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quinta-feira, 25 de junho de 2015

O PAPA E OS TRADICIONAIS ORTODOXOS



No Mosteiro Trapista do Paraná, sempre que me encontrava em retiro, conversava com um dos irmãos a respeito de questões ligadas ao catolicismo. Sentia uma grande satisfação de poder interagir com um monge que vivia intensamente a existência monástica da mesma maneira que viveu Thomas Merton, o trapista norte-americano, autor de uma variada obra espiritual.

O irmão trapista com quem tinha o hábito de conversar chama-se Guilherme.

Certa vez, trocando considerações sobre o interesse mútuo que nutríamos pela espiritualidade das igrejas cristãs ortodoxas, nós observamos que a confissão oriental, separada de Roma após o grande Cisma ocorrido no século onze, conseguiu preservar muito bem a tradição dos primeiros séculos do cristianismo, mesmo rejeitando o conceito de um Sumo Pontífice que centralizasse a autoridade, como é o caso do Papa.

Cada igreja ortodoxa tem seu patriarca, e cada patriarca está em pé de igualdade com os demais. Para que uma mudança doutrinária aconteça entre os ortodoxos, é necessário que todos os patriarcas concordem com essa transformação.

Os católicos sempre depositaram sobre o Papa bastante confiança. O sucessor de Pedro era o protetor da doutrina, ou seja, enquanto a cátedra petrina estivesse ocupada, os ensinamentos de Cristo se conservariam em segurança.

Recentemente, Padre Gabriel Bunge, um monge beneditino católico decidiu converter-se à ortodoxia. Segundo ele, sua busca pelas feições tradicionais do cristianismo fez com que decidisse pela conversão, um processo que se acentuou depois das mudanças realizadas no Concílio Vaticano II.

De fato, nesses últimos cinquenta anos, os pilares tradicionais do catolicismo foram sendo retirados, e em seu lugar vigoram novas ideologias e uma liturgia mais parecida com o culto dos protestantes. Se João Paulo II e Bento XVI se esforçaram para moderar essa situação, Francisco se empenha em acelerar esse processo de adaptação ao modernismo.

Portanto, recai sobre o Papa atual a missão de modificar a doutrina tradicional da Igreja Católica. Uma situação bem sui generis se considerarmos que, até outro dia, a figura papal tinha o significado contrário.


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domingo, 21 de junho de 2015

PREVIEW: NO TEMPO DOS SEGREDOS (1º E 2º CAPÍTULOS)


1.


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.
               Eugénio de Andrade


       Quando o passado regressa, contamina tudo aquilo que existe. Os instantes, até mesmo isso o passado contamina. O instante do despertar e perceber o escárnio teimoso do vazio no lado oposto da cama. O passado é consistente e doloroso e quase palpável e quase passível de ser carnalmente tocado. Por baixo das folhas descoradas que recobrem o chão, o passado mistura-se à poeira das ruas, evocando Lisboa. Os cafés de Lisboa, os passeios de toda a gente, os elétricos, o Tejo deitando-se, jeitoso, em direção ao oceano. Tudo revivido. O passado confunde os signos do cotidiano, toda a estrutura da realidade, desordenando as mesmices da aposentadoria de Gaspar. Torna-se, então, o segundo, o terceiro, o quinto, o vigésimo significado presente nos versos, nos versos conhecidos desde sempre e continuamente redescobertos. O passado ressurge desse modo, impedindo Gaspar de esquecê-la: Celeste Correia dos Reis Azinhaga. 
       O riso de Celeste. Os caracóis cor de trigo dos cabelos que os ventos do Algarve emaranharam em certo Agosto já distante. Celeste ostentando cabelos revoltos em contraste com a doçura costumeira de gestos e expressões. Curvava o dorso e utilizando os braços, envolvia os joelhos desnudos. O sol do Algarve dourava-lhe as faces pintalgadas. Volvia-se, de quando em quando, o verde dos olhos confidenciando segredos. Todos dirigidos a Gaspar, e guardados silenciosamente por ele durante décadas. Todos regressando na conhecida caligrafia daquele envelope perturbador e surpreendente.

