, ser também ele habitante do cenário campesino, e partilhar a companhia da jovem. Os escritórios claustrofóbicos, as criaturas gélidas e descoradas de sua convivência, a cidade colossal, a cidade compressora de gente, a cidade e todo o restante, enfim, contrapunham-se ao sonho. Sua existência denunciava aridez, e J. Castor só queria mesmo deambular por outra paisagem, umedecendo os pés descalços, sorvendo o oxigênio puro, mirando, extasiado, os traços fisionômicos de sua jovem companheira. Sofria calado e medonhamente ao debater-se no rodamoinho de tal delírio. Talvez não ignorasse totalmente estar distanciado da realidade palpável, mas como aquele fascínio exibisse garras tiranas, J. Castor não foi forte o suficiente para se libertar da situação.


       O delírio baralha a compreensão dos signos externos – qualquer tratado de psicologia confirma isto – e a vertigem de J. Castor transbordou, infectando inteiro o seu cotidiano. Subindo a avenida central durante uma tarde chuvosa, enfim ele acreditou surpreender a jovem no contato fortuito e miraculoso entre ambas as realidades. O talhe humilde da mulher certamente acrescentava consistência humana à beldade retratada na ilustração. J. Castor quase levitou ao testemunhar aquele desejo supostamente realizado. Sim, é ela, estou convicto… Outra pessoa em semelhante situação, caso comparasse as duas com alguma lucidez, demonstraria ceticismo. A camponesa da ilustração exibia o porte elegante e os cabelos fartos que faltavam à outra. O nariz da mulher de talhe humilde imitava a delicadeza – concordo –, no entanto, a pele achava-se recoberta com pequenas manchas. Quanto aos lábios polposos, eram característica exclusiva da jovem campesina. Porém, J. Castor tinha um trunfo, e esse trunfo consistia em haver discernido vestígios de inocência pastoral no semblante daquela mulher. O encontro fortuito sucedeu em outras ocasiões, e J. Castor brevemente cartografava todos os roteiros dela. Chegava logo cedo a um casarão da avenida central e, ao entardecer, deixava o mesmo endereço rumo ao seu lar. Certa vez, J. Castor observou-a conduzindo com meticuloso desvelo um homem idoso pelas alamedas arborizadas do parque e, dessa forma, concluiu tratar-se de uma enfermeira. Cada dia passado mais aumentava a sua afeição, alimentando-se do testemunho visível oferecido por aquele cotidiano tão generoso. Sabia necessário abordá-la em algum momento, porém, percebia-se confuso quando tentava forjar mentalmente a situação que lhe parecesse mais adequada.


       Refém dessa confusão, J. Castor acabou produzindo um desastre quando decidiu agir. Carecendo de uma estratégia antecipada, bateu à porta do casarão talvez acreditando que a ousadia fosse suficiente para conferir o êxito. Se ao menos tivesse ensaiado duas ou três sentenças… J. Castor saiu-se com um balbuciar de frases trêmulas e desconexas enquanto, junto à porta, a mulher testemunhava o seu vexame mal conseguindo esconder o desconforto da situação. Sem dúvida foi desastroso. Saiu dali abalado, devendo a ela justificativas convincentes, e supondo ter estragado tudo. Desde então, seria totalmente impossível cruzarem-se na avenida central como dois desconhecidos, e J. Castor viu-se limitado a espreitá-la, sorrateiro e a distância, oculto entre as árvores ou em diferentes esconderijos. Privar-se daquele contato mais próximo com a inocência pastoril, contato diário e supostamente casual, rápido ia-se tornando algo desumano, e J. Castor afundava em dolorosa tristeza. Consumia o tempo formulando soluções, qualquer coisa que fosse capaz de consertar definitivamente o estrago. Mas na verdade considerava-se já desmoralizado – diante de si mesmo e da outra – de tal modo que todas as soluções refletidas se apresentavam como puras tolice e banalidade. Foi assim se ajustando à condição de renegado, escolhendo abrigos que pudesse encurtar o afastamento. Pouco mais daquele esforço, e a resignação talvez fizesse com que se sentisse até mesmo satisfeito. A rotina do admirador longínquo atingia certa estabilidade, e J. Castor imaginou ter driblado a tristeza.


