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domingo, 8 de outubro de 2017

MAIS PLATÃO, MENOS FACÍNORAS: OPRESSORES E OPRIMIDOS




Genésio e Agostinho encontram-se no vão livre do MASP, em uma tarde tranquila de domingo. Há anos se conhecem, e costumam dialogar a respeito dos mais variados assuntos. Genésio é livre docente em uma universidade federal, enquanto Agostinho trabalha na iniciativa privada, e estuda filosofia como autodidata.
– Caro Agostinho! Que ótimo encontrá-lo neste espaço democrático. Tenho sempre a impressão de que posso entabular diálogos muito proveitosos com você.
– Penso o mesmo, caro Genésio!
– E não haveria outro ambiente mais adequado para tratar do tema importante que anda me preocupando. Me refiro naturalmente ao fato de estarmos debaixo do Museu de Arte de São Paulo: um território onde reina a liberdade artística e de pensamento.
– Me diga, então, Genésio, que tema importante é esse que anda preocupando você?
– Recentemente certos grupos conservadores da nossa sociedade atacaram e pretenderam interromper uma exposição de arte patrocinada por um banco internacional. Além disso, acusaram uma expressão artística de fazer a apologia do crime de pedofilia. Penso que você tenha acompanhado a celeuma, não é mesmo?
– De fato, eu acompanhei.
– O que me preocupa a respeito desse assunto são os avanços assustadores de setores tradicionalistas da nossa sociedade. Hoje censuram uma exposição artística, amanhã certamente hão de implantar uma ditadura conservadora no Brasil.
– Me esclareça algo, caro Genésio, no caso referido esses grupos conservadores acusavam especificamente a exposição patrocinada pelo banco de ofender a religião, além de apresentar conteúdos eróticos a crianças, estou certo?
– Foram especificamente as acusações.
– Pelo que eu soube, havia obras que mostravam Jesus Cristo em situações que os cristãos não consideram respeitosas e obras que sugeriam comportamentos homossexuais de crianças, não é mesmo?
– Sim. Mas é preciso entender que o artista deve ter a liberdade de abordar qualquer assunto, sem que existam restrições externas. Não é aceitável a existência de censura.
– Logo, você defende que a liberdade artística necessita ser absoluta.
– Sem dúvida.
– Para que eu possa compreender melhor o seu ponto de vista, caro Genésio, você poderia definir o que entende por liberdade?
– Claro que posso! A liberdade consiste precisamente em não se encontrar oprimido pelos poderosos da sociedade.
– E você acredita que esses grupos conservadores representam os poderosos da sociedade?
– Não poderia definir melhor.
– Pois bem, caro Genésio. Me permita analisar esse caso em particular utilizando a definição de liberdade que você me ofereceu. Se os grupos conservadores representam os poderosos e opressores, logo os artistas supostamente censurados encontram-se no papel de oprimidos, é certo?
– Até aí, concordo.
– Mas, nesta circunstância, terei que perguntar: na relação entre oprimido e opressor quem é que ofende e quem é ofendido?
– O opressor ofende e o oprimido é ofendido.
– Penso exatamente como você, Genésio. No entanto, nessa situação peculiar, me parece que os setores conservadores da nossa sociedade é que se sentiram ofendidos com as obras expostas. Isto estabelece um dilema, concorda? Se quem ofende é o opressor e quem é ofendido é o oprimido, significa que os artistas são opressores e os grupos conservadores são oprimidos. O que você me diz a respeito dessa conclusão?
– Ela me parece o contrário daquilo que eu penso.
– Por quê?
– Porque os artistas dessa exposição representavam setores desfavorecidos da nossa sociedade, ou seja, as minorias perseguidas, enquanto os conservadores aliam-se aos setores poderosos, às elites financeiras da nação.
– Neste caso, Genésio, você insiste em afirmar que os artistas são oprimidos e os grupos conservadores são opressores, ainda que os conservadores se sintam ofendidos com aspectos relativos às obras apresentadas?
– Sim.
– E isso não lhe parece uma contradição?
– Talvez aparentemente, mas o discurso dos movimentos sociais é unânime ao apontar o conservadorismo como a classe opressora da sociedade.
