" " NOVA CASTÁLIA: Fevereiro 2017

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

TRUMP COMO LE GUSTA (OU NÃO)



O presidente eleito dos Estados Unidos deve ter certamente suas virtudes – afinal, conquistou delegados suficientes para superar sua adversária: a democrata Hillary Clinton –, mas entre essas virtudes não computo a sutileza. Os primeiros decretos presidenciais comprovam isto. Se a política é a arte da negociação, construir um muro na fronteira com o país vizinho e impedir a entrada de cidadãos de nações muçulmanas em território norte-americano está distante de revelar um perfil diplomático. Donald Trump não se mostra para muita conversa, e talvez seja essa faceta de sua personalidade que tenha atraído a simpatia do eleitorado conservador. Trump faz o tipo chefão austero e carrancudo que se notabilizou no ramo dos negócios imobiliários, cassinos, hotéis e entretenimento. Uma figura avessa a qualquer inclinação politicamente correta que não se constrange em afirmar que obrigará o governo mexicano a pagar os gastos da construção do famigerado muro e nem tampouco de suscitar dúvidas a respeito da nacionalidade de Barack Obama. Goste-se de Donald Trump ou não, é preciso admitir que se trata de uma figura política sui generis. 

Mesmo que a imprensa tente construir uma imagem exageradamente negativa de Donald Trump, o fato inegável é que ele representa uma mudança política cujas consequências não se restringem à sua atuação. O discurso de Trump tem elementos conservadores e nacionalistas que se coadunam com o ressurgimento de linhas políticas mais direitistas na Europa. Sua visão a respeito dos imigrantes – principalmente árabes – é compartilhada por Marine Le Pen, candidata à presidência da França. Outros países da comunidade europeia também já demonstraram estar dispostos a dar uma guinada no sentido de um conservadorismo político. Sem dúvida, existe também um discurso mais tradicionalista na atual ideologia vigente do governo russo, o que justifica, de certo modo, a aproximação que houve entre Donald Trump e Vladimir Putin durante a campanha presidencial dos Estados Unidos. Portanto, o cenário mundial está distante de ser antagônico ao surgimento de um personagem do quilate de Donald Trump. 

Por mais que surpreendam os decretos iniciais de Donald Trump, urge tentar entendê-los dentro de um contexto mais amplo. Certamente suas decisões não se tratam apenas de características da personalidade que lhe cabe. Trump tem realmente seu estilo, e gostem ou não, ele caiu nas graças de um eleitorado que clamava por ordem e segurança. Porém, como disse antes, o modo Trump de ser mais se encaixa em um cenário específico do que o constrói. É evidente que o fato de ser o presidente da nação mais importante do mundo dá a seu papel protagonismo, no entanto, neste momento não se pode afirmar que ele esteja manifestando-se em um idioma político indiscernível. Ele se expressa em um tom que parece ser a tônica da atualidade. Pois além do pânico causado pelo terrorismo islâmico – o qual pretende justificar o impedimento de cidadãos muçulmanos de certos países ingressarem em território norte-americano –, existe também um saturamento com linhas ideológicas que tradicionalmente defendem conceitos como, por exemplo, o globalismo e o multiculturalismo. Em um mundo no qual o Islã esforça-se na tentativa de impor um califado universal sob a égide da sharia, dizimando populações inteiras em uma limpeza étnica sem precedentes, é natural que surjam vozes no Ocidente com discurso anti-islâmico. Gente que não está disposta a oferecer aos muçulmanos a tolerância que eles próprios se negam a outorgar, por exemplo, aos cristãos residentes em território árabe. Depois de décadas de abertura a outras culturas, os ocidentais começam a fazer contas, e concluir que os projetos globalistas e multiculturalistas decerto ocasionaram uma situação catastrófica. 

