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segunda-feira, 28 de julho de 2014

O COLÓQUIO LITERÁRIO




1.

A literatura de alto nível representa uma tentativa de colóquio sempre que se oferece como uma exposição filosófica em padrão ficcional[1] ou como uma experiência de confissão cujo intuito é o de expressar os valores de caráter íntimo e existencial pertencentes ao escritor. Portanto, o objetivo consiste em estabelecer conexão entre o autor da obra e seu interlocutor. Para cumprir essa exigência tão fundamental revela-se de suma importância que o artífice das palavras previna-se com a clareza e a honestidade, pois o diálogo só pode acontecer em nível superior caso nele exista não somente a inteligibilidade textual, mas também a transparência das intenções. O autor jamais deve pretender burlar o leitor. Isto não significa, naturalmente, que seja preciso servir-se durante o colóquio de uma linguagem comum com o objetivo de facilitar a compreensão. Se o propósito é sublimar a literatura, exige-se incluir a sutileza e a sofisticação como ingredientes. Sendo assim, eleva-se a norma que determina o colóquio, conservando-se, ao mesmo tempo, toda a sinceridade e a nitidez necessárias. O leitor despreparado para o entendimento perfeito dos termos desse diálogo, tendo-se confrontado com a literatura superior, talvez manifeste confusão semelhante ao do neófito que segura nas mãos qualquer texto de caráter hermético. Contudo, essa semelhança é superficial. Mesmo que, às vezes, uma desague na outra, a alta literatura e a literatura hermética são coisas distintas. Dessa maneira, basta unicamente que o esforço pessoal e intelectivo acompanhe o leitor durante sua abordagem da literatura clássica; e considerando-se que o diálogo sugere a franqueza e é teoricamente aberto, torna-se dispensável a prévia seleção: os interlocutores não são iniciados aos quais se concedem chaves de interpretação secretas e exclusivas que devem ser preservadas da curiosidade profana. O acesso é ofertado a todos, e cabe ao leitor conquistar os instrumentos geralmente utilizados no processo de interpretação.


A obra literária não é fruto casual e espontâneo da inteligência criativa do escritor, antes se demonstra a consequência de todos os elementos que a antecedem e justificam sua gênese. Creio ser tola a hipótese de que a obra surja como o resultado de uma inebriante inspiração, ostentando assim aquele aspecto de novidade tão característico das coisas divinas. Pelo contrário, a alta literatura se encontra inserida em uma tradição que se estende pela história, conservando essa herança sempre que se dispõe a dialogar com os representantes da linhagem a que pertence. Seria quase possível afirmarmos a existência de um gene literário discernível em toda a produção superior. Logo, a correta abordagem dos clássicos exige adquirir o conhecimento dessa tradição, assimilando a temática concernente aos colóquios que ali se desenvolvem há muito tempo. Munido dessas informações, o leitor alcança interpretar os signos literários sem a necessidade de uma iniciação esotérica porque, foi afirmado anteriormente, a entrada que oferece acesso à alta literatura encontra-se franqueada a todos aqueles que dela se aproximam com disposição para o estudo. Para além do conhecimento dessa herança tradicional, é auspicioso possuir também uma visão abrangente do contexto histórico em que foi elaborada e ambientada a obra. Pois a literatura não se desvincula do tempo, e o tema motivador sempre conserva vínculos com a realidade momentânea. Sem adquirir consciência do que seja a teologia católica medieval, por exemplo, o leitor nunca desvendará o verdadeiro significado daquilo que é a Divina Comédia de Dante. Há neste trabalho específico a confluência de questões relacionadas à tradição literária, ao debate teológico da escolástica e à circunstância política da época, e compreender essas questões significa abrir caminho rumo à interpretação profunda do colóquio empreendido por Dante Alighieri. Também não devemos rejeitar os dados concernentes à biografia do autor. Uns mais, outros menos, os literatos costumam refletir nos escritos a sua própria experiência existencial. O revés político sofrido por Dante e a fuga subsequente ocasionada pela perseguição nos ajudam a decifrar o itinerário espiritual por ele descrito.