                                                                    *

       Gaspar Fernandez ocupara a cátedra de Literatura Comparada durante vinte e cinco anos na Universidade de São Paulo. Caso desejasse, estaria apto a continuar ocupando o cargo como outros professores, mas quando surgiu uma oportunidade da aposentaria, resolveu aproveitá-la. Poucos colegas conheceram o motivo de tal decisão: causava-lhe aborrecimento tanto a excessiva politização do curso quanto o debilitado talento dos estudantes. Gaspar jamais se casou, e desde o falecimento do pai, residia, sozinho, na mesma antiga casa localizada no bairro de Higienópolis. Com tempo vago, dedicou-se principalmente à paixão pela literatura – agora purificada dos estandartes ideológicos. Construída criteriosamente durante as últimas duas décadas, sua biblioteca particular era realmente bastante diversificada. Gaspar admirava todos os autores selecionados, porém, escolhia guardar uma predileção especial aos poetas brasileiros e portugueses.
       Todas as tardes acomodava-se à varanda, cercado por vasos e também acompanhado de algum pardal que eventualmente ali se abrigasse. Consigo trazia este ou aquele volume selecionado. Ajeitava os óculos, geralmente despendendo breves segundos até reconhecer a postura que julgasse adequada. O estofado da cadeira de vime era confortável. Desfolhava os versos, então, apreciando-os, desprovido daquela exigência profissional do catedrático; só necessitava ter, em tais momentos, o amor dedicado à poesia. Os adeptos do fanatismo ideológico que costumavam infestar o Departamento de Letras, enxergando racismo e opressão em cada simples metáfora, estavam completamente excluídos daquele seu momento particular. Só a voz dos poetas ecoava. Gaspar cedia, em certas ocasiões, à tentação de meditar um tanto mais demoradamente acerca de um e outro trecho. Declinava o livro aberto sobre o peito, e vagando o olhar de modo displicente, deixava o pensamento voejar enquanto observava o movimento cotidiano do bairro.
       Os dias conservavam a mesma estrutura. Criou a rotina quase espontaneamente, como consequência dos traços de personalidade que lhe eram característicos. Gostava, por exemplo, de percorrer as vias de Higienópolis depois de tempestades raivosas. Tão logo cessava a torrente, todas as impressões eram colhidas por Gaspar, desde a visão do asfalto coberto por folhagens e galhos retorcidos até os odores peculiares da chuva. Talvez julgasse captar algo de poético naquelas circunstâncias. Cercado pelo concreto de São Paulo, tais ocasiões ofereciam-lhe o contato mais próximo com a natureza, como se o furor da tempestade rompesse a agitação da cidade, o caos diário de pedestres e automóveis. Os minutos que sucediam às chuvas violentas induziam muitos habitantes à indecisão: o céu continuava tingido com tonalidades escuras, e trovões espocavam, aqui e acolá, desacreditando os aventureiros. Decerto pareceria bem pouco seguro arriscar-se ao exterior naquela situação. Não obstante, Gaspar costumava aproveitar esses raros momentos, e trajando a capa grossa e adequada, calçando sempre os sapatos de solas emborrachadas, escolhia o percurso de forma aleatória, recolhendo nos cabelos curtos os derradeiros pingos do firmamento.
       Todas as atividades da vida rotineira eram realizadas solitariamente. Transcorridos já dez anos desde o falecimento de seu pai, o velho Fernandez, Gaspar compreendia, com resignação, que o estado solitário atingira um nível de estabilidade. Vez por outra, acontecia-lhe sentir saudades do velho Fernandez e seus colóquios renitentes, suas esquisitices de ancião. Mas, em geral, entendia ter-se acostumando com a ausência. Após haver-se retirado para a aposentadoria, talvez movido por decoro social, chegou a visitar o campus uma ou duas vezes, porém, ao fazê-lo, compreendeu estar definitivamente excluído daquele ambiente, como se os colegas e ele existissem em dimensões paralelas. Ora, paciência, Gaspar resignou-se, desobrigando-se de qualquer abatimento. Conseguia, inclusive, concordar que algo daquele seu estado solitário apetecia-lhe. Os livros prediletos serviam-lhe perfeitamente como fiéis companheiros. Seus caprichos e costumes compuseram, portanto, o cotidiano de uma velhice sossegada.
       Ocorria-lhe, amiúde, frequentar certo restaurante português da região. O habitual era fazer as refeições diante do televisor, acomodado no sofá, observando o noticiário com desinteresse, como se os ruídos pretendessem somente dissimular o silêncio. Ingeria os sanduíches que ele mesmo preparava ou comida congelada do supermercado. Se Gaspar optava pelos tais congelados, agia motivado por questões meramente práticas. Sabia que o gosto daquele tipo de alimento era muitas vezes insosso e decepcionante, porém, ao menos aquilo evitava ter trabalho em demasia na cozinha. Visitar o restaurante português aliviava um pouco sua rotina. O garçom do estabelecimento já o conhecia, e, de costume, os dois dispensavam alguns minutos confabulando acerca de trivialidades. Logo depois, o cliente ocasional deliciava-se com a especialidade da casa: mariscos acompanhados de vinho verde.
       Foi ao retornar do restaurante, em ocasião recente, que acabou deparando-se com o envelope de cor escura no interior da caixa do correio. Há tempos recebia tão-somente as mesmas correspondências gerais: duas ou três revistas, alguns periódicos, contas de consumo e propagandas variadas. O envelope indicava postagem de Londres, e como remetente trazia o nome da mulher que despertava nele recordações angustiantes.