– Se você insiste nisso, acredito que seja necessário analisar mais profundamente a questão a fim de dirimir todas as dúvidas.
– Eu não me oponho – diz Genésio.           
– Sigamos então. Suponho que, se a relação entre ofensor e ofendido, somente isso, não se mostra suficiente para determinar com clareza os respectivos papéis de opressor e oprimido, então será importante aqui determinar mais adequadamente o que seja um e outro a fim melhor identificarmos cada qual nessa história. Por exemplo, momentos antes, caríssimo Genésio, creio ter escutado você afirmar que os conservadores aliam-se aos setores poderosos, às elites financeiras.
– Exato.
– E considera ser essa uma das características que determina os opressores?
– Sem dúvida. Você e eu sabemos perfeitamente que as classes dominantes são abastadas, e exercem autoridade nas relações sociais, utilizando-se desse poder financeiro a fim de constantemente oprimir as minorias.
– Neste caso, seria correto asseverar que os opressores costumam ter recursos pecuniários, enquanto os oprimidos encontram-se desprovidos desse expediente.
– De acordo.
– Pois bem, caro Genésio, deixe-me apontar nessa circunstância específica um fato que exige ser levado em consideração: a exposição mencionada contou com o patrocínio de uma instituição financeira internacional. Isso você e eu não ignoramos. Trata-se de um banco, e segundo consta, houve também dinheiro oriundo de um financiamento estatal. Logo, deduzo que os artistas e os movimentos sociais que eles representam encontram-se amparados tanto pelo capitalismo internacional quanto pelas verbas públicas. Ora, por outro lado, os grupos ditos conservadores que se manifestaram contrariamente à exposição não apresentam qualquer patrocínio de instituições financeiras, nem tampouco gozam de financiamento público. Pelo que me consta, sua tática de manifestação se resumiu única e exclusivamente em suscitar um clamor espontâneo em sites de relacionamentos na internet. Sendo assim, ao utilizarmos os preceitos definidos acima, ou seja, a constatação de que os opressores costumam ter recursos pecuniários, enquanto os oprimidos carecem desse expediente, serei obrigado a concluir novamente que os artistas e seus movimentos sociais denotam exercer o papel de grupos opressores, ao passo que os setores conservadores exercem o papel de oprimidos. De fato, como se observa, enquanto um dos lados acha-se amparado pelo capital estrangeiro e pelas verbas públicas, o outro conta somente com seus recursos pessoais.
– Devo reafirmar que essa conclusão consiste exatamente no contrário daquilo que estou habituado a pensar.
– Então você ainda não está disposto a admitir que, analisando objetivamente esse caso, os artistas e os movimentos sociais por eles representados revelam as características essenciais da classe opressora, enquanto os conservadores demonstram as características comuns dos oprimidos?
– Não sei se estaria disposto.
– No entanto, acredito que nós dois estávamos de acordo que os poderosos usufruem de recursos econômicos, ao passo que os oprimidos disso carecem. Lembra-se como chegamos a essa definição? Havíamos constatado inicialmente que na relação entre opressores e oprimidos, os primeiros ofendem, enquanto os demais são ofendidos. Partindo desse pressuposto básico, mostrei a você que os artistas haviam ofendido os conservadores, estabelecendo, assim, o paradigma tradicional de relação entre quem oprime e quem é oprimido. No entanto, como você não se convenceu com essa caracterização primeira, admiti que poderíamos esquadrinhar mais a questão no intuito de determinar com maior clareza a posição verdadeira de ambos os setores da sociedade. Ora, ocorre que continuando a mesma investigação, nós dois constatamos que no quesito seguinte – a saber, a condição financeira distinta da classe opressora e da classe oprimida –, um dos lados encontra-se protegido pelos recursos pecuniários do capital estrangeiro e governamental, em contrapartida, o outro grupo distingue-se por não ter senão os seus recursos individuais. Portanto, tanto na primeira fase da análise quanto na subsequente, os respectivos partidos mantiveram-se em idêntica posição no que tange a delinear opressores e oprimidos.
– Seu argumento me causa estupefação.