       Sua satisfação reduzira-se ao mínimo – tinha consciência –, no entanto, só dispunha daquilo realmente. Por esse motivo, semanas depois, agoniou-se ao ser privado também daquele escasso deslumbramento. A mulher de caráter humilde desapareceu – assim repentinamente – como se os tons e as linhas da realidade palpável houvessem esmaecido. Outra pessoa assumiu as obrigações no casarão, alguém tão diferente dela e também da campesina que J. Castor não se permitiu ludibriar outra vez. Tomado pela abstinência, buscou o terceiro andar, e ali descobriu que a contemplação fria da imagem tornara-se insuficiente. Sua natureza exigia, ao menos, estar vigilante atrás de árvores, protegido contra o risco de qualquer encontro desastrado. A enfermeira carecia do porte elegante, entretanto, J. Castor afeiçoara-se ao corpo em movimento. O vestígio campestre nela encontrado – pouco, muito pouco – era o seu simulacro de primavera salvando-o do desespero padecido em ambientes suburbanos. Só existia uma atitude a tomar em tal circunstância, e embora J. Castor não a ignorasse, tremia sempre que se dispunha a calcular suas consequências. Certa vez, ao cair da tarde, ousara seguir aquela mesma mulher até a região distante onde ela habitava. Utilizara todos os cuidados disponíveis, e conseguiu realizar o trajeto dissimulando-se a ponto de não ser descoberto. Havia despendido, então, duas horas de trem até atingir os limites da cidade, mantendo a distância segura, e ali avistara a mulher ingressando por uma estrada de terra. Dessa maneira, J. Castor supunha estar ciente de seu paradeiro.


       Evocando essa recordação, J. Castor decidiu-se novamente pela ousadia. Tomou o trem, e tendo saltado naquela região longínqua, após alguns minutos de caminhada, acercou-se da estrada de terra. A lama decerto respingaria nos sapatos, sujaria a barra de suas calças, mas isso em nada o perturbou. Um casebre construído na base de tijolos, cimento e ripas de madeira parecia aguardá-lo, e ainda titubeante J. Castor bateu à porta. Foi atendido por uma velha de semblante sisudo, trajada em negro do pescoço à borda inferior do vestido. Procuro uma senhorita, acredito que more aqui, uma senhorita enfermeira. Havia algo de astuto e enérgico naquela senhora, e mesmo com os olhos amarelecidos pela velhice, analisou-o com austeridade. Entre, disse. O ambiente era escuro, e além da umidade respirava-se na atmosfera um cheiro rançoso de podridão. Com a mão rija e áspera, a velha segurou o pulso de J. Castor: o contato causou nele imediata repugnância. Ela passou a noite em claro, meu senhor, está cansada. Fez o possível… todo o possível. Conduziu-o a outro cômodo, e solenemente mostrou-lhe o corpo do menino depositado sobre a mesa. Vê? Ele parece tranquilo agora, mas escarrou sangue durante duas noites. Ela fez todo, todo o possível. J. Castor estremeceu. Meio coberto por um véu branco, o garoto parecia um boneco de cera. Obscena e explícita, a morte ali exibida era o contraponto grotesco de suas esperanças. Buscava a vivacidade dos campos, a fonte da vera inocência, os desejos realizados, não obstante, o cadáver sobre a mesa tudo corrompia. J. Castor atentou para tossidos oriundos de outro canto do cômodo. Deus tenha misericórdia! disse a velha. O caçula também se adoentou. Está febril, tem tremores e, às vezes, delira. O outro se achava junto à parede, deitado sobre um colchão miserável, e seu semblante macerado voltava-se na direção do morto.


