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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O SER EM CONFLITO - ANÁLISE DAS OBRAS DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO E FERNANDO PESSOA


Diz o poeta Mário de Sá-Carneiro nuns versos sem título: “Eu não sou eu nem sou outro, Sou qualquer coisa de intermédio”. O jovem nascido numa família de militares não fingia a dor confessada: naquela personalidade corroía a angústia da afirmação do Ser. Apesar da origem burguesa, jamais conseguiu adaptar-se às convenções sociais. Abandonou o curso de direito na cidade de Coimbra, supondo encontrar em Paris a vida idealizada. Qual vida? Talvez nem mesmo o poeta soubesse definir. O que lá encontrou foi uma existência boêmia, em contraste absoluto com os desígnios originais – a viagem de Sá-Carneiro, custeada pelo progenitor, tinha como finalidade concluir os estudos na Sorbonne. O poeta sofreu as oscilações de uma personalidade problemática, envolveu-se com uma prostituta, publicou livros que tiveram excelente acolhida junto a um público sofisticado, agitou o meio literário português lançando a revista O Orpheu – ao lado de outros escritores modernistas, como Fernando Pessoa – e, em Abril de 1916, bastante jovem, suicidou-se com estricnina.

Os versos de Sá-Carneiro expressam a aflição do autor sem o subterfúgio de heterônimos. O que lá está é o poeta. Contudo, o tema que neles encontramos é justamente a indefinição do ser, o dilema de perceber-se “qualquer coisa de intermédio”. Seria impossível ler a obra de Sá-Carneiro e não compreender o seu fervente desejo de plenitude. Quer ser completo, quer tudo com profunda intensidade.
Quero ser Eu plenamente, confessa. Quer, portanto, o ideal! Um dos principais fundadores do modernismo português revela assim sua veia romântica. Sabe-se insatisfeito com a existência medíocre e relativa, vida pela metade, diluída em satisfações fugidias.

Ser plenamente. O desejo de Sá-Carneiro não tinha, porém, suficiente objetividade:

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu…

Que os poetas jamais se sentiram inteiramente adaptados às circunstâncias do mundo, Baudelaire já o havia exprimido no seu Albatroz. O jovem lusitano talvez experimentasse essa inadequação, não encontrando na sociedade o lugar adequado, sendo obrigado a vestir o fato de outro, como escreveu Álvaro de Campos. Seu ser íntimo não correspondia com o ambiente ao redor. Sua vocação literária não se reconhecia em Coimbra ou na Sorbonne, excedia o comum de uma rotina profissional. Portanto, Mário de Sá-Carneiro projeta na obra poética a vida tão idealizada, supondo encontrar ali:

Toda a ternura que eu pudera ter vivido,
Toda a grandeza que eu pudera ter sentido,
Todos os cenários que entretanto Fui…

Se o jovem era vítima da vocação artística, se se movimentava desajeitadamente no convés da sociedade, repartido entre a realidade estéril e os cenários projetados, é também preciso admitir que a cultura vigente na Europa do período encontrava-se eivada por quase cinco séculos de pensamento subjetivista, idealista, relativista e niilista. Não, Mário de Sá-Carneiro jamais empunhou conscientemente tais bandeiras nos versos que escreveu, jamais defendeu qualquer escola filosófica específica, mas ali estava inegavelmente um homem do seu tempo.

Tempo de descrença profunda, que não por acaso produziu a visão sombria do existencialismo.

O ser e o não ser reverberaram nos versos de Sá-Carneiro, mas já se “estranhavam” há mais de dois mil anos no debate filosófico. Pode-se afirmar, inclusive, que o pensamento dos gregos evoluiu a partir dos problemas metafísico e ontológico, já desde os pré-socráticos até Sócrates, Platão e Aristóteles – o ser claramente se identificando com a divindade e o não ser com a contingência do material. A influência da Grécia na formação da cultura Ocidental é inegável, e é inegável também que a teologia cristã da Patrística e da Escolástica bebeu nessas mesmas fontes. As ideias de Platão e o Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles se uniram à verdade revelada do cristianismo, e o conceito de Deus como Ser em essência e da existência humana como dependente do Ser de Deus tornou-se consequência necessária dessa aproximação. O indivíduo existe porque Deus “é”, portanto, seu substrato ontológico permanece garantido pelo Ser da divindade. Daí concluímos que a existência do homem depende de um fator ab extrinseco, cuja manifestação na criatura dá-se, não obstante, intrinsecamente.

