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segunda-feira, 11 de junho de 2018

MEDITAÇÕES SOBRE DIVERSIDADE CULTURAL E XENOFOBIA



1.     

Por natureza, o homem busca viver em sociedade, e essa existência social exige o desenvolvimento de uma cultura. Há considerável variedade de culturas, e elas manifestam-se de inúmeras maneiras, algumas sobrevivendo durante um tempo considerável, outras desaparecendo na poeira da história. Certas culturas deitaram tamanha influência em boa parte das civilizações que temos consequentemente a impressão de que foram capazes de alçar-se sobre as demais, ainda que a ótica do relativismo cultural receie atribuir a esta ou aquela específica características de superioridade. Sem dúvida, o conceito de superioridade da raça ariana suscitou o surgimento do nazismo na Alemanha, mas não deixa de ser verdadeiro que algumas culturas conseguiram elevar o nível das sociedades humanas, como mostra o caso da Grécia Antiga. A filosofia grega foi capaz de marcar profundamente não apenas o Império Macedônico: também se tornou relevante para a construção intelectual do cristianismo e do Islã. Quando estudamos a história do direito, analisamos mais detidamente a contribuição romana, e ao agirmos assim realizamos uma escolha. Por que o direito romano tem tanta relevância e não o código de Hamurabi, por exemplo, ou a lei do talião ou a sharia muçulmana? Pode-se argumentar que o direito ocidental dependeu essencialmente da contribuição latina, no entanto, devemos admitir que a escolha pelo direito romano se baseia em uma concepção de superioridade também, ou seja, compreendemos que a aplicação das leis dentro da perspectiva do Império Romano revelou-se mais eficiente e justa na tarefa de organizar legalmente a sociedade. Isso mostra um traço superior dos romanos que exige ser admitido sem esquecermos o fato de que o Império manteve um domínio severo sobre diversas nações.

Porém, observar a questão dentro de uma ótica civilizacional não é o suficiente, afinal, cultura é algo que se refere aos indivíduos. Se nascemos em um contexto cultural com chances consideráveis de exercer influência histórica – como foram os contextos grego e romano – ou se nos coube ter nascido em uma situação cultural menos influente – como a situação dos índios tupi-guarani ou dos aborígenes australianos – o fato é que, de uma forma ou de outra, sempre herdamos uma cultura, e isso é um elemento formador do nosso caráter. Mas o que é a cultura? A história de um povo é composta de uma determinada quantidade de elementos como o idioma, a literatura, a religião, as tendências políticas, as estruturas econômicas, etc., e esses elementos, sendo predominantes, formam uma cultura. Ser oriundo de uma circunstância significa carregar consigo essa herança cultural, e significa também desenvolver determinadas características concernentes aos indivíduos pertencentes a essa situação. Neste sentido, ainda que alguém herde historicamente a contribuição de gregos e romanos, isso não o torna mais valioso nem superior aos indígenas brasileiros ou aos aborígenes australianos. Ou seja, não existe mérito pessoal no mero fato de receber no nascimento certa cultura como legado, a menos que o indivíduo seja, ele próprio, suficientemente capaz de acrescentar a essa cultura uma contribuição pessoal valiosa, dignificando-a com seus talentos.

A diversidade cultural, se nos oferece a oportunidade de conhecer a humanidade em seus mais variados aspectos – o que é certamente vantajoso para o campo investigativo –, também ocasiona um choque nem sempre confortável. Pois cada cultura estabelece uma visão particular do mundo, e cada visão de mundo deseja ter o monopólio da verdade. Para os judeus, só existe um Deus (Yaveh), e todas as outras divindades correspondem à idolatria. Para os cristãos, Jesus é o messias aguardado pela tradição judaica, o redentor da humanidade, e não existe salvação a não ser Nele. Para os muçulmanos, o judaísmo e o cristianismo são meras fases transitórias no processo de revelação divina cuja culminância se dá com o nascimento de Maomé e com o advento do Corão. Um estudioso sério deve observar as três principais religiões monoteístas com o intuito de conhecê-las mais a fundo, sem que isso necessariamente produza um choque. Porém, esse espírito investigativo, que se aconselha seja alheio à intolerância, nem sempre é compartilhado pelos adeptos dessas religiões. Toda crença religiosa professa uma verdade, e embora o relativismo seja utilizado dentro de uma perspectiva intelectual, não encontra semelhante receptividade na esfera da fé, ou seja, a fé dos judeus, cristãos e muçulmanos se demonstra única e inconciliável. Desse modo, não chega a surpreender que no choque das civilizações ocorram conflitos.