       J. Castor evitou o desfalecimento diante de um cenário tão deprimente. Sob a atenção hábil e sinistra da senhora, sentiu-se esgotar ao contato com tantas desgraças. Houve o impulso de fugir, contudo, existia igualmente a consciência de ter-se atraído por outra motivação. Talvez resistisse ainda dentro dele vestígios daquele propósito inicial. Ah, o repouso campesino… Belinda! O nome foi proferido pela velha. Um homem veio te ver, Belinda. Surgindo por trás da parede que separava o cômodo de dormir, Belinda adiantou-se vagarosamente. Decerto estivera tentando descansar, reunir de novo as energias físicas perdidas após o fracasso da batalha. O outro garoto continuava vivo, afinal, e exigiria dela novo combate. Manchas escuras rodeavam os olhos de Belinda, rugas acentuavam-se no semblante, e os cabelos que jamais foram rubros e fartos agora se mostravam de constituição ainda mais frágil e carente de viçosidade. Fitou J. Castor desnorteada pelo sono. Belinda é tão só, sussurrou a velha, o senhor pode salvá-la. Belinda gastou alguns instantes até visualizá-lo com clareza, e passado certo estranhamento, assomou-lhe ao rosto toda a estupefação. Havia reconhecido o protagonista de uma circunstância patética. Reagiu com certa indignação no começo, mas em seguida o cansaço venceu, repondo nela a letargia. Mesmo visivelmente humilhada, Belinda submeteu-se a encará-lo de modo suplicante. J. Castor recuou automaticamente: não viera preparado para aquilo. Trata-se de um engano, senhorita, me perdoe, me perdoe. Soltando-se das garras hábeis da velha, evadiu-se às pressas do casebre.


       Pegou o táxi que surgiu na primeira esquina. Dentro do automóvel, aspirou o cheiro consistente do couro macio nos bancos. Sentia-se, finalmente, seguro. Para onde, doutor? J. Castor considerou a pergunta, e respondeu ao motorista: Me leve para longe… para bem longe.           


sábado, 26 de abril de 2014

SILÊNCIO COMPULSÓRIO






Há noite e em mim existe o silêncio
compulsório, silêncio que constrange

o corpo a um torpor absorvente.
Calo-me, embora a chuva no quintal
martele o seu compasso persistente
em sinfonia dura e natural.

O silêncio dos lábios é contraste,
e eu sei trago comigo a confissão

pejada de sentenças inconclusas
e gritos em estado adormecido
– enfim o sono rompe suas eclusas

HABITANTE DAS SOMBRAS





O escritor é um indivíduo que caminha pelas sombras. Julga, por acaso, que assim defini-lo significa somente exagerar o suposto caráter exótico dos que se dedicam à literatura? Será uma tentativa de realçar certa fama de marginalidade que este ou aquele autor conquistou devido às peripécias de sua biografia atribulada? Penso, neste caso, em Arthur Rimbaud comercializando ilegalmente armas na Etiópia, em Bruno Tolentino cumprindo vinte e dois meses de pena em Dartmoor, e também no romancista norte-americano Jack London, condenado a trinta dias de cadeia por vadiagem – tornou-se clichê citá-los principalmente nessas situações vexatórias, sei disso, mas acredito necessário levar absolutamente tudo em consideração na existência dos escritores, inclusive suas misérias, e, ademais, não costumo esconjurar os clichês com aquela arrogância vã dos intelectuais de primeira viagem. Talvez a sentença inicial deste ensaio gere, portanto, alguma confusão, e acreditem, serei o último habitante deste planeta a estranhar qualquer má interpretação, posto que a cultura transformou-se mesmo em um circo fedorento, e até a definição tradicional do que seja um escritor já se perverteu de todas as maneiras possíveis e imagináveis, de tal modo que, ao suscitar a palavra, sinto percorrerem-me tenebrosos arrepios ao suspeitar o que esta evoca na cabeça das pessoas. Porém, o que tencionava dizer era apenas que a literatura sempre foi ocupação que coloca os indivíduos em circunstância social desconfortável, obrigando-os, muitas vezes, a viver uma espécie de exílio dentro da própria existência, coisa que, ao fim e ao cabo, alça-os à categoria de habitantes das sombras.

Provavelmente tenha sido sempre, mais ou menos, dessa maneira, e pouco importa a época histórica: o escritor é como aquele cubo de formato excêntrico que, nas mãos de uma criança, simplesmente não combina com o jogo de encaixar. Houve momentos, eu admito, em que eles conquistaram maior relevância dentro da sociedade – da alta sociedade! –, tornando-se atraentes a determinados salões da aristocracia. Gozavam de certo privilégio, então, participando de saraus, despertando a curiosidade de personalidades, e granjeando até mesmo a simpatia (e alguns cobres!) de duques e baronesas. Honoré de Balzac e Fiódor Dostoiévski souberam imortalizá-los com admirável perspicácia. O primeiro, por exemplo, na figura de Melchior de Canalis – para citar somente um desses peculiares personagens de A Comédia Humana –, e o segundo na de Stiepan Trofímovich[1]. Mas aquela aristocracia era sedenta de novidades, e a situação do escritor poderia modificar-se, em ocasiões variadas, caso repentinamente os seus romances saíssem de moda. Sucedendo, o escritor compreendia não ser exatamente parte integrante da estrutura que o rejeitava; estivera temporariamente a seu serviço, adornando-a, emprestando-lhe o brilho de seu talento, o peso considerável das convicções que professa, a importância de sua notoriedade, até que tudo deixasse de parecer interessante, e ele fosse descartado.