Tão certo quanto haver a filosofia dos gregos e a teologia dos cristãos estabelecido a origem do Ser em Deus, é a modernidade ter de lá retirado com o objetivo de encontrá-la nos mais diferentes lugares. Já Descartes afirmava que a realidade primordial do homem é o seu ‘pensar’: Cogito, ergo sum… Penso, logo existo! Sim, é fato que ele, em última instância, vai buscar em Deus sua garantia ontológica, mas é indubitável também que sua conclusão existencial não parte da divindade, e sim do seu “pensar”. Se Descartes é o pai do subjetivismo ou se o subjetivismo é a má interpretação de Descartes, o fato é que a ruptura acontece: o “existo porque Deus existe” é substituído pelo “penso, logo existo”. O existir fica dependente do sujeito pensante. Outros filósofos ou correntes de pensamento se esforçaram, de maneiras diversas, na tentativa de materializar o Ser. A História é a materialização do Ser em Hegel, sua evolução dialética o modo como o Ser se desenvolve, e o Estado sua plena realização. Sorvendo nestas fontes de Hegel, o socialismo utópico entende que a sociedade atual ainda não “é” plenamente: será plenamente só quando o estado socialista já não encontrar resistência. O conflito existencial está, portanto, no cerne da cultura moderna, conclusão a que chega Paul Tillich, no livro A Coragem de Ser.

O desejo que Mário de Sá-Carneiro expressa é o mesmo que aflige os modernos: desejo de ser. Sente o impulso de sair de si, de tornar-se outro, de encontrar a plena realização do eu. Como os utopistas, projeta a realização num universo imaginário, esconjurando a realidade atual, tão diferente da vida que lhe apetece viver:

Desfiles, danças – embora
Mal sejam uma ilusão.
– Cenário de mutação
Pela minha vida afora!

Sofre, no entanto, a desilusão. Thomas Morus já explicara o significado da palavra utopia: lugar nenhum. O caminho para a realização do ser não é a fuga da realidade, nem tampouco a idealização de um destino hipotético, de uma vida imaginária. 

Quando o indivíduo alimenta-se com fantasias, acaba experimentando o sabor amargo do fracasso. Cedo ou tarde, o mundo, tal como é, impõe-se forçosamente, e então sobra o lamento:

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a extensão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

O estado intermediário entre aquilo que “é” de verdade e aquilo que pretendia “ser” torna-se um limbo. O indivíduo que ali permanece vaga como as angustiadas almas do Hades. A fantasia está desfeita, o malogro escurece completamente sua existência, como um corvo à espreita da morte inevitável. Já desesperou de encontrar novos caminhos, pois se por um lado não tem qualquer intenção de voltar ao que era antes, supõe também impossível atingir a meta outrora sonhada. O nada é seu destino! Sim, o niilismo foi outra das tendências daquele momento histórico. A completa ausência de significado na vida conduzia à busca tenebrosa pela extinção total. Se o mundo não tem sentido, se só o que existe é sofrimento, deve-se mergulhar no nada! Os personagens de Dostoievski retratam perfeitamente tais indivíduos. Também Mário de Sá-Carneiro optou pelo nada absoluto… O conflito do ser cansou-o ainda na juventude. Seus versos antecipam o suicídio:

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

Além das afinidades fraternal e intelectual, Mário Sá-Carneiro e Fernando Pessoa compartilham a questão do ser. Quando são lidos certos versos de Pessoa, comparando-os aos do colega, chega-se mesmo a imaginar que, caso se atribuísse a autoria ao outro, até o crítico especializado encontraria dificuldades de perceber o equívoco. Não pretendo começar aqui o debate a respeito de quem teria sido influenciado por quem… O tema é espinhoso, e exigiria pesquisas e espaço mais amplos. Da leitura de ambos os poetas fica, contudo, a certeza de que, de modos diversos, travaram uma luta contra esse conflito do ser, o primeiro expressando-se visceralmente e o segundo intelectualmente ou metafisicamente ou, por que não, ironicamente. O poema intitulado Esta velha angústia, do heterônimo Álvaro de Campos – de todos, aquele que vive o conflito de maneira mais radical e mesmo histérica – fala por si:

Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…
Isto.