Quando o problema da diversidade cultural é abordado, a isto se atrela outra questão relevante: a tolerância. Utiliza-se atualmente esse tema dentro das esferas políticas, ideológicas, sociológicas, filosóficas, etc., sempre na tentativa de alcançar a boa convivência entre pessoas de culturas diferentes. No intuito de constituir uma sociedade pacífica, a compreensão das diferenças humanas é incentivada, fomentando-se igualmente esse espírito de tolerância. Conquanto tais conceitos façam parte das discussões contemporâneas, a realidade é que as questões relativas à diversidade cultural e à tolerância no contexto da convivência social nos antecede em alguns séculos. Com o advento da Reforma Protestante e o surgimento posterior de inúmeras igrejas cristãs dissidentes, a cristandade na Europa chegou ao termo, e o catolicismo deixou de ser hegemônico. Tal fato suscitou um embate entre católicos e protestantes que ameaçava lançar o continente europeu em uma guerra religiosa sangrenta. Observando esse fato, o filósofo empirista John Locke escreveu o texto chamado Carta Acerca da Tolerância: “A tolerância para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos está tão de acordo com o Evangelho e com a razão que parece monstruoso que os homens sejam cegos diante de uma luz tão clara.” Sua tese principal consistia em estabelecer um ambiente no qual as diferenças religiosas pudessem conviver com tranquilidade, respeitando-se o direito de cada denominação cristã. Se a divisão dos fiéis seguidores de Cristo não se apresentava como uma situação ideal – e os cismas geralmente eram encarados como fatos dolorosos na história do cristianismo –, ao menos desse modo promovia-se a tolerância entre os cidadãos.

2.

No livro Introdução à Sociologia, o autor Reinaldo Dias escreve a respeito da globalização:

“A cultura global emergente consiste em categorias e padrões universais pelos quais as diferenças culturais se tornam mutuamente inteligíveis e compatíveis. As sociedades ao redor do mundo estão a tornar-se, em alguns aspectos, mais semelhantes umas às outras. A emergência de uma cultura global vai aos poucos constituindo-se como um sistema de referências pelo qual as sociedades locais reinterpretam a sua cultura.”

Sem dúvida, devemos admitir que essa cultura global emergente – a globalização – tende a estreitar os laços entre pessoas de diferentes lugares, diminuindo as distâncias geográficas, facilitando a compreensão das variadas manifestações culturais, e isso se deve, sobretudo, ao avanço das tecnologias que, suscitando meios de comunicação avançados, constituiu a possibilidade de redes nas quais as relações se tornaram virtualmente próximas. Trata-se de um fenômeno algo revolucionário na história que foi antecedido milhares de séculos atrás por outros fatos semelhantes. Por exemplo, as navegações gregas expandiram horizontes, tornando possível o conhecimento de outros povos, situação que criou o cenário para o surgimento da filosofia. Também devemos evocar a expansão territorial do Império Romano, deitando sua influência sobre diversas nações que se mantiveram sob um domínio intenso. De certo modo, tais circunstâncias históricas representam o nascimento de culturas globais, naturalmente com as características peculiares de suas épocas. Na atualidade, como afirma o texto, as “sociedades ao redor do mundo estão a tornar-se, em alguns aspectos, mais semelhantes umas às outras”, o que significa dizer que os fatores da globalização tendem a homogeneizar os comportamentos. De fato, em várias partes do mundo, nós testemunhamos atitudes semelhantes de indivíduos que se encontram debaixo da ascendência de culturas politicamente dominantes, sempre capazes de disseminar seu estilo de vida através das indústrias da moda, do show business, dos movimentos ideológicos, do mercado editorial, etc.