De novo o regresso às sombras… Mas a circunstância é esta, sem dúvida: a escassa estabilidade da condição do escritor, neste mundo, força-o constantemente a tolerar situações de tal natureza. Se isso pode ainda surpreendê-lo, decerto será por não conhecer as coisas com suficiente seriedade. Pois a literatura jamais foi considerada moeda de câmbio em transações comerciais, jamais teve o status das crenças que os seres humanos confessam, jamais gozou do apelo fisiológico para a manutenção da espécie. A literatura não oferece, em essência, qualquer utilidade prática de relevância. Convidado a responder a questão Para que serve a poesia, Bruno Tolentino ousou confirmar a realidade: A poesia não serva para nada. Basta-lhe unicamente ser bela. Sim, apenas isto. Parece pouco? Frugal, dirão alguns insatisfeitos. Para aqueles que dispõem de entranhas, e, no entanto, carecem do espírito, talvez a frugalidade desse alimento decepcione. Fazer o quê? A literatura é mesmo um manjar sofisticado e, às vezes, carrego a convicção de existirem estômagos grosseiros em número excessivo. Numa sociedade regida pela força dos instintos, a condição do artífice de sutilezas será, a todo o instante, temerária.

Também é verdade que esse estado de existência do escritor costuma despertar certo fascínio. Afinal, a moeda tem dois lados. Se lhe usurpam a possibilidade de contar com alguma situação social estável, com qualquer posição razoavelmente segura, em contrapartida está franqueada, diante do escritor, a perspectiva da liberdade. Alçado sobre valores materialistas em demasia, o sistema nega-se a acolhê-lo com o devido respeito – quando às vezes o acolhe, termina cobrando dividendos morais altíssimos –, e, não obstante, o escritor conserva, nas mãos, a prerrogativa de romper a consistência de certos laços, desvencilhando-se deste ou daquele arrimo. Em Paris é uma Festa, Ernest Hemingway recorda os tempos de estada na capital francesa, afirmando haver deixado o jornalismo, na ocasião, com o objetivo de dedicar-se exclusivamente à literatura. Há bastante dose de heroísmo nesse ato – convenhamos. Heroísmo somente? Creio que exista, ao mesmo tempo, o verdadeiro e inconfessado sentimento de vingança: desprezado pela sociedade, o escritor decide menosprezar também os confortos que esta oferece. Paga sua liberdade com o preço da miséria. Por muito tempo – e talvez ainda atualmente –, as experiências que Henry Miller confessou em Trópico de Câncer serviram como paradigma utilizado por aspirantes. Acredito, entretanto, que só uns poucos reúnam coragem suficiente para aceitar a radicalidade dessa escolha existencial até as últimas consequências. Mesmo os que hoje conseguissem efetivar tal façanha, com certeza não encontrariam o cenário estimulante que foi a Paris de Miller e Hemingway. 

Até esse obstáculo o escritor necessita ultrapassar: o desafio de habitar os tempos da terra desolada. Parecerá provavelmente agora ser um tipo mais destemido ainda? Caminhar com teimosia na corda bamba, peregrinando por desertos áridos, rodeado por bestialidade, ignorância, desfaçatez, futilidade… Um destino pouco invejável, creio eu, e mesmo a suposta mística que envolve o rebelde, mesmo o fascínio que emana do indivíduo capaz de dissociar-se do rebanho, mesmo isso talvez não seja o suficiente para justificar tantos sacrifícios. O escritor submete-se somente por carecer de outras opções. Sim, ele compra a liberdade ao preço da miséria, e, no entanto, é uma liberdade faminta, desprezada e solitária. Pudesse, o escritor certamente usufruiria o conforto e as facilidades usufruídas por qualquer burguês. Se não o faz, se oferece a esse mundo a vingança do não, é por ser-lhe vetado conservar nele o cultivo da literatura. Despreza o dinheiro apenas quando se vê na posição de escolher entre ele e a vocação. Mas em outra circunstância diversa, devota-lhe inegável respeito, e caso alcance conquistá-lo em considerável quantidade, usa-o, às vezes, com sabedoria. O conforto e a segurança jamais prejudicaram a literatura; ao contrário, proporcionam maior tranquilidade ao escritor, fomentando o processo criativo ao liberá-lo das preocupações inerentes à vida prática. Com silêncio, privacidade e dolce fa niente, todo escriba tem à disposição os meios necessários para engendrar obras de qualidade. 