Tema de complexidade semelhante ao de identificar supostas influências exercidas de um poeta sobre o outro é determinar, com exatidão, até que ponto o Fernando Pessoa encontra-se presente nos heterônimos. Onde é que a realidade termina e onde tem início a ficção? O crítico literário ou o apreciador dos versos pessoanos provavelmente jamais conseguirá chegar a um consenso, pois há indícios de que o próprio bardo lusitano edificou a obra no limite entre o real e a fantasia. O poeta é um fingidor, ele escreve. A João Gaspar Simões, confessa: “O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro – eis tudo… O crítico sabe que, como poeta, sinto; que, como poeta dramático, sinto despegando-me de mim; que, como dramático (sem poeta), transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente, me esqueci de sentir”. São, portanto, ficções construídas sobre alicerces reais, transmutações de si mesmo, variações a respeito do tema pessoano. Seus versos confessam aquilo que “é” o poeta e também o que “não é”. Por isso o poema que lá começava afirmando: O poeta é um fingidor… Segue dizendo: Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.

Adolfo Casais Monteiro crê que o nascimento dos heterônimos foi completamente espontâneo, não sendo um projeto delineado com ampla sutileza de detalhes. Sua opinião é baseada na correspondência que manteve com o poeta, e entendo ser bastante crível. Seja como for, deliberadamente ou não, os principais heterônimos de Fernando Pessoa abordam a problemática do ser e do não ser, sob aspectos diferentes, com perspectivas também diferentes. Que o criador desses personagens fosse dono de uma formação clássica – e não esqueçamos que a cultura clássica é, em essência, o dualismo grego –, os estudiosos não têm dúvidas; daí é possível concluir que a temática do ser e do não ser estava entranhada no seu pensamento.

Álvaro de Campos é, dos três, o que corporifica o dualismo de modo conflituoso, tal como observamos. Quanto aos outros dois, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, aquele aparentemente vive a solução prática do problema, enquanto este pretende a solução teórica. Fiquemos com Álvaro, de início… Nos versos deste heterônimo identificamos mais semelhança entre Pessoa e Sá-Carneiro. Seu criador ousa denominá-lo “o mais histericamente histérico de mim”, pois o poeta a si mesmo se considera histeroneurastênico, com “tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação”. Ora, Álvaro de Campos é a própria despersonalização e simulação, característica que compartilha com Mário de Sá-Carneiro. O heterônimo deseja ser outro também, quer desesperadamente se desvencilhar daquilo que é:

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos, Que felicidade há sempre!
Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.

Pesa-lhe sobre os ombros a impressão de ser um falhado, de não haver alcançado um objetivo qualquer. Eis o lamento que está presente na conhecida Tabacaria:

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.

Aqui se manifesta aquela “qualquer coisa de intermédio” de Sá-Carneiro, o mesmo “estar entre” que o heterônimo confessa. O desejo de ser não é completamente realizado, obrigando o poeta a viver no limbo da indefinição da personalidade. Também como Sá-Carneiro, no entanto, Álvaro de Campos admite sequer ter um objetivo definido:

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

Que não se diga, porém, ser Álvaro de Campos o decalque desprovido de originalidade de Sá-Carneiro. Se o dilema que os incomoda é o mesmo, se a fonte daquele mal-estar é compartilhada, a maneira como ambos reagem mostra discrepâncias. Mário de Sá-Carneiro vive radicalmente o inconformismo da inadequação, jamais se prostra diante da vida prática, assumindo por completo a responsabilidade do êxito ou do fracasso. Quanto a Álvaro, ser ou não ser é intelectualização, o heterônimo não tem a coragem de experimentar, de fato, o radicalismo defendido em versos. Deseja “… ir ser selvagem, entre árvores e esquecimentos”, pouco antes anseia abandonar lógicas e sacadas, mas continua existindo como engenheiro. Sente o impulso e, logo em seguida, o cansaço da realização. Seu aspecto abúlico – herdado de Fernando Pessoa – manifesta-se em Adiamento, por exemplo, ou mesmo nos versos da Tabacaria. Se para Mário de Sá-Carneiro a possibilidade do meio-termo não existe, e seu dilema é angústia e radicalismo, para Álvaro de Campos ser radical exigiria tomar decisões, coisa bem contrária à sua natureza, e por isso o dilema que confessa, é somente angústia e conformismo:

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio!…

O mal sofrido por Álvaro de Campos é o de viver no pensamento constantemente. Ali se percebe aprisionado por elucubrações, girando sempre na vertigem do “quase ser”, do “querer ser”, do saber “não ser”. Quisera sair da imaginação e mergulhar na realidade do mundo! O desejo de abandonar todas as lógicas, deitar fora os fatos da sociedade a fim de ir “ser selvagem” é seu lado romântico. Sabe, no entanto, que não basta somente “estar” próximo a natureza, é necessário “ser” a natureza… O encontro com Alberto Caeiro torna-se, então, acontecimento decisivo. Chama-o de mestre! Caeiro mostra-se o ideal buscado por Álvaro, embora o conceito de idealismo esteja distante dos versos bucólicos daquele mestre.