                                                                          *

       Ao espanto seguiu-se a constatação de um desequilíbrio. Tudo desequilibrado, tudo arruinado absolutamente. O esforço despendido durante décadas, em vão aquele esforço para esquecê-la e encarcerar memórias e sentimentos, erguendo paredes de silêncio. Tão logo encarou o nome de Celeste escrito no envelope, e reconheceu sua caligrafia, tão logo compreendeu que ele segurava nas mãos o passado redivivo, vestígios de certa circunstância que supunha já sepultada, tão logo deduziu que a correnteza o carregaria ainda uma vez mais, Gaspar estremeceu.
       Os signos todos daquele cotidiano construído de modo tão peculiar desconcertaram-se: Celeste estava presente. Pela manhã, ela parecia testemunhar o sono solitário de Gaspar no cômodo de cortinas beges e pesadas. Discretamente, dava a impressão de acompanhá-lo às ocasionais caminhadas através do bairro de Higienópolis. Gaspar confundia, assim, períodos diversos: o contemporâneo e aquele outro, o tempo antigo vivido em Portugal. Celeste mantinha-se calada. Porém, Gaspar era capaz de perceber o semblante de tez claríssima e o franzido característico da testa que se manifestava quando ela imergia em pensamentos. Vislumbrava também o roçar ligeiro da mão retirando os cabelos defronte aos olhos e o jeito de sempre ostentar naturalidade. Celeste ressurgiu atravessando o véu esbranquiçado que separava os tempos atuais daqueles anos longínquos, causando-lhe perturbação.