São poucos os privilegiados que conseguem dispor de situação semelhante. Para a maioria, ao contrário, o desafio consiste em equilibrar-se dentro da existência, abraçando sua literatura como o náufrago que se esforça no intuito de conservar-se à superfície da água. Caso não se revele suficientemente forte para derrotar a miséria, adaptando-se a ela, neste caso o escritor percebe-se obrigado a encontrar alguma ocupação paralela que lhe proporcione o necessário à subsistência. Mesmo essa solução, porém, é sentida como violência crudelíssima – acredito que a forma como eu denomino tal circunstância seja, de fato, bastante adequada. Mas eis que alguns discordarão. Pareço até ouvir, desde agora, argumentos em favor da dignidade do trabalho, evocando a imagem gloriosa do ser humano que, a custa do esforço, vence a resistência do meio. Talvez defendam, inclusive, a superioridade desse heroísmo quando comparado ao outro: aquele do escriba submetido à miséria. Ora, ora! Sou capaz de verter algumas lágrimas minguadas. Sem dúvida tocante tal exortação humanista. Tornando outra vez à mera realidade, devo ter o cuidado de não esfarrapar demasiadamente o termo heroísmo, utilizado antes de maneira irônica – cansam-me os exageros. Pois o escritor não deseja assumir a postura do herói, não exige a prerrogativa de ingerir a literatura, a miséria ou o trabalho como o mártir ingere o cálice de cicuta. O escritor espera tão-somente realizar o seu ofício com certa tranquilidade, e sem necessariamente dispor de luxo ou fortuna cuja origem seja mundana. Todo conforto almejado é aquele do tempo oferecido ao cultivo da arte.

O poeta Ezra Pound mobilizou diversos mecenas com o objetivo de angariar fundos que permitissem a T. S. Eliot dedicar-se apenas ao cultivo das Letras. Eliot encontrava-se, então, à beira de um colapso nervoso por ser-lhe necessário dividir-se entre sua poesia e as obrigações no Lloyd's Bank in London. Acredita realmente, caríssimo colega, que a literatura seja o tipo de amante propensa a tolerar algo menos do que a exclusividade? Pois ela garante: Nada de condescendências! Sim, a literatura deseja integralmente o escritor, e o escritor corresponde com intensidade a essa obsessão. Caso este não se submeta ao domínio, devido a questões de ordem pecuniária, é como se existisse cortado ao meio. O tempo dedicado a qualquer outra atividade parece-lhe, assim, verdadeira usurpação, exercício farsesco que o conduz a trajar-se com o fraque de diversa criatura, sendo coagido a representar o papel daquilo que, definitivamente, ele não é. Tenho convicção de que sustentar essa rotina terrível durante longo tempo geralmente traz consequências psicológicas ao indivíduo. Há muito de doentio nas obras legadas por Franz Kafka, muito de sufocante, e certo que a biografia desse autor tcheco submetido ao cotidiano de uma ocupação sombria, burocrática e absurda determinou tais características.