– Sugiro, entretanto, que continuemos esquadrinhando a questão nesse sentido a fim de que não restem dúvidas. Creio que, até o momento, temos utilizado frequentemente uma específica designação relacionada à classe opressora da sociedade com o objetivo de defini-la. Nós a temos chamado classe poderosa. Caro Genésio, você seria capaz de precisar o real significado do termo poder?
– Penso que o poder se constitua em uma série de privilégios que determinados indivíduos conquistam a fim de exercer controle sobre os meios sociais e, consequentemente, sobre a população desfavorecida.
– E esses privilégios são de que natureza?
– Sobretudo política e financeira.
– Acredito que sua exposição não esteja incorreta, Genésio. Agora tratemos de aplicá-la ao caso específico dessa exposição que causou tanta celeuma, assim talvez possamos chegar, finalmente, a uma conclusão a respeito das partes integrantes.
– Façamos isso, Agostinho.
– Sempre que eu reflito acerca de privilégios políticos e financeiros busco elaborar situações bastante práticas com o intuito de compreender como esses privilégios favorecem determinados setores. Por exemplo, quando indivíduos que representam uma classe particular tencionam implantar politicamente seus projetos, e gozam de privilégios políticos, costumam fazer uso disso com o objetivo de atingir sua finalidade. Você concorda, Genésio?
– Concordo.
– Pois bem. Sabemos que esses artistas se vinculam a movimentos sociais, e que suas obras expressavam conceitos artísticos e ideológicos peculiares. No tocante aos trabalhos que apresentavam Jesus Cristo em situação ofensiva para os cristãos, quais seriam exatamente os conceitos artísticos e ideológicos?
– A crítica ao dogmatismo religioso e ao preconceito moralista dos cristãos.
– E essas críticas a uma religião específica visam a que finalidade exatamente?
– Creio que a intenção se resuma a efetuar uma mudança de caráter social. Temos uma sociedade tradicionalista, e a ideia é construir um ambiente mais liberal.
– Mas essa mudança a que você se refere decerto não ocorrerá sem a influência de um poder qualquer, não é verdade?
– Sim, é verdade.
– E de onde provém esse poder?
– Todo poder emana do povo.
– Partindo desse pressuposto, Genésio, chegaremos a uma situação novamente conflitante. Pois segundo entendo, sua definição de poder afiançou que os poderosos são aqueles que usam de privilégios com o objetivo de exercer controle sobre os meios sociais e, consequentemente, também sobre a população. Logo, a população encontra-se em uma circunstância submissa. Então, nesse caso, como afirma agora que todo o poder emana do povo?
– Mantenho o que disse anteriormente, Agostinho, mas acrescento, entretanto, que à população resta o direito de insurgir-se contra a classe poderosa.
– De modo que essa insurreição corresponde a uma forma de poder, estou certo?
– Isso mesmo.
– Sua lógica dá a impressão de fazer sentido, Genésio, contudo, identifico nela uma fraqueza, e é sobre essa fraqueza que pretendo tratar agora. Se a população deve insurgir-se contra os setores poderosos da sociedade, e se como você mesmo definiu, os setores poderosos têm privilégios econômicos e políticos, não seria nada compreensível que o grupo oprimido contasse com o respaldo financeiro de uma instituição internacional e as facilidades do financiamento estatal enquanto o setor chamado opressor nada tivesse em contrapartida. Isso significaria afirmar necessariamente que os privilégios econômicos e políticos se encontram vinculados aos movimentos sociais. No entanto, neste caso, deveríamos atribuir a estes a alcunha de poderosos.
– Outra vez você me surpreende, Agostinho.
– Digo ainda mais. Se esses movimentos sociais representados pelos artistas gozam de privilégios e movimentam o seu poder contra os conservadores, disso se conclui que aqui se estabelece evidentemente a dinâmica da relação entre opressor e oprimido. Sendo que os artistas da exposição se revelam opressores e os conservadores se demonstram oprimidos.
– Seus argumentos são convincentes, Agostinho, mas estão em contraponto ao discurso ideológico no qual sempre acreditei.
– Isso não demonstra então que existem equívocos profundos no discurso?
– É possível.