                                                                              *

       O pai de Gaspar dedicara-se durante alguns anos a cuidar de um jardim, dando preferência a espécimes como o alecrim e o estragão. O espaço utilizado era diminuto, e ficava entre o portãozinho de ferro e os degraus que conduziam à varanda. Ali o velho Fernandez delimitara um retângulo de terra com tijolos, fazendo daquilo um verdadeiro hobby. Tendo-se aproximado a velhice, e padecendo certa debilidade física tão característica daquela fase, viu-se impossibilitado de oferecer a atenção que o jardim necessitava. Logo as ervas daninhas misturaram-se aos alecrins e estragões. Testemunhando como se desvirtuava melancolicamente aquele trabalho, Gaspar supunha comprometer-se com uma retomada do cultivo tão logo fosse possível. Talvez até mesmo pretendesse fazer uso do descanso usufruído em seus anos de aposentadoria. Porém, os dias transcorreram, e o retângulo de terra continuava exibindo aquele aspecto deprimente. Gaspar preencheu a varanda com vasos, tencionando ludibriar a própria consciência. Tampouco essa solução conseguiu aliviar o desgosto que lhe causava tanto postergar. 
       Tempos depois de haver recebido a correspondência, Gaspar decidiu que o momento de restaurar o jardim chegara. Foi à loja de jardinagem, e trouxe consigo o material exigido: adubo, sementes, ferramentas, pequenos exemplares dos espécimes desejados e até um regador de alumínio. Por trás daquela agitação, estava ciente da existência de outros objetivos: desvencilhar-se dos pensamentos que o conduziam teimosamente a Celeste. Os costumes que ocupavam seu dia tinham fracassado lamentavelmente. Toda a literatura dizia o nome daquela mulher e toda a paisagem encharcada de São Paulo evocava recordações lusitanas. Celeste e a câmera fotográfica captando detalhes de casarões, monumentos e antigos postes de iluminação de Lisboa. Gaspar desesperou-se ao ser dominado daquela maneira, e supôs que o exercício de recuperar o jardim pudesse ajudá-lo.
       – Quase um jardim europeu – exagerou, contemplando o trabalho realizado, e utilizando o dito jocoso que o velho Fernandez repetia todas as vezes que encerrava os cuidados periódicos.
       Fatigou-se, era bem verdade. O sol escondera-se atrás das nuvens e, não obstante, o dia mantivera-se quente. Gaspar transpirara abundantemente. Usou o lenço muitas vezes recolhendo o suor que descera pela testa. Antes de se dirigir ao banho, esticou um derradeiro olhar para o jardim. Agradou-lhe novamente constatar o resultado. O espaço recuperara aquele aspecto ordenado de antes, e talvez o mais importante, com tal atividade Gaspar conseguira mitigar o efeito das recordações, ao menos durante algumas horas.
       Sob o esguicho de água candente que jorrava do chuveiro, pretendeu reconquistar as energias despendidas durante o esforço. Apetecia-lhe o ato de curvar-se, deixando que o calor e a pressão massageassem-lhe as costas e o pescoço. Todo o corpo era tomado por uma lânguida satisfação. O ritual costumava funcionar com razoável eficiência, contudo, daquela vez, as energias tardavam seu regresso. Gaspar deu-se conta de que as pernas amoleciam e os sentidos iam falhando devido à vertigem. Apoiando-se na parede, conseguiu equilibrar-se de forma precária. Como não estivesse acostumado a empreender esforços físicos, julgou que o desgaste pudesse ter consequentemente ocasionado a debilidade. Por cautela, sentou-se no piso, conservando a posição durante quase uma hora, até supor estar razoavelmente recuperado. Depois de trajar-se, planejou fazer uma refeição. Os sanduíches frugais ingeridos no almoço decerto não haviam sido suficientes para conservar sua resistência.
       Gaspar sempre evitara criar cachorros em casa, e justamente por esse motivo, espantou-se ao escutar os ruídos de um cão. Tendo chegado à varanda, viu um cocker de pêlos rubros revolvendo o terreno do jardim. Tudo o que fora plantado tão cuidadosamente encontrava-se espalhado numa aparência dolorosa. O cenário era realmente terrível. Gaspar partiu em direção ao cocker disposto a enxotá-lo, mas ao agir impulsivamente, esqueceu-se do desconforto padecido momentos antes. Conseguiu, no máximo, esboçar duas ou três passadas. A dor que despontou no estômago foi pungente ao extremo, e perdendo totalmente as energias, Gaspar caiu.