Os escritores buscam elucidar questões cruciais do seu tempo, e nisso se empenham tomando a rota da reflexão filosófica ou a rota da exposição de seus dilemas pessoais. Dois exemplos ajudarão a compreender. Com a ascensão de regimes autoritários e ideológicos na Europa durante a primeira metade do século vinte – o que causou na sequência a Segunda Guerra Mundial – a crise de valores políticos, culturais e sociais arrojou toda a intelectualidade a uma situação angustiante. Principalmente na Alemanha, os escritores de maior relevância precisaram, então, dedicar-se, de modo exaustivo, à investigação das causas que possibilitaram a loucura do nazismo. O Führer conduziu a nação a uma empreitada bélica que destruiu o continente, exterminando milhões e milhões de judeus. Tudo com a conivência sonora ou silenciosa da população alemã. Diante de uma circunstância terrível, coube aos homens dedicados às letras a responsabilidade de esmiuçá-la, utilizando cada qual o método conveniente e adequado a si mesmo. Thomas Mann remontou às fontes filosóficas da sociedade moderna, e como consequência elaborou um trabalho excepcional que consiste numa análise precisa do espírito europeu, detendo-se mais especificamente no espírito alemão. Sem dúvida, o autor de Doutor Fausto e A Montanha Mágica contava com uma experiência pessoal relativa aos eventos daquele período, não obstante, preferiu realizar uma meditação imparcial sobre a questão. Sempre restam vestígios biográficos na obra concebida pelo artista, é claro, mas em Thomas Mann prevalece a investigação filosófica. Muito diferente é a circunstância de seu compatriota: Hermann Hesse. O responsável por romances como Demian, O Lobo das Estepes e O Jogo das Contas de Vidro foi igualmente uma testemunha ocular daquela barbárie, dedicando-se a refletir sobre o tema. Porém, considerando a obra de Hesse, não é possível dissociar a análise intelectual da vivência pessoal. Todas as conclusões oferecidas por ele tinham, ao mesmo tempo, um caráter objetivo e subjetivo. Seu elogio à paz e à liberdade correspondia ao intuito manifesto de usufruir, em si mesmo, esses valores. Hesse foi sempre um ser humano em busca de sua própria essência, e o que ele propõe ao mundo despedaçado é que reencontre sua herança intelectual e espiritual.


O escritor é quem dá o tom do colóquio, ele é quem estabelece o quanto de si mesmo traduzirá em palavras, em que medida fará da literatura uma reflexão acerca de seus tempos. Há possibilidade de graduações, e as graduações todas costumam ser legítimas, desde que a escolha da forma e do conteúdo venha acompanhada do exercício da sinceridade e da excelência. Ao leitor, repito, cabe munir-se do conhecimento relacionado à tradição, ao contexto histórico, e se necessário deve também amealhar maiores informações a respeito da biografia do autor. Caso os requisitos exigidos a ambas as partes cumpram-se criteriosamente, é certo que o diálogo tem imensas condições de ser fecundo.


2.


Sobre aquilo que o escritor deve esclarecer em sua publicação e aquilo que tem o direito de deixar subentendido ou até mesmo escamoteado muito já foi debatido e escrito. Pretendo retomar o problema da sinceridade como um dos elementos essenciais do colóquio literário, e neste caso será preciso compreender exatamente seu verdadeiro significado, seus limites e sua deturpação. Há uma justa indignação resultante da tentativa de subverter a ordem interna do diálogo com o objetivo de burlar o leitor, mas existe também certo exagero por parte do crítico quando este confunde sinceridade com justificação absoluta da realidade. Para que o colóquio intelectual se estabeleça, é imprescindível a presença da confiança mútua, e essa confiança se firma sempre que ambas as partes decidem reconhecer as regras do jogo. A regra que está contida na origem do diálogo reside neste princípio básico da linguagem: devo exprimir com a máxima fidelidade aquilo que sou. Ou seja, cabe-me empreender o esforço no sentido de conciliar perfeitamente a intenção e a expressão. Só pode existir confiança de fato quando tal preceito for assumido e praticado pelos dois lados em conformidade. O bom funcionamento de toda estrutura social disso depende. Se não subsiste a confiança entre as pessoas, e se essas mesmas pessoas não se comprometem a empenhar uma porção aceitável de honestidade nas relações, então o contato compromete-se, e até mesmo a execução da formalidade mais simples torna-se algo temerário. Portanto, aquilo que é exigido ser válido na sociedade como um todo encontra sua correspondência específica no âmbito da literatura.