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

AFORISMOS


Nesses tempos de utilitarismo, o amor nada conserva quando não resolve questões práticas.

O caminho da filosofia é inquietação no princípio e serenidade no desfecho.

Só ao definir onde estamos é que sabemos a distância que falta até o objetivo.

Deus sempre transcende as tentativas de defini-Lo.

No casamento sacrifica-se metade de si mesmo a fim de receber o dobro em contrapartida.

Um ato generoso engendra o amor na eternidade.

Sem autocrítica ninguém consegue abolir os conflitos interiores.

Os que veneram a fama estão sempre prontos a desprezar quem nela não se sustenta.

Privar uma criança do certo e do errado é cometer um crime contra a humanidade.

Fascismo, socialismo e anarquismo são vertentes ideológicas do mesmo impulso diabólico de abolir as tradições. 

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

EU, FRANZ KAFKA



Franz Kafka tratava sua vocação literária como “o seu chamado”. Passou a existência inteira em um anonimato quase completo. Um funcionário burocrático, escrevendo nas horas vagas, incomodado com a falta de tempo para se dedicar aos escritos. Autor de romances e contos, quase sempre inacabados. Depois da morte, pediu a seu amigo – Max Brod – que destruísse seu legado literário. Sorte nossa que Brod desobedeceu a ordem expressa de Kafka, e deu os títulos à publicação, escrevendo também sua principal biografia.
Como um escritor vivendo em uma espécie de anonimato, sentindo a literatura como um chamado particular, observo semelhanças entre mim e Kafka. Também em alguns de meus livros, o absurdo se manifesta ocasionalmente. Por exemplo, em meu romance mais recente: O Arcano da Morte. Pesa-me diariamente a situação contrastante de me saber detentor de uma vocação, sem ter encontrado os meios suficientes para realizá-la em tempo integral. Sinto tal desconforto, a sina dos escritores que vieram ao mundo sob o signo da contradição.
Se o futuro, ao menos, me garantir a glória que, em vida, me tem sido negada, isto servirá como consolo. 

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).

terça-feira, 19 de setembro de 2017

CARTA ABERTA AO FILÓSOFO OLAVO DE CARVALHO




Li suficientes biografias de escritores e intelectuais para entender que, com frequência, a existência deles é um tanto atribulada. Muitos nunca chegaram a fazer segredo disso. Lembro-me dos romances de Henry Miller, cuja existência sexual promíscua é confessada em páginas que causaram certo escândalo na época. Também me recordo de escritores que estiveram presos, como Dostoievski, Jean Genet e o poeta brasileiro Bruno Tolentino. Crimes de conspiração, roubo e tráfico de drogas constam no currículo desses gênios da literatura. Na Abissínia, Arthur Rimbaud terminou seus dias como traficante de armas. Se formos abordar a sexualidade dos escritores, encontraremos pederastas, bissexuais, sadomasoquistas, onanistas e misóginos. Ser autor de livros não é, portanto, uma credencial que nos afiança a decência e os bons costumes.
Recentemente, acompanhei as acusações de Heloísa de Carvalho, a filha do filósofo Olavo de Carvalho, pretendendo revelar “os podres” do pai publicamente. Lavação de roupa suja geralmente não é algo nada elegante, e quando isso acontece entre familiares, a coisa fica ainda mais fedorenta. Lendo a carta aberta que Heloísa Carvalho escreveu ao progenitor, evoco naturalmente as tantas quantas biografias de escritores que tive a oportunidade de ler. Honestamente, nunca espero que um autor seja exemplo de comportamento social. Isso é bom-mocismo de telenovela ou de jornalismo capenga. Olavo de Carvalho teve uma existência atribulada, a semelhança de muitos outros intelectuais e literatos que conheço. Mas isso não o desqualifica de modo algum. A ser verdade, desqualificaria todos os nomes acima referidos.
Sou um admirador da obra e do pensamento dele, e continuarei sendo, a despeito desses arranca-rabos de família. Sem seus livros e sua influência intelectual, o Brasil viveria as trevas de uma dominação esquerdista no campo do pensamento. 