                                                                               *  
       O médico deteve-se avaliando os exames. Tratava-se de um tipo pesado, cujas bochechas flácidas e descaídas exageravam o caráter circunspecto da aparência. Às vezes aspirava demoradamente, e ajeitando os óculos, estreitava o olhar direcionado ao paciente.
       – O senhor é casado? – questionou, pigarreando.
       – Solteiro.
       – Vive com algum parente?
       – Vivo sozinho.
       – Sozinho?
       – Exato.
       Outra vez o médico pigarreou.
       – Certo, certo… – vasculhou os papéis, encontrando a ficha com o histórico do paciente. – Parece que o senhor está aposentado. Professor universitário, correto?
       – Correto.
       – Observo aqui que o senhor estava só em sua residência quando sofreu o desmaio. Sendo preciso ter acompanhamento, no futuro, existe alguma pessoa próxima que se responsabilize?
       – Não existe ninguém.
       – Compreendo – o médico dedicou-se a fazer duas ou três anotações breves, agitando a caneta, de quando em quando. Dando-se por satisfeito, retomou o diálogo utilizando outro tipo de abordagem. – O que me diz a respeito das dores?
       – Os analgésicos que me receitou na semana passada aliviaram um pouco, mas confesso que ainda dói de vez em quando.
       – Vertigens?
       – Às vezes… ligeiramente, é bem verdade. Ontem estive deitado durante a tarde. Por precaução, já que acordei indisposto.
       O médico desceu os óculos, encarando-o com cuidado: – Hoje se sente melhor?
       – Pode-se dizer que sim.
       – Pois então vejamos… – era já a segunda vez que o doutor perscrutava os exames que Gaspar trouxera. Transcorridas duas semanas após a incidência daquele mal-estar, o paciente continuava ainda às escuras. Falou-se do tumor, não obstante, exigia-se a biópsia: somente ela determinaria a gravidade da situação. O médico encerrou o suspense: – O resultado das análises constatou realmente um tumor maligno, e lamentavelmente em estado avançado.
      – Mas com o tratamento… – Gaspar agarrou-se à derradeira esperança.
       – O tratamento não reverterá o quadro, Sr. Fernandez.  Fazendo uso da quimioterapia, sempre conseguimos estender o período de vida do paciente.  Mas, neste caso, calculo que não passará de seis meses.
       Gaspar estremeceu ao tomar consciência do diagnóstico. Raramente fora acometido por doenças desde o dia de seu nascimento, e daquelas que ele não pudera escapar, nenhuma se mostrara excessivamente grave. Tivera gastrite, porém, disso se curara tomando alguns cuidados. O pai falecera vitimado por um acidente vascular cerebral, mas aquela fatalidade sucedeu-lhe quando alcançava já oitenta e tantos anos. Isto fizera com que Gaspar descartasse o risco de enfermidades genéticas. Logo, a notícia daquele tumor em situação bastante avançada vergou suas convicções. 
       Restavam-lhe, então, apenas seis meses. Um processo irreversível, a despeito do uso de remédios e do tratamento quimioterápico – métodos necessários para aliviar o sofrimento. Gaspar percebeu que o tumor corroía de modo insidioso, e só o que lhe restava fazer era retardá-lo temporariamente. Que destino melancólico… Controlar as dores e o desgaste corporal, agarrando-se, resignadamente, ao que sobejava das energias vitais.
       Tendo regressado ao sobrado, em noite já avançada, agasalhou-se na penumbra do seu escritório. O estado de saúde conhecido através daquele diagnóstico chocara-o, e encontrava-se atônito e calado. Quando decidira esquivar-se da cátedra universitária, dedicando sua velhice ao deleite de páginas e páginas de grandes escritores, jamais antecipara mentalmente a possibilidade daquele tumor. Encolheu-se no sofá, incapaz de qualquer movimento. Tudo parecia estagnado. Tudo chegando a algum momento decisivo e estarrecedor. Cada minuto esvaído significava o prazo de seis meses esgotando-se. Todos escorriam astutamente, como grãos de areia delgados. Supôs que talvez conviesse recorrer aos volumes acumulados em suas estantes, abrindo ao acaso, este ou aquele, movido pelo objetivo de fruir conselhos, como se a poesia ou a ficção tivessem o poder de serená-lo em tal situação. O caráter oracular da literatura, entretanto, não foi capaz de convencê-lo.
       Talvez a lembrança de Celeste pudesse consolá-lo. Celeste cujas feições ele desejara retirar da memória, escondendo o passado debaixo da terra escura do jardim, conservando tudo emudecido como se representasse, de fato, um grande perigo. Semanas antes, Gaspar deixara-se surpreender, dentro do cômodo, pelo espectro daquelas tantas recordações, e não somente no cômodo, mas também nas calçadas, durante as andanças de costume. Celeste evocava tempos dolorosos. Numa tentativa desesperada de conter aquela situação, guardara o envelope intacto dentro de uma gaveta de sua escrivaninha. Como permitir que Celeste lhe dirigisse a palavra outra vez? Tantas décadas depois, seria desastroso.                                        


2.