Pode-se, no entanto, sempre recordar que o processo de globalização abole muitos valores culturais pertinentes aos países. Há naturalmente uma perda significativa da identidade de populações que estão sujeitas às influências de culturas dominantes, sobretudo as populações que habitam países cuja história nacional não se mostra tão antiga – como é o caso do Brasil. Principalmente as gerações mais jovens costumam deixar-se influenciar pelas tendências do momento, adquirindo hábitos e utilizando linguagens que não compõem as características da sociedade local. Com isso, se esquecem das próprias raízes, construindo identidades que não encontram referências dentro da circunstância histórica de sua nação. Tal fenômeno tem considerável possibilidade de criar instabilidade social, na medida em que, desaparecendo essa identidade comum e original, perdem-se consequentemente os laços que mantêm vinculadas as pessoas que compõem esta ou aquela população em particular. Se nós trocamos o que somos pela influência superficial de uma cultura estrangeira, muito provavelmente desfazemos os laços que nos vinculam aos outros indivíduos com quem compartilhamos o mesmo espaço geográfico. Desse modo, torna-se bastante difícil compreender o outro, e um povo que não compreende a si mesmo estará propenso a  desuniões e conflitos.

3.

Ser estrangeiro, habitar uma nação diferente, muitas vezes desconhecendo as características singulares do local, tendo que se adaptar rapidamente a uma cultura desconhecida representa, às vezes, uma situação dramática. O sujeito que se arroja nessa aventura o faz motivado por razões variadas: a esperança de encontrar uma existência melhor, o sonho de estudar em universidades no exterior, as necessidades de uma determinada profissão, ou a situação limite da fuga territorial em que subsistam circunstâncias ligadas à guerra. Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de europeus cruzaram o Atlântico, encontrando abrigo em nações da América que os acolheram, tornando-os partícipes de sua história. No Brasil, colônias italianas, alemãs, espanholas, japonesas, portuguesas, etc., comprovam essa realidade. Atualmente, temos a oportunidade de testemunhar a crise de imigração que os europeus enfrentam devido à invasão muçulmana. Países em conflito no Oriente Médio, onde grupos radicais como a Irmandade Muçulmana e o Ísis atuam, não se mostram capazes de conter os combates recorrentes que vitimam a própria população, assim causando a fuga em massa de indivíduos que enfrentam os perigos de naufrágios no Mar Mediterrâneo, sempre na tentativa de conquistar uma vida segura em outro continente. Isso, ao menos, é o que recebemos como informação, ou seja, refiro-me aqui ao discurso midiático, ou então à posição dos governos, embora devamos também levar em consideração as observações pertinentes daqueles que afirmam não se tratar somente da fuga de um conflito bélico, afinal, uma onda considerável de imigrantes, como a que sucede na Europa, supõe a perspectiva de um processo de islamização.

Para além dessas questões migratórias, costumeiramente tratadas de forma demasiado genéricas, existe a experiência dos indivíduos em particular, daqueles que abandonam terra e tradição, família e sociedade, com o objetivo de habitar nações estrangeiras. Quando isso acontece, a pessoa troca os símbolos culturais que está acostumada por outros com os quais ainda não desenvolveu muita afinidade. O entendimento da realidade depende da afinidade com tais símbolos relacionados, por exemplo, ao idioma, à religião, aos costumes, ao trabalho, etc., e sem isso ocorre a sensação de deslocamento. A solidão é algo corriqueiro no decorrer desse processo, e quanto maiores forem as diferenças, também maior é a experiência de não estar completamente adaptado ao meio. Fazer de si mesmo parte integrante de um contexto social alheio às suas origens nunca se mostra tarefa simples, e além dos desafios particulares, há o preconceito daqueles que são cidadãos nascidos no território onde habitam atualmente os estrangeiros. Se por um lado existe o choque de quem está chegando, é suposto que exista, no comportamento dos cidadãos locais, o impulso no sentido de repelir o desconhecido. Uma e outra situação originam-se da experiência superficial do encontro. Havendo um aprofundamento nas relações, o estrangeiro se esforçará a fim de se adaptar ao novo contexto social, tornando-se parte integrante da cultura daquele país, enquanto o habitante local se esforçará também por compreender, em contrapartida, o estrangeiro não como um elemento adverso ou mesmo um invasor, mas sim como alguém perfeitamente capaz de contribuir para a nação, desse modo construindo uma história favorável.

