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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A PSICANÁLISE COMO CAMPO ABERTO



Passados mais de cem anos desde o surgimento da psicanálise, mantém-se ainda pulsante a questão acerca de suas contribuições ao conhecimento da psique humana e também de sua validade nos tempos atuais. Durante esse período, além de alguns questionamentos teóricos, a psicanálise teve que se defrontar com o advento de uma nova farmacologia que promete sanar os problemas psicológicos do paciente em menos tempo e talvez até mesmo com menos gastos financeiros. Para muitos, isso representou uma verdadeira crise, colocando as contribuições de Sigmund Freud em situação desconfortável. Para outros, no entanto, os medicamentos que pretendem curar a depressão e as neuroses, por exemplo, não exatamente substituem a psicanálise, mas servem muito perfeitamente como um complemento. Sem consenso definido, as pesquisas continuam apontando no sentido de um debate mais amplo que decerto evoluirá sempre de modo favorável para os pacientes.

Ao decidir-se por uma abordagem diferente da psique humana, submetendo pessoas a análises que visavam escrutinar o inconsciente a fim de descobrir ali as causas primeiras de distúrbios antes tratados com métodos menos sutis, Sigmund Freud empreendeu um trabalho ousado cujas repercussões ecoam ainda nos tempos contemporâneos. De certo modo, a tentativa de descobrir no íntimo da alma humana as razões essenciais de sua estrutura tinha alguns precedentes históricos. Na Grécia Antiga, os oráculos serviam como acesso ao conhecimento daquilo que era profundo e revelador. Na obra de Sófocles, Édipo Rei, o oráculo de Delfos assegura que a cidade de Tebas somente se livraria da peste caso o assassino do rei Laio fosse devidamente punido. O elemento oracular desvenda, portanto, aquilo que permanece obscuro, a realidade que está sob a superfície, aguardando uma inteligência atenta que seja capaz de evidenciá-la. Dentro de uma perspectiva menos mítica, naturalmente, o psicanalista exerce uma função semelhante, revelando traumas que se enraizaram no inconsciente, causando problemas psicológicos como neuroses e esquizofrenia. 

Quando Sigmund Freud decide buscar no teatro grego os elementos que auxiliam a elaborar o que chama de Complexo de Édipo, estabelece não somente uma teoria acerca de determinada característica da psique humana – ou seja, o desejo direcionada à figura materna e a rivalidade com a figura paterna –, mas também sugere sutilmente um dos elementos constitutivos do exercício da psicanálise: o ato de desvelar segredos conservados no inconsciente. Sempre que a verdade ali enterrada vem à tona, o paciente é conduzido a um processo de libertação, algo que se assemelha à libertação da cidade de Tebas diante do malefício que a todos aflige. Como na obra de Sófocles, a origem do mal encontra-se enterrada no passado, e é necessário evocar o fato ora esquecido a fim de explicar as consequências presentes e saná-las através de uma correção que, no âmbito da psicanálise, pode muito bem ser denominada processo terapêutico.  

Portanto, estar disposto a escrutinar a psique daquele que se submete à análise e saber relacionar as questões psicológicas descobertas com a herança cultural da humanidade constitui elemento essencial do exercício psicanalítico. Assim como Sigmund Freud vasculhou o território da literatura grega no intuito de fazer analogias entre sintomas comumente observados em pacientes e referências similares ali existentes, o psicanalista moderno necessita, do mesmo modo, munir-se de um conhecimento em diversas áreas na tentativa de melhor compreender a psicologia humana. Bebendo em fontes de literatura, religião, ciências físicas, antropologia, etc., o psicanalista segue os passos iniciais do fundador da psicanálise, descobrindo talvez novas possibilidades para o entendimento da natureza do homem. Isso demonstra suficientemente que a psicanálise continua sendo um campo de conhecimento aberto. 

Deve-se igualmente considerar que com o advento das tecnologias modernas e as mudanças na estrutura familiar, o analista é confrontado com questões inusitadas e desafiadoras. Nos tempos iniciais da psicanálise, e mesmo nas primeiras décadas que a sucederam, quando esta sofreu desenvolvimentos, o círculo de contato entre pessoas era bastante restrito, limitando-se geralmente às relações familiares, pedagógicas e profissionais. Convivia-se com parentes, colegas de estudos e de escritório, e nestes ambientes mais confinados, os códigos estavam devidamente catalogados e razoavelmente explicados, estabelecendo, assim, uma estrutura social segura. A internet expandiu horizontes, e a psicologia humana se defronta agora com uma quantidade de relacionamentos que chega a parecer quase ilimitado. Se antes a intimidade do indivíduo encontrava-se aberta a poucas pessoas, hoje encontra-se franqueada a milhares em sites como Twitter e Facebook. Se tempos atrás, recebíamos informações reguladas, as informações no presente vem aos borbotões, desafiando a psicologia a lidar com dados em número que nem sempre são assimilados com presteza e equilíbrio. Daí surge, enfim, uma questão essencial e candente: quantos são os problemas causados por essa evolução tecnológica e como o psicanalista moderno deve atuar?

São interrogações que merecem ser escrutinadas e debatidas sob a luz das teses tradicionais da psicanálise e de outras reflexões hodiernas, a fim de experimentar os conhecimentos do analista, e demonstrar a vitalidade da prática psicanalítica na cultura contemporânea. 


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).

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