       Celeste confessou: – Adoro-te. Teu queixo, teus lábios, teus cílios, teus olhos. – Logo em seguida, aconchegou a cabeça no peito desnudo de Gaspar, e disse: – Os teus olhos são peixes verdes.
       Com o sol declinando para além do oceano, só a eles e às gaivotas pertencia a paisagem litorânea. Os pássaros esboçavam vôos acrobáticos de movimentos tão extravagantes que era impossível antecipá-los. Pousavam todos momentaneamente, distribuindo-se sobre o areal como anjos irrequietos. Gaspar gostou de perceber como a pele de Celeste ousava outra tonalidade. Após quatro dias no Algarve, a palidez trocara-se pelo bronze discreto que sua constituição aceitava. Os cabelos espalhavam-se em cima do corpo de Gaspar, e este compreendeu que a jovem adormecera. À noite, pretendiam descansar no hotel onde se encontravam hospedados e, ao amanhecer, pegariam a estrada de retorno a Lisboa.
       Os teus olhos são peixes verdes, Celeste dissera, citando o verso do poeta cujo livro dedicava-se a ler.
       Gaspar ergueu ligeiramente o pescoço desejando observar os pesqueiros que, no horizonte, já se adiantavam ao trabalho noturno. O movimento fez com que Celeste interrompesse o descanso, e o encarasse com expressão inquisidora. Os olhos esverdeados da jovem rutilavam.
       – Os seus olhos também são peixes verdes – ele disse.
                                                                      

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O ETERNO RETORNO E A TRANSCENDÊNCIA


Certas coisas me deprimem. Uma delas é observar como, em determinados ambientes, os indivíduos encontram-se aprisionados a questões repetitivas e aparentemente insolúveis. São rixas, discussões e dificuldades que voltam à baila de tempos em tempos sem jamais admitir solução. Parte-se de um princípio (sempre o mesmo) e rodopiando em torno deste centro, retorna-se ao ponto de partida, fechando o círculo.

As pessoas que se acham nessa circunstância têm a impressão de não encontrar saída.

Na Grécia Antiga e em boa parte das culturas tradicionais existiu o conceito de eterno

retorno. Dentro desse conceito, o ser humano estava destinado a regressar sempre ao ponto de partida, revivendo as situações conflitantes de sua existência. A figura da serpente engolindo a própria cauda simboliza perfeitamente essa dinâmica. Tudo está limitado pelo movimento restritivo da serpente ancestral.

Sabemos que a serpente representa a maldade e sabemos também o altíssimo nível de maldade que existe nesses ambientes acima mencionados.

O autor Valentim Tomberg, em seu estudo Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô (editora Paulus), oferece-nos uma interessante análise do arcano A Roda da Fortuna. Nesta carta, observamos três figuras características protagonizando esse movimento circular da roda: o macaco de feições humanas na descendente, o cachorro de feições humanas na ascendente e no topo da roda uma esfinge. Tomberg decompõe a simbologia utilizando-se inclusive de conhecimentos científicos, no entanto, basta-nos aqui sua análise acerca do eterno retorno e da transcendência.

O movimento descendente é um círculo fechado do qual ninguém se evade a menos que entre no processo ascendente que conduz à transcendência, neste arcano representado pela figura da esfinge. Portanto, tão-somente o contato com Deus conduz à saída desse aprisionamento. Sem dúvida, tendo surgido no enredo da tradição

judaico-cristã, o conceito de escatologia – o término da história e a entrada do ser humano na felicidade da vida eterna – representa a condenação do eterno retorno.

Distanciar-se fisicamente desses ambientes viciados pela dinâmica do círculo obsessivo consiste no ato básico da libertação. Porém, como existem ainda consequências psicológicas e espirituais, apenas a força divina conseguirá realizar, de fato, o rompimento definitivo dos grilhões.




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