Porém, devemos evocar aqui a possibilidade dessa contribuição estrangeira nem sempre ser assim tão favorável. Trata-se de certa circunstância em que um determinado grupo, conservando as características próprias de sua origem – sobretudo religiosa e linguística – pretender impor à nação que o recebe as características de sua cultura, suplantando as feições culturais do local. No ano de 2009, o governo francês lançou um programa de debates com os seguintes temas: “valorizar a contribuição dos imigrantes” e “compreender o que é ser francês hoje”. Desse modo, pretendia-se encontrar um justo equilíbrio entre a participação dos estrangeiros na sociedade francesa e a conservação necessária da identidade nacional. Com isso, pretendia-se que os indivíduos refletissem seriamente acerca do significado de ser um cidadão francês – nascido ali ou oriundo de outras partes do mundo. Passados quase dez anos, a questão migratória ganhou recentemente contornos dramáticos com o afluxo de árabes, refugiados de guerra que foram recebidos na França. Além do fatídico ataque terrorista ocorrido na famosa casa noturna, o Bataclan, em 13 de novembro de 2015 – um fato que causou comoção não somente na Europa, mas em muitos lugares –, existe também os debates candentes a respeito da perspectiva futura de haver uma sociedade francesa convertida aos ideais islâmicos. Sobre isso, o escritor Michel Houellebecq publicou um romance cujo título Submissão sugere a possibilidade de um candidato muçulmano se tornar presidente daquela nação. O cenário descrito por Houellebecq supõe não apenas o governo sob a direção da Irmandade Muçulmana, mas também uma rápida transformação cultural, com professores convertidos ao Islã assumindo cátedras nas principais universidades francesas, com o incentivo constrangedor ao uso da burca, e um clima de controle repressivo sobre o comportamento sexual dos franceses. Ocorre, dessa maneira, a suplantação de uma cultura por outra de fora, fazendo com que se perca a identidade nacional de um povo.


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas) e O Arcano da Morte (romance). 


domingo, 3 de junho de 2018

STANISLAVSKI E A TEORIA TOPOGRÁFICA DE FREUD




Para além dos conceitos puramente teóricos, a psicanálise é uma prática que não se limita ao uso no consultório, e isso certamente a torna passível de ser influente também em outros hemisférios. Sem dúvida, ela foi criada para tratar de doenças psicológicas, mas suas estruturas introduziram-se em áreas da mais distintas. Sigmund Freud popularizou termos como inconsciente, pré-consciente e consciente, elementos constitutivos de sua teoria topográfica, esquadrinhando assim a mente humana, e fazendo com que outras áreas do conhecimento assimilassem, a posteriori, esses mesmos elementos. Isso demonstra a força de tudo que esse médico austríaco concebeu, tendo enfrentado inicialmente bastante resistência, e alcançando êxito após muito trabalho e persistência.

Lendo recentemente A Preparação do Ator, obra escrita pelo diretor de teatro russo Constantin Stanislavski, encontro esse diálogo com o professor Tórtsov:

“– O subconsciente é inacessível ao nosso consciente. Não podemos penetrar nesse domínio. Se, por algum motivo, o fazemos, o subconsciente se transforma em consciente e morre... O resultado é um dilema: espera-se que criemos por inspiração; só o subconsciente nos dá inspiração e, entretanto, parece que só podemos utilizar esse subconsciente por meio do nosso consciente, que o mata. Há, infelizmente, uma saída. Achamos a solução por um processo indireto e não diretamente. Na alma do ser humano há certos elementos que estão sujeitos ao consciente à vontade. Essas partes acessíveis podem, por sua vez, agir sobre processos psíquicos involuntários. É claro que isto reclama um trabalho criador complicadíssimo. Esse trabalho, em parte, é realizado sob o controle do nosso consciente, mas uma proporção muito mais significativa é subconsciente e involuntária. A fim de despertar o subconsciente para o trabalho criador, emprega-se uma técnica especial. Temos que deixar à natureza tudo o que for subconsciente no sentido total da palavra, dirigindo-nos, apenas, àquilo que está ao nosso alcance. Quando o subconsciente, quando a intuição entra em nosso trabalho, temos que saber como não interferir. Não nos pode criar sempre subconscientemente e com inspiração – um gênio assim não existe! A nossa arte, portanto, nos ensina – antes