O gênero policial estabelece de maneira bastante explícita esse acordo entre o autor do enredo e seu leitor. Outro gênero literário qualquer oferecerá maior liberdade no desenrolar da trama e em seu desfecho, conquanto mesmo nesse caso seja necessária uma lógica intrínseca – menos restrita, é claro, se a compararmos com a lógica das tramas detetivescas, mas ainda existente. O exemplo dos romances policiais talvez nos pareça demasiadamente específico e arbitrário, contudo, serve-nos bem se temos a pretensão de mostrar como é imprescindível a confiança dentro do diálogo. Concordo que haja exacerbação da necessidade de confiança no modelo escolhido; julgo, entretanto, que seja precisamente isto o que torna o gênero de investigação tão adequado. Sempre que abrimos um livro de Conan Doyle, Agatha Christie, Raymond Chandler, etc., e aceitamos ser conduzidos pelos recintos misteriosos por eles criados, atribuímos ao escritor um voto de confiança. Se existe o enigma é preciso existir alguma solução. O elaborador do enredo, aquele que utilizou sua habilidade com o intuito de nos envolver, assumiu conosco o compromisso de apresentar um desfecho digno, e quando tal não acontece, o acordo entre ambos os interessados fracassa. Por exemplo: quando é introduzido um elemento alheio e casual para solucionar o enigma. Ora, sempre que o escritor se dá ao trabalho de criar tramas acerca de roubos ou assassinatos, tramas recheadas de evidências, suspeitos e linhas de investigação, deve apresentar, no fim, um esclarecimento que se encontre vinculado, de algum modo, ao desenvolvimento da história. Seria burlar o leitor se, ao cabo, descobríssemos que o suposto assassinato foi cometido por um personagem alheio ao enredo, ou, ainda pior, se o caso se revelasse consequência de acidente ou suicídio. O tempo e a atenção dedicados pelo leitor à obra devem ser recompensados com uma resposta satisfatória.


O respeito ao código da sinceridade é imprescindível durante o colóquio literário. Somente assim o entendimento dos fatos narrados torna-se possível, oferecendo ao leitor a sensação de que o esforço empreendido teve, de fato, significado. Seu tempo precioso não foi desperdiçado futilmente. Mas neste ponto, acredito ser importante estabelecer o seguinte: utilizar dessa sinceridade na literatura não representa manejar um instrumento que justifique a realidade integral. Observemos que todo o conteúdo do fenômeno literário acha-se envolvido pela abrangência daquilo que existe e é passível de ser vivenciado. Sendo assim, precisamos admitir que o real transcende qualquer espécie de expressão artística ou intelectual. Como simples recorte da realidade, o livro de ficção constrói em seu universo uma estrutura destinada a funcionar com regularidade mais previsível. O exemplo do gênero policial comprova isto. Dentro de suas fronteiras estreitas e bem definidas, é salutar que seja excluído o artifício do absurdo[2] se o que se pretende é ofertar uma solução convincente do mistério. Porém, no momento em que tencionamos realizar uma passagem para outros gêneros, percebemos que a estrutura construída expande-se, tornando, inúmeras vezes, desnecessária a tentativa de justificar tudo. Logo, chega-se à conclusão subsequente: da literatura nem sempre se poderá exigir que constitua um quadro de completa coerência. Quanto maior o grau de realidade que o autor pretenda retratar, maior também acabará sendo o grau de dubiedade contido no processo.