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).


sábado, 16 de setembro de 2017

O SEGREDO DA JUVENTUDE



O segredo da imortalidade, esse milagre que a ciência moderna almeja conquistar, tema que inspirou músicas e filmes, também foi abordada pelo esoterismo. O mago Eliphas Levi dizia que o segredo da imortalidade é conservar a juventude no coração. Mas o que caracteriza exatamente a juventude?
Os jovens são mais espontâneos, no entanto, às vezes, são também irresponsáveis, e isto certamente não há de ser o que urge conservar no coração.
Quando se tem uma existência inteira pela frente, a esperança é algo que acontece com naturalidade. O desespero que atormenta os corações envelhecidos é exatamente a ausência de esperança. Eis que os anos se passaram, e a maioria das possibilidades se desvaneceu. Somos obrigados a conviver com a consequência dos equívocos, e isso pode amargar os sentimentos.
O segredo daquilo que Eliphas Levi sugere reside nisso precisamente: conservar as esperanças da juventude no coração. Pois mesmo que o tempo transcorra, ainda que muita água corra debaixo da ponte, sempre existe a hipótese da esperança.

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ENTREVISTA COM A POETA MARIANA BASÍLIO





Mariana Basílio (Bauru – SP, 1989) é poeta e tradutora. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa os livros Megalômana e Tríptico Vital. Tem traduções e poemas publicados em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, DiversosAfins, escamandro, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmagens, Odara, Raimundo, entre outros.
Contato: Site da Autora.