Que deslumbramento é, afinal, o que Alberto Caeiro promove no poeta engenheiro?

O que encanta e surpreende o discípulo: a filosofia antifilosófica, a metafísica antimetafísica do mestre, a perfeita comunhão, comunhão pacífica confessada entre o poeta e a Natureza. Por não se pensar a si mesmo senão como participante do Todo, Caeiro é o protótipo do ser liberto, desprovido das amarras sociais, das tradições, da civilização tecnológica. O ideal do movimento romântico manifesta-se naquela personalidade, e o mestre conhece “naturalmente” o “… ser selvagem, entre árvores e esquecimentos”, que Álvaro de Campos não conhecerá jamais. Pois se Álvaro sabe-se um prisioneiro das próprias reflexões e também da sociedade, Caeiro não sabe senão o esquecimento de si, sendo espontâneo como a tempestade e o amanhecer:

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

Caeiro não se encontra, portanto, preocupado com desvendar “… o sentido íntimo das coisas…”, nele não há despersonalização, nem tampouco o desejo de ser outro. Seu existir é no agora, seu fruir é no tempo presente, sentindo o perfume das flores quando há, e não desejando sentir quando não há. Desejo e realidade nele compartilham o mesmo idioma, caminham juntos, e Caeiro não compreenderia o idealismo do querer “deixar de ser” e projetar, no futuro, a felicidade que já está disponível. Carpe diem, dir-se-ia. Quem sabe… Mas o poeta não compreende filosoficamente, senão naturalmente. Vive sem o conflito do pensar, segundo admite: “Acho tão natural que não se pense”. Crê em Deus? Se Deus identificar-se com a Natureza… Para além disso, Caeiro prefere não cogitar.

Significaria, caso o fizesse, perder o presente e não conquistar nada de realmente confiável. “Para mim pensar nisso é fechar os olhos / E não pensar”. Contudo, o mestre rejeita a alcunha de materialista. Rejeitaria se o aproximássemos da espiritualidade franciscana? Sim, provavelmente… S. Francisco de Assis experimentava, de modo transcendente, o contato com Deus na natureza; Alberto Caeiro, por seu turno, aquilo que experimenta, experimenta no âmbito da pura imanência.

O curioso deste heterônimo é o destino dado a ele por Fernando Pessoa. Se Caeiro significava a solução da problemática “ser e não ser”, nele inexistindo os intermináveis dilemas existenciais de Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro e, decerto, do próprio Pessoa, como explicar que também o poeta bucólico acabasse caindo, ao final, na prisão do pensamento? Os poemas do Pastor Amoroso revelam Caeiro abandonando a vida imediata para envolver-se nas teias da própria interioridade. O amor… O amor tira o poeta do mundo natural, e o aprisiona no pensamento. Sonha aquela que é objeto do seu desejo, projeta sua figura no espaço, troca a realidade pela imaginação:

Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.

Outro verso do Pastor Amoroso diz:

Como o campo é vasto e o amor interior…!

Rompe-se a comunhão estabelecida entre o poeta e a Natureza. Seu ser desencontra-se com o ser das coisas, e o diálogo que antes era harmônico, torna-se dúbio. Caeiro já não sabe com a mesma distinção o mundo físico, porque o amor transformou-lhe o significado. É que a vida íntima, atrofiada no passado, agora transborda, contaminando a realidade natural. “Todos os dias acordo com alegria e pena. / Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava”, ele escreve. Seu romantismo do “ser selvagem” abre espaço para outro aspecto: o do intimismo romântico. Sim, pois não é somente o cartesianismo que aprisiona o indivíduo na consciência, também o movimento romântico descobre a intimidade. Caeiro cede, portanto, ao dilema da civilização moderna: o dualismo entre a alma e a matéria, o abismo entre a consciência e a realidade exterior. O rompimento é lamentado pelo heterônimo: “Talvez quem vê bem não sirva para sentir”. Um destino, sem dúvida, peculiar. Fernando Pessoa constrói o estilo ideal de vida desejado para si e para os reflexos ficcionados de sua personalidade, e, ao término, frustra-o como todas as utopias.