Sem dúvida, nós identificamos na manifestação palpável e corriqueira da vida a presença do inexplicável. Há obstáculos que se interpõem à capacidade humana de compreensão, e mesmo que experimentemos o impulso de tudo catalogar como devidamente explicado, amiúde esse impulso fracassa de maneira medonha. Pois existem situações insólitas, como disse, situações ocasionadas frequentemente por mecanismos do universo circundante ainda não explicados de todo, e existem também circunstâncias que parecem expressar visivelmente alguma realidade sobrenatural; além disso, devemos levar em consideração os obstáculos ao conhecimento que surgem da tendência que nós, seres humanos, temos de produzir segredos. Como deve a literatura abordar tais questões? Tomemos o exemplo de um romance que pretenda retratar a atuação de uma sociedade secreta como é o caso da maçonaria. Sobre a origem dos maçons e sua relevância no desenrolar de certos eventos históricos poderíamos suscitar diversas teorias conhecidas. O escritor que se debruce sobre o tópico escolherá uma das teorias – ou seja, uma das versões que corresponde ou não corresponde à realidade. Nas décadas recentes, o fenômeno dos Ufos e poltergeists tornaram-se motes constantes da literatura e do cinema. Mas cada obra produzida apresentará como desfecho uma explicação tão boa quanto outra qualquer, porque se a ciência não se mostrou capaz de decifrar tais fenômenos, a realidade sobre eles continua inacessível. Sempre que alguém decide por uma das versões disponíveis do fato, atribui à determinada circunstância um significado absoluto que tão-somente existe dentro do contexto literário. Isto representa dizer o seguinte: conduzir a narrativa ficcional no sentido de afirmar que a maçonaria toma, em sigilo, absolutamente todas as mais importantes decisões políticas da sociedade mundial ou que os Ufos são pilotados por humanoides de outra galáxia visitando a Terra com o objetivo claro de dominá-la ou que os poltergeists são espíritos desencarnados que tencionam entrar em contato com os vivos é atribuir à literatura a capacidade de conter em si informações mais amplas e seguras do que aquelas disponíveis em território não ficcional. Talvez seja bastante divertido sob o ponto de vista do entretenimento, mas se trata de um artifício muito duvidoso quando o que se pretende, afinal, é abordar a realidade através do colóquio literário.


Creio que a maioria dos romances que fizeram de experiências sobrenaturais com poltergeists o seu mote principal cairá no esquecimento, mas no caso de A Volta do Parafuso (Henry James) parece-me que existirá sempre a oportunidade de suscitarmos reiteradamente discussões. Certo que James acrescenta à temática nebulosa o preciosismo de sua técnica, reforçando, sem dúvida, a vocação da obra ao status de referência clássica, contudo, a forma utilizada ao abordar o mote – ou seja, sem a pretensão de dar um desfecho detalhadamente explicativo dos fatos – cria uma atmosfera instigante e realista. Os espectros que a governanta da mansão testemunha e identifica como antigos moradores daquele local são aparições fantasmagóricas verdadeiras ou devemos interpretar aquilo tudo somente como consequência de distúrbios psicológicos da protagonista? Henry James não se detém em qualquer justificação específica. Se o fizesse, se ousasse conter o mistério nos limites de alguma teoria – e no que tange ao fenômeno dos poltergeists, teoria de caráter provavelmente incerto –, acredito que A Volta do Parafuso acabaria perdendo em relevância. Durante a leitura, acontece reiteradamente a impressão de estarmos às escuras sobre a origem daquelas aparições fantasmagóricas, evocando em nós a sensação habitual de quem vivencia encontros semelhantes na realidade. Transmitir ao leitor o desconcerto que outrem experimenta diante do insólito é uma concessão que a si mesmo o escritor permite, ou seja, permite-se conservar a verdade oculta por véus, assim forjando na literatura a sensação bastante incômoda vivenciada por quem é confrontado com os mistérios da realidade. Haverá sempre, entre o firmamento e a terra, enigmas insondáveis, e em meio a tudo isso devemos admitir que a posição do homem não é nada confortável. Equilibra-se sobre aquele fio tênue que se estende na fronteira da ignorância e da fé – fé em Deus ou na ciência. Por que o escritor preferirá, nesse caso, criar um simulacro de realidade excessivamente explicativa e fantasiosa? Por que serenar os corações com teorias inconsistentes? Existe um sobressalto natural em todo aquele que se defronta com manifestações do oculto. Por que negar ao leitor a semelhança mais fidedigna dessa vivência?


3.               


Chamar Dom Casmurro novamente ao debate talvez pareça uma repetição cansativa, afinal, quase todas as suposições a respeito dos dilemas conjugais existentes entre os personagens Bentinho e Capitu foram suscitados e esmiuçados por críticos e leitores, e mesmo a biografia de Machado de Assis e suas obras completas receberam tratamento digno em inúmeras circunstâncias, no entanto, esse título específico continua sendo fundamental dentro do âmbito literário brasileiro, e em determinados aspectos – ou ao menos no que tange à temática deste ensaio – admito que sirva perfeitamente como objeto de análise. Seria demasiado presunçoso afirmar que pretendo oferecer qualquer acréscimo à sua interpretação, qualquer detalhe que finalmente elucide a questão crucial: Bentinho terá sido vítima de traição? Machado é, de fato, um exímio escritor, contudo, parece-me que a suspeita mal resolvida desse protagonista adicionou ao romance o tempero que lhe faltava para ser contado entre os clássicos – coisa semelhante aconteceu com A Volta do Parafuso (Henry James). Houve sempre quem torcesse o nariz para o fato de Machado de Assis ter concluído o livro sem apresentar uma solução definitiva. Muitos já disseram: Isto não se faz! No entanto, é possível que, neste caso, estejamos próximos daquela exigência que reputo absurda, ou seja, a exigência de uma justificação absoluta da realidade dentro de um contexto literário. Creio que seja importante aqui realçar que a contestação de um postulado tão caro à maioria dos críticos não ambiciona apresentar-se como um exercício de mera desconstrução daquilo que julgo ser a herança tradicional da literatura. O objetivo não consiste em estabelecer um novo conceito sobre os escombros do conceito antigo. A roleta da novidade parece girar de forma muito previsível e cansativa. Se eu questiono a justificação absoluta da realidade é porque acredito que, desse modo, o trabalho literário se aproxima ainda mais da experiência cotidiana.