GABRIEL SANTAMARIA: Mariana, são dois livros de poesias já publicados em sua carreira: Nepente e Sombras & Luzes. Fale um pouco a respeito desses trabalhos.
MARIANA BASÍLIO: Escrevo desde os 16 anos, sem nunca ter tido ideia ou real desejo de ser uma escritora publicada. Com o passar dos anos, algo dentro de mim soprou para a direção de que eu tentava me desvencilhar – a de que eu só existiria plenamente como poeta. Engavetei poemas por quase dez anos. Aos 25 tive um insight final e inicial. Pensei: agora ou nunca. Então reuni meus escritos, que preencheram as paredes do meu escritório, e digitalizei parte deles. Posteriormente, construí meu primeiro livro.
Nepente (Giostri, 2015, 84 p.), na Odisseia simboliza uma poção contra a tristeza e o sofrimento. O livro foi escrito em seis meses e publicado seis meses depois, em 18 de julho de 2015. Uma coletânea de 27 poemas sobre os sentidos da vida, da natureza e dos sentimentos que nos enredam. Representa uma tentativa de me assumir para mim mesma, e de contar aos outros quem realmente eu sou: uma poeta. É um livro bem imaturo e travado, não o aprecio hoje mas respeito por ter me levado adiante.
Sombras & Luzes (Penalux, 2016, 282 p.), por sua vez, é uma ode à união dos contrários, que para mim condicionam a vida e o que somos enquanto humanos. Foi escrito em dois anos, revisado por mais um e publicado em 30 de novembro de 2016. Considero meu real primeiro livro como poeta, pois tive uma aceitação plena do ofício e da responsabilidade de trabalhar com a maior potência que eu pudesse, nos limites da juventude e do início de carreira. A obra tem maior fluidez, ritmo, qualidade. Uma coletânea de 100 poemas, 10 fluxos e 10 fluidos poéticos, com participação de poetas da nova e antiga geração das literaturas brasileira e portuguesa: Adriano Espínola, Filipe Marinheiro, Luis Augusto Cassas e Marcelo Ariel. Foi essencial ver esse livro nascer, me deu ainda mais certeza do quanto eu quero seguir no que amo fazer.
GABRIEL SANTAMARIA: Geralmente a formação de quem se dedica à literatura abrange verso e prosa, e suponho que você tenha bebido em ambas as fontes. Em que momento você compreendeu que sua vocação conduzia à escrita poética e o que despertou essa compreensão?
MARIANA BASÍLIO: Não houve um momento preciso, foi um processo de aceitação que levou mais de uma década: notei que minha função era expandir as palavras, com a liberdade de um escultor, como diz Octávio Paz em “O Arco e a Lira” para diferenciar prosa e poesia. Mas já escrevi o início de um romance e também algumas crônicas e contos. Gosto de escrever, mas não vejo que serão gêneros de minha primeira vertente. A poesia é para mim a principal fonte. Leio todos os gêneros literários, sou fascinada na prosa pelo Anton Tchekhov, Liev Tolstói, Hermann Hesse, Virginia Woolf, Clarice Lispector, Honoré de Balzac, Guimarães Rosa, Machado de Assis, etc. Na poesia, por Homero, Dante Alighieri, William Shakespeare, William Blake, Gil Vicente, Walt Whitman, Ezra Pound, Emily Dickinson, Elizabeth Bishop, Herberto Helder, Alejandra Pizarnik, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Hilda Hilst, entre outras tantas vozes, infinitas.
GABRIEL SANTAMARIA: Sua poesia aborda, às vezes, a sutileza e a matéria mais carnal. Por exemplo: A saudade engole a gente, menina. / Não adianta banhar-se em flores, / esconder-se no canto cadente, / sob a fome e o frio. / A saudade engole as gotas de orvalho, / desprendidas, perecíveis / e lança-nos a um precipício / fúnebre e cálido, / feito das sombras / de toda vossa carne. / A saudade engole nossos poros, / e rodopia rodopia rodopia / nas raízes, nos néctares / de pêssegos e passas. Para você, essa convivência com elementos tão díspares – saudade, sombras, carne, pêssego, etc. – representa um conflito permanente ou tudo se soluciona no âmbito da poesia?
MARIANA BASÍLIO: É interessante essa amostra, que deve ter saído em alguma revista, porque esse poema acabou ficando fora do Sombras & Luzes, após lapidação do conjunto mais fechado da obra. Mas gosto da ideia que ele carrega, e que também permeia o restante da obra. O prefaciador, poeta português Filipe Marinheiro, reafirmou a minha impressão: talvez se trate de uma obra pós-surrealista.
Vejo que não se trata de convivência, e sim de relação, integração. Há saudade porque existem buracos, falências, travessias, sombras – dessas existências, há um conjunto de poderes da natureza que ultrapassam nossas razões: está aí um pêssego inesperado em qualquer das mesas e árvores que possamos apostar os olhos a arder.
Mas nada se solucionaria com a poesia ou em poesia. Se tudo fosse solução não existira por que existir a vida. O que somos é uma intenção, e das intenções as estrelas estão fixas – mas não. Compreende? Há uma vastidão, é nela que precisamos buscar o que não sabemos. Disso nasceu e vive a poesia.
GABRIEL SANTAMARIA: Sua obra dialoga com Herberto Helder, William Blake, Percy Shelley, Walt Whitman, Ruy Belo, Luiza Neto Jorge e Hilda Hilst. Quais são as questões essenciais desse diálogo literário e em que sentido se dirigem suas respostas?
MARIANA BASÍLIO: Minha obra dialoga não só com esses autores, mas com todos
aqueles que percorreram meus anos como leitora, e agora como leitora-escritora – um ato diferencial, mas ainda apaixonado. Dialoga também com o inexprimível, com o silêncio que me atordoa os dias numa sociedade pútrida como a nossa. Dialoga com o que não sei e aprendo a partir dessa “enxada ôntica”, nas palavras de Marcelo Ariel no antiprefácio do Sombra & Luzes, com a qual eu excedo e costuro minhas palavras.