Para além das polêmicas suscitadas pelas decisões do presidente norte-americano, duas questões exigem ser discutidas:

1ª) A forma como Donald Trump começa o mandato é realmente tão problemática – conforme coloca a mídia liberal – quanto a ameaça do terrorismo islâmico?

2ª) Quais serão os limites próprios do estilo de Trump no contexto do sistema político norte-americano?

Parece curioso como a sensibilidade de certos grupos sociais e de determinada linha de imprensa aflora-se diante da postura do atual governo, pois o que se observa, em contrapartida, é muitas vezes indiferença no que tange à perseguição islâmica às comunidades cristãs no Oriente. Se existe uma situação calamitosa na atualidade, esta não é decerto o posicionamento de Donald Trump contrário à imigração, mas sim o ataque civilizacional ao cristianismo. Permitir-se forjar uma visão pessoal da realidade baseada única e exclusivamente no noticiário liberal é acreditar em uma exacerbação do caráter problemático da atual presidência norte-americana, e, sobretudo, não enxergar com clareza suficiente onde se localiza, de fato, a verdadeira crise. Significa assumir uma ótica interpretativa distorcida. Observe-se, por exemplo, que na última semana de seu mandato, o ex-presidente Barack Obama retirou as prerrogativas dadas aos imigrantes cubanos de adquirem direito de moradia em território norte-americano quando em fuga da ilha. Tal decisão, no entanto, não suscitou semelhante má vontade da classe jornalística e nem tampouco de outros governantes estrangeiros, o que prova cabalmente a existência de uma distorção.

Urge também considerar, como contraponto, que as atitudes primeiras de Donald Trump refletem a posição que escolheu durante toda a sua vida no comando de suas empresas e no programa televisivo que apresentou. Trump sempre foi o chefão poderoso cuja determinação tornava-se lei independente do quanto isso pudesse ocasionar desagrado. Trata-se, sem qualquer dúvida, de um empresário bem-sucedido que edificou uma imagem pessoal de homem severo cujos resultados financeiros são de competência assegurada. Nessa situação, ele não necessita confrontar-se com outros poderes – ele é o poder absoluto! – porém, como presidente, suas ações estarão parcialmente limitadas pela coexistência dos poderes legislativo e judiciário. Isto já começa a acontecer com o embate que, neste momento, Trump tem travado com o juiz federal de Seattle que suspendeu a medida que proibia a entrada no país de refugiados e cidadãos de sete países. Essa circunstância talvez revele que a falta de tarimba diplomática e sua personalidade centralizadora poderá inviabilizar, na prática, o mandato do presidente eleito.

Só o tempo dirá, afinal, se essa onda conservadora protegerá Donald Trump de suas dificuldades ou se ele será tragado pelo ataque daqueles que se mostram reticentes às suas posturas. 




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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A VOCAÇÃO E SEUS PERCALÇOS



Toda vocação consiste em uma aposta. De fato, não existe qualquer garantia de que ao segui-la ocorrerá o sucesso. O sucesso não é garantido, o reconhecimento também não, e, em última instância, nem mesmo a felicidade é garantida. A história mostra que muitos artistas, intelectuais, cientistas, etc., que decidiram seguir sua vocação morreram em estado de frustração. E aqui não estou aludindo às pessoas que traíram sua vocação ou então que preferiram enterrá-la. Refiro-me, especificamente, àqueles que não somente foram fiéis a ela, mas sobretudo realizaram algo de valioso. Mesmo estes muito frequentemente não encontraram o êxito esperado, nem tampouco a felicidade. A despeito disso, somos levados a acreditar que a vocação é o caminho que nos conduz a uma espécie de júbilo profundamente humano, acompanhado de aplausos. Contudo, não seria o caso de encarar a vocação como se encara o martírio?