Há um território misterioso que insistentemente nos convoca e desafia: o território da intimidade humana. Na dinâmica das relações, repetidas vezes defrontamo-nos com esse território, e o que ambicionamos, sobretudo, é afrontá-lo com a convicção de um explorador, desvendando os segredos que ali residem. Se existe um sentimento de tensão vigente no âmbito das relações, isto se deve à escassa e incerta informação que cada parte integrante tem acerca do interlocutor. Posso verdadeiramente entender o outro, amá-lo e a ele devotar-me sem conseguir vislumbrar com clareza a sua realidade interior? No máximo, para essa finalidade, conseguirei elaborar, de maneira provisória, uma ficção baseada em vestígios da realidade e algumas suposições; contudo, tal ficção destina-se fatalmente a comprometer-se, e até a desmoronar caso o pano que recobre a intimidade do outro se erga ligeiramente. Mas o que pretendemos, de fato, é devassar a interioridade alheia, talvez por ansiarmos, assim, preservar o relacionamento de quaisquer ilusões ou, então, por preferirmos evitar a tensão obrigatória de precisar conviver com o desconhecido. Caso nos fosse concedido ver absolutamente tudo, e tivéssemos franqueado, diante de nós, o caminho que nos conduz à verdade, a dúvida não sobreviveria, e consequentemente também não existiria o receio. Descartar a referida tensão do contato humano é um sonho dourado, entretanto, somos obrigados a aceitar a condição frustrante da ignorância, e o desconforto que dela procede. Eis uma experiência profundamente humana da qual nenhum indivíduo pode escapar: a angústia de não saber. Mesmo admitindo que subsista a possibilidade do conhecimento, e mesmo que aconteça o esforço no sentido de obtê-lo, será necessário conviver com o desconhecido por certo tempo. Pode-se, inclusive, supor a fatalidade de suportar o estado de ignorância durante a vida inteira. Trata-se de algo absolutamente cabível, já que as dimensões externa e interna da realidade excedem bastante o limite da nossa capacidade intelectiva.


Penso ser admissível que esse dado existencial tenha espaço na literatura, que se manifeste, com alta qualidade preferencialmente, retratando essa experiência humana visceral. Retratar a vivência incômoda do desconhecimento é uma ambição literária tão aceitável quanto evocar nos leitores a sensação da nostalgia, do apetite carnal ou da admiração. Neste sentido, a obra de Machado de Assis mostra-se paradigmática e singular por ser um dos raríssimos casos em que o escritor expõe, sem concessões, a situação aflitiva do protagonista defronte de um fato não perscrutável, ofertando-nos a chance de comungar dessa mesma aflição. O drama de Bentinho, a dor de não conseguir decifrar um mistério que lhe acontece, sua condenação ao estado de dúvida, tudo remete ao dilema do indivíduo que se percebe impedido de conhecer a verdade porque esta reside na intimidade inalcançável do outro. Só em Capitu a resposta existe, e enquanto permanece um segredo, permanece no protagonista – e em nós – o desconforto de nada saber[3]. Naturalmente, trata-se aqui de colocar no centro do enredo algo que ofereça consistência dramática verdadeira. Omitir certos fatos concernentes à trama com a função de suscitar no leitor uma situação que traduza os limites humanos é coisa que se justifica; em contrapartida, omitir dados fundamentais sem justificativa suficiente significa burlar o leitor, comprometendo, desse modo, a honestidade necessária ao colóquio literário.


4.