Supõe-se, então, que não exista qualquer solução verdadeira para a problemática do ser e do não ser. Chegara a tal conclusão o criador do universo de heterônimos? Teria compreendido que a única saída é mesmo aceitar o dilema com resignação, conformar-se com o pouco ou nada que se pode ser, e não esperar qualquer acréscimo do idealismo ou das divindades? O misto de estoicismo e epicurismo que compõe a personalidade de Ricardo Reis parece induzir a esse caminho. O outro discípulo de Caeiro não compartilha o histrionismo de Álvaro de Campos, não escreve raivosamente, ao contrário, é portador de um estilo medido e sofisticado. Sua tranquilidade não advém da esperança sobrenatural, nem tampouco da confiança humana. Ser calmamente, para Ricardo Reis, significa simplesmente admitir a insignificância:

Melhor destino que o de conhecer-se
Não frui quem mente frui. Antes, sabendo,
Ser nada, que ignorando:
Nada dentro de nada.

A crença na inevitabilidade do destino está no centro do pensamento de Ricardo Reis. Sendo um helenista, abraça o conceito tão caro à cultura grega. O conhecido mito do eterno retorno está na origem dessa visão negativa sobre o destino da humanidade: independente da atitude do homem, o cosmos encontra-se fadado a destruições e ressurgimentos contínuos. Preso no interior desse círculo, o indivíduo jamais conseguirá ser dono de si. A tríade clássica, Sócrates, Platão e Aristóteles representa, de certo modo, a ruptura e o abandono do mito do eterno retorno no pensamento antigo. Quando o Estagirita estabelece a “causa final”, oferece ao ser humano a esperança da finalidade definitiva. O otimismo desses três é o ápice da filosofia grega! Que foi feito do velho mito? Não desapareceu absolutamente. Sua influência exerceu-se, ainda, entre os epicuristas e os estóicos. Os primeiros mergulhando na satisfação dos prazeres morais e intelectuais, pois a distância dos deuses impossibilitava o acesso ao sentido sobrenatural. Se o homem está aprisionado na realidade material, se a morte é realmente inevitável, e tudo para além bastante duvidoso, pouco resta a nós senão aproveitar a vida. Quanto ao estoicismo, sua resignação aos limites da existência nasce justamente dessa fatalidade do destino humano. É preciso suportar as desgraças que se abatem sobre nós, “estoicamente”, porque seria inútil confrontar o destino.

As rosas amo dos jardins de Adônis,
Essas vólucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente,
Que há noites antes e após
O pouco que duramos.

Perecer é o termo inescapável para as rosas, bem como para o bardo e sua musa. Viver é um dia, do nascer ao pôr-do-sol, e não há nada que se possa fazer. Rebelar-se? Tolice. O verdadeiro prêmio por conhecer esse fato é não ser mais necessário inquietar-se: o que tiver que ser será. O destino precisa cumprir-se, inevitavelmente. Então que se amem as rosas de Adônis, que se gozem os prazeres da Natureza à espera do momento decisivo. Aí está, em Ricardo Reis, o conformismo estóico unido ao hedonismo de Epicuro.

Como seu discurso responde a problemática do ser, tão presente na obra pessoana? Certamente não é desejando “ser outro”, como Álvaro de Campos, desiludindo-se como Sá-Carneiro. O mestre Caeiro ensinou a Ricardo Reis a naturalidade, e este a interpretou afastando-se do paganismo antimetafísico do primeiro, forjando a passividade daquele que se reconhece do modo que “é”, independente da vontade dos deuses, alheio às expectativas, desprovido das idealizações. Ser é ser, e pronto! Compreendendo as limitações, adequando-se às medidas do que lhe é natural, sem aguardar nada além disso, nem tolerar menos também.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Seria a resposta final de Fernando Pessoa, a conclusão definitiva sobre o dilema do ser? Não ouso afirmar. O quebra-cabeças do genial poeta lusitano furta-se a deduções inquestionáveis. Também não me parece correto que o leitor ou o crítico se proponha a identificar, na obra do poeta, certa objetividade que talvez não fosse intenção do autor. Pode-se imaginar, por exemplo, que os heterônimos jamais representassem a tentativa de compreender o dualismo do ser, mas sim a forma de realização de sua personalidade multifacetada. Se Mário de Sá-Carneiro sentiu-se frustrado diante da impossibilidade de “ser outro” na realidade, Fernando Pessoa aplacou a angústia sendo muitos na literatura. O que faltou ao primeiro? Por que se suicidou? Quem sabe o senso de humor presente em Pessoa! Afinal de contas, aquele que escreveu Adiamento e Poema em Linha Reta, não cogitaria terminar a própria existência ingerindo frascos de estricnina.


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