Não são questões existentes, são previsões, providências, prolixidade, percepções para se viver e sobreviver emancipando minha própria humanidade. Esse é o meu parâmetro de leitora. Antes disso, e bem sei, como leitora-escritora, mudou um pouco esse viés. Porque agora seleciono e relaciono o que lerei a partir da teia imaginativa dos projetos que escrevo.
Não trago respostas, trago tênues provocações.
GABRIEL SANTAMARIA: Você é uma representante da nova geração de poetas brasileiras. Quais são os desafios de escrever poesia no Brasil atualmente?
MARIANA BASÍLIO: Importante ressaltar nesse momento: poeta. Não suporto o termo “poetisa”, mas respeito quem o utilize, dependendo do contexto e da própria pessoa. Sei que há um longo e complexo caminho para se chegar ao porquê de nossa escolha gramatical. A primeira coisa para lembrar a quem me lê: não é frescura. Não é feminismo radical. É tentativa de sobrevivência, de resistência, numa sociedade que continua machista, numa área em que prêmios e festivais ainda mostram o predomínio de homens, mesmo com o crescimento de autoras mulheres, de autores negros e negras, de grupos LGBT.
É preciso persistir e trabalhar com seriedade, estudar muito, ler e conhecer a história da Poesia e da Literatura. Quebrar paradigmas, cânones, mas repetir para aprender e criar para renovar, como aconselha Pound.
É preciso quebrar as barreiras, escrever o que você sente que é da sua essência e deixar sua mensagem aos cantos que puder – não importando que você não se encaixe com outros pares de sua época, que o machismo exista, que as premiações e grandes editoras não se interessem talvez pelos seus escritos herméticos – escrever, enfim, aberta para que cada trabalho seja único e importante.
GABRIEL SANTAMARIA: Há um verso seu que diz: Como se beijasse o milagre da vida. O que neste mundo, às vezes tão confuso e chocante, conserva o status de milagre?
MARIANA BASÍLIO: O Amanhecer. Nada mais edificante, intrigante, devorador, insuficiente, do que acordar mais uma vez e ver que tudo mudou ou nada mudou. Nunca saberemos quando não iremos mais acordar. Amanhecer é para mim o epicentro da questão de qualquer milagre já fundado ou que irá se estabelecer em nosso imaginário.
GABRIEL SANTAMARIA: Você é pedagoga de formação. Quando no processo educativo a poesia é trocada por letras de músicas populares, isso o que representa para a construção intelectual do aluno?
MARIANA BASÍLIO: Primeiramente, a Poesia, o conceito do que seja, pertence a todas as artes. Existe poesia em tudo o que realmente toca o ser humano. Além do fato de sabermos que a poesia, aqui específica na área literária, surgiu da oralidade, da canção. Não me incomoda letras de músicas populares serem apontadas como forças poéticas, pelo contrário. O que mais me incomoda no sistema educacional é o seu frágil funcionamento. Com raras exceções, há um descaso completo existente, principalmente na educação pública. Mas voltando à questão de letras apontadas como poesia, vejo que tudo é interdisciplinar, deveriam mostrar sempre um pouco de tudo e muito mais. Todos têm o direito de conhecer de Dante a Chico Buarque, de Camões à Karol Conka. Tudo é importante e precioso para compreensão do complexo social que vivemos.
GABRIEL SANTAMARIA: Li um poema do seu próximo livro Megalômana: o poema se chama Dentro de mim há um vasto lírico sentimental. Dentro de você, Mariana Basílio, há um segredo revelado a todos ou somente a uns poucos escolhidos?
MARIANA BASÍLIO: Dentro de mim, como diz o mesmo poema, “É o vento a queimar o esplendor do dia. / É o escuro das ruas a perpetuar a / Memória incendiária, libertando / O estado retilíneo das coisas”.
Todos nós temos segredos silenciosos só nossos e de mais ninguém. Há outros para alguns mais chegados e outros, mais importantes, que podemos partilhar com a nossa coletividade. É uma das razões pelas quais esparramo minhas imagens ao vento.
GABRIEL SANTAMARIA: A poesia esgota seu impulso de expressão ou sempre existirá algo necessariamente indizível?
MARIANA BASÍLIO: Sempre existirá algo indizível, é por isso que eu sei, escrevo há 13 anos e escreverei até o fim da minha existência.
GABRIEL SANTAMARIA: Pode-se identificar uma linha condutora entre todos os seus trabalhos? Em caso afirmativo, como defini-la?
MARIANA BASÍLIO: Pode-se sim, há uma essência, que acredito, todos possuímos em tudo que fazemos, um traço, que salta de nossa personalidade, de nossa aura. Mas são projetos muito diferentes em si, cada um vai para um lado da roda-viva que permeia meu ser.
Expliquei um pouco na primeira pergunta sobre as ideias de Nepente e Sombras & luzes, o que eu posso fazer nesse momento é acrescentar um pouco do que se molda atualmente em meus próximos livros.
No livro Tríptico Vital, que será minha homenagem à Hilda Hilst, há uma tríade que permeia as etapas de desenvolvimento das nossas ideias perante o mundo, denominadas Do Sentir, Da Experiência e Da Extensão.
No livro Megalômana, dedicado à memória das poetas e artistas brasileiras, trato com fina ironia e densidade sobre o conceito de loucura implantado pela nossa sociedade, sobre o machismo e sobre o capitalismo que dogmatizam a essência da razão em nossa cultura.
Já o mais distante, Kairós, é um épico no qual registro contemporaneamente a crise de valores e crise de concretude do que somos, poderíamos ou deveríamos prever e haver, vivendo no intrigante Século XXI.
Logo, defino que há um cordão umbilical invisível que manifesta uma força ôntica que tinge as nuances do que sou e do que poderei ser daqui em diante.
Sigo. Pulsando, tecendo, prevendo a poiesis que existe em cada novo instante.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