O tema deste ensaio bem poderia ser desdobrado em variadas reflexões, já que o diálogo existente entre os escritores, e aquele outro diálogo desenvolvido na relação escritor/leitor compõem uma tradição fecunda. O alto nível do colóquio, a peculiaridade contida em cada obra pessoal, a exigência da sinceridade e os limites dessa exigência naquilo que tange à tentativa de exposição da realidade integral são alguns aspectos desse debate. Muito do que foi dito já encontrou manifestação semelhante no trabalho deste ou daquele crítico, porém, em tempos de declínio cultural – conforme denunciou Harold Bloom[4] –, reavivar conceitos importantes do cânone literário, e meditá-los, revela-se uma empreitada urgente.

                           





[1] Digo exposição filosófica tencionando expressar qualquer tentativa séria de representar a realidade na literatura através de um esforço intelectual. Mesmo que o autor não faça uso dos conceitos ou da terminologia filosófica, seu esforço reflexivo pode ser assim designado dentro de um contexto puramente literário.

[2] Há no gênero do realismo fantástico a permissão dada à prática do absurdo, permissão esta que se estabelece através de um acordo tácito entre ambas as partes do colóquio: o leitor e o escritor. Concede-se a licença provisória de se romper as fronteiras da normalidade dentro de um contexto puramente ficcional. Os autores de realismo fantástico não apresentam o insólito como algo cabível e corriqueiro, mas sim como um tipo de quebra temporária das regras do cotidiano. Neste caso não existe o risco de burlar o leitor porque este, ao dedicar-se à obra, aceita participar da experiência lúdica.

[3] Semelhante situação ocorre no conto Monsieur Parent de Guy de Maupassant e no romance As Brasas de Sándor Márai.


[4] Bloom, Harold: O Cânone Ocidental, Rio de Janeiro, Objetiva, 2010. O autor lamenta a agenda ideológica defendida por grupos que tomaram de assalto os meios acadêmicos ligados ao estudo das Letras e da Literatura. 

domingo, 13 de julho de 2014

O DISCURSINHO PSEUDOINTELECTUAL SOBRE A COPA




Agora temos que aturar explicações sociológicas, psicológicas, filosóficas, antropológicas e tal e coisa, só porque 23 incapazes tomaram um vareio. Há sempre esforços ridículos no sentido de tentar entender ou justificar as derrotas brasileiras em Copas. Se não é o discurso conspiratório, é aquele outro, ainda mais perigoso, que pretende ser a derrota consequência de uma estrutura falida qualquer. O Brasil nunca teve lá grande estrutura futebolística, e mesmo assim conquistou cinco títulos. Criadora do esporte, a Inglaterra esbanja organização em seus campeonatos, e é useira e vezeira em passar vexame durante a competição mundial.

Se o Brasil passou vergonha em campo, isto se deve a dois motivos básicos, a saber:

Não temos uma geração brilhante, e, no futebol, situações assim demonstram ser realmente sazonais. Em 1970 tínhamos uma geração maravilhosa de jogadores, coisa que não se repetiu em 1974, nem tampouco em 1978. Tivemos em 1982 e 1986 uma ótima safra que, lamentavelmente, não gozou de tanta sorte.

O técnico da seleção preferiu acreditar na mística da camisa brasileira. Se admitisse a baixa qualidade técnica dos jogadores que tinha em mãos, talvez montasse um esquema de jogo diferente. Mais proteção, menos oba-oba.

Sou escritor, minha área é a intelectualidade, porém, adoro futebol. No entanto, prefiro ficar distante dessa tentativa ridícula de transformar o esporte numa discussão ideológica.

Futebol se resolve dentro de campo, e dentro de campo o Brasil esteve abaixo das expectativas.

Somente isso. 

sábado, 12 de julho de 2014

FONTE








No fim tudo sucumbe, e senão tudo,
ao menos essa marcha em despedida
do sol, esse ocultar-se na descida,
recobrindo de sombra o dia desnudo.

Toda beleza impura é consumida.
Sobre o chão a ramagem de veludo,
dentro do cesto o fruto bem carnudo.
Definhar-se, eis a cláusula da vida.

Subsiste tão-somente a eterna fonte,
e é dela que provém a consistência
das coisas, o arcabouço da existência.

Se um círculo se fecha neste mundo,
a gênese suscita no horizonte
outro círculo ainda mais fecundo.
 
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