Mesmo não oferecendo sempre o sucesso como recompensa, e a despeito de ser, às vezes, um peso difícil de carregar, há na vocação algo que nos coage a sacrificar em seu altar o melhor daquilo que somos. Suor e sangue. A essência da alma. As fibras de nossa musculatura tensa. Tudo isso empenhamos na esperança de saciar um impulso interior. E a miséria não se torna obstáculo. A doença também não. Aliás, nem tampouco a prisão consegue impedir o esforço aflito de trazer à tona todas as forças latentes da vocação. Nesse quesito, ou seja, no que tange ao sacrifício, o indivíduo que a ela se entrega aproxima-se bastante daquela virtude da santidade.

Dentre as experiências marcantes da minha vida, ter lido Recordações da Casa dos Mortos certamente está na escala das mais intensas. Neste livro, o autor relata os anos terríveis transcorridos no cárcere devido a uma condenação política. Na companhia de indivíduos com características violentas, no frio austero da Sibéria, Fiódor Dostoievski testemunhou sua vocação literária ser testada ao extremo. A descrição da angústia de um homem sufocado por um ambiente adverso, tendo sua liberdade usurpada, e necessitando proteger a todo custo o talento, oferece à obra tons magistrais. Foram a convivência com círculos intelectuais russos e a atividade subversiva contra o Czar a motivação de seu encarceramento, mas nem tamanha frustração conduziu Dostoievski a desistir de realizar sua vocação. Tendo sido libertado, anos depois, durante certo tempo esteve ainda proibido de publicar seus escritos. Faminto e doente, dependeu exclusivamente da boa vontade do irmão. A despeito de tudo isso, e vencendo as adversidades, produziu romances paradigmáticos como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov e Os Demônios.

Também na prisão, o filósofo Boécio escreveu um memorável texto no qual personifica a Filosofia, servindo-se dela para se consolar. A tese central de Boécio é precisamente que, mesmo nas adversidades, a busca da Verdade necessita continuar sendo o sentido máximo da existência. Decerto o pensamento de Boécio lança luminosidade sobre o problema da vocação, pois a questão toda em seu trabalho reside na capacidade humana de transcender os limites físicos e circunstanciais através da elevação do espírito. Inclusive no cárcere, o filósofo encontra uma forma de aliviar os sofrimentos da alma através do conhecimento. No caso específico dele – e, contudo, não somente dele – isso constitui a vivência integral da vocação. Uma vivência que alcança ultrapassar os obstáculos e realizar algo de louvável apesar de todas as condições contrastantes.

Há existências humanas tão avessas ao impulso vocacional que sua experiência pode ser continuamente contraditória. Quando me refiro a isso não estou somente aludindo à natureza íntima do indivíduo, porém sim à sua situação externa. Por exemplo, cito os casos do pintor holandês Vincent Van Gogh e do escritor francês Léon Bloy. O primeiro vitimado tanto pela penúria quanto pela loucura, e o segundo refém de uma existência atribulada. Não houve para nenhum dos dois consolo mais benfazejo do que a arte realizada. Não houve o reconhecimento merecido em vida, e não se pode afirmar categoricamente que tenha existido mesmo a compreensão de seus pares. Porém, tais espíritos, sendo inquietos, não se vergaram tão facilmente diante das dificuldades, deixando como legado obras consistentes. Tê-los como exemplo de talento e persistência talvez seja aconselhável, entretanto, quantos desejam igualmente admitir as consequências negativas dessas biografias? Quantos suportariam estoicamente tantos sofrimentos em nome de um ideal superior? Nisto reside a verdadeira questão!

Por vezes, seguir a vocação é semelhante a caminhar no escuro, ou seja, trata-se substancialmente de um ato de fé. Crê-se em algo. Mas em quê? Isto quase ninguém consegue definir. Há diversas portas e algumas sugerem a possibilidade de se franquearem, mas o que sobrevirá a essa passagem? Outra solução não resta: se o indivíduo está intimamente comprometido, avança na expectativa quase religiosa de que seus esforços serão recompensados – de algum modo – senão nesta existência frequentemente ingrata, ao menos no acaso de uma posteridade gloriosa.


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