Ocorre a certos escritores, eventualmente, acomodar-se a determinado tipo de estrutura que reputo ser artificial, e que historicamente, de quando em quando, alça-se à categoria de sociedade organizada: refiro-me à estrutura de caráter ideológico. Eis a típica situação em que o artista consegue esquivar-se daquele estigma de elemento avulso ou contraditório, transformando-se em parte integrante do sistema. Antonio Gramsci[2] defendeu o conceito de intelectual orgânico, ou seja, aquele que, assimilando o pensamento defendido pela ideologia, torna-se o propagandista dogmático vinculado ao Partido, ao invés de portar-se dignamente como analista imparcial da realidade. Sendo membro da intelectualidade, o escritor acaba ganhando, desse modo, algum relevo dentro da sociedade partidária, como se a literatura prestasse um serviço à manutenção da estrutura. Assume, como doutrinador, um papel de imprescindível utilidade no contexto da causa revolucionária. Só os autores que cooptassem com o regime comunista da URSS conservavam sua liberdade; os demais eram perseguidos, presos, deportados ou, então, enviados a campos de concentração, onde a maioria terminava morrendo. Mesmo no Ocidente, muitos escritores sacrificaram a própria consciência em prol do projeto revolucionário. Cito os exemplos de Jean-Paul Sartre e André Gide – este último, arrependido após haver regressado de uma viagem à União Soviética, escolheu denunciar os crimes perpetrados por Stálin[3].

Com o desmantelamento da União Soviética, o escritor engajado, o prestador de serviços ideológicos, ao contrário daquilo que se supôs, continuou existindo, tornando-se, inclusive, de atuação mais vigorosa, na medida em que a revolução cultural socialista prosseguiu a sua expansão no interior das sociedades ocidentais. Foi construída no Brasil durante esse tempo, por exemplo, uma rede de militância bastante ampla que se dissemina não somente através da imprensa, mas também em centros culturais, bibliotecas públicas, universidades federais e estaduais, institutos de iniciativa privada, etc.; coletando invariavelmente financiamento de governos, a rede sustenta centenas e centenas de escritores orgânicos com seus projetos e premiações ditas culturais. Entre esses indivíduos, não existe um real compromisso com a verdade ou a literatura. Visam apenas corroborar com seu discurso em uníssono e suas obras panfletárias toda a agenda ideológica do Partido. Caso o escritor em questão demonstre compartilhar os ideais desse grupo, então, neste caso, certamente encontrará abrigo no esquema. Oferecerá, em troca, a anulação completa da individualidade, sacrificando, assim, o direito de exercer a crítica ao sistema que o financia e, consequentemente, sacrificando também a liberdade de pensamento.

Se existe vantagem em carecer de qualquer posição determinada e estável dentro da estrutura social, tal é precisamente a de estar desobrigado de agir ou pensar como se lhe fosse exigido corresponder, com fidelidade, a determinadas expectativas. Tão vacilante é a situação do escritor que este, de fato, dispõe de escassos recursos a comprometer. Portanto, encontra-se liberto daqueles laços de mútuo interesse que costumam atar os indivíduos às conveniências. O talento literário torna-se, dessa maneira, instrumento capaz de refletir, com agudeza, o meio circundante, criticando-o sem constrangimentos quando necessário. Eis aquilo que reputo ser o máximo trunfo do escritor. Abdicar dessa vantagem, como aconteceu, em tantas ocasiões, entre os intelectuais militantes, significa malbaratar o ofício da literatura, traindo seu verdadeiro espírito. Significa desprezar a originalidade, em favor da hegemonia cultural e, enveredando por essa rota equivocada, significa igualmente submeter o público à dominação ideológica.         

Provavelmente não existirá solução simples para a existência do escritor. Ser a figura de formato excêntrico em momento algum facilita suas circunstâncias. Enquanto ele se mantiver fiel à vocação, enquanto a literatura continuar sendo a pátria desejada – e não qualquer mera filiação partidária –, enquanto as coisas transcorrerem desse modo, o escritor conservará, ao mesmo tempo, a autenticidade da obra e o caráter instável da existência. Porque consiste justamente nisso o fato de o rechaçarem teimosamente: desagrada o compromisso com aquilo que é autêntico. E a sociedade… a sociedade que tantas vezes glorifica a conveniência, a impostura, a mediocridade, costuma suportar de maneira pouco condescendente o contato com o talento unido à veracidade. Por esse motivo o escritor caminha sempre sobre a corda bamba. Devido a isso carece de um lugar estável na estrutura. Retroceder ou condescender não deve representar, para ele, a correta escolha. Cabe-lhe, ao contrário, trajar integralmente as vestes originais do destino, aceitando todas as dificuldades inerentes, e vivendo da melhor forma possível aquela identidade que lhe aconteceu possuir. 


[1] Do romance Os Possessos.
[2] Os Intelectuais e a Organização da Cultura.
[3] Tudo exposto na obra Retour de l'URSS.