FALTOU VERGONHA E ARTE VERDADEIRA AO SANTANDER



O caso da exposição de suposta arte patrocinada pelo banco Santander, evento que trazia obras com apologia da pedofilia, da pornografia infantil, da zoofilia, e também desrespeito a símbolos religiosos causou muita polêmica com a atuação rápida de setores da sociedade que pressionaram o banco a encerrar as atividades.
Penso no que testemunhei em fotografias na internet, ou seja, nas obras que suscitaram escândalo e, sem dúvida, concordo com a pressão exercida sobre o banco. Contudo, meditando mais profundamente a respeito do tema, me recordo que na história da literatura, houve trabalhos que abordaram temáticas complexas como a sexualidade na infância e a crítica ao cristianismo.
Por exemplo, recordo-me do romance Lolita, de Vladimir Nabokov, e de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, obra de José Saramago. Mesmo que eventualmente ambas as obras tenham causado desagrado em pessoas mais sensíveis, não suscitaram qualquer comoção social, nem tampouco foram retiradas do mercado.
O que acontece, então, com os trabalhos expostos pelo Santander? Quando observamos, não é difícil concluir que o verdadeiro caráter artístico basicamente inexiste. Desenhar canhestramente uma criança vestida de travesti e escrever Criança Viada não oferece reflexões legítimas, nem tampouco contribuições estéticas. Trata-se somente de uma instrumentalização da arte com fins ideológicos.
Isso é necessário ser analisado. A questão não se resume apenas ao problema da temática exposta, mas sim também à baixa qualidade artística da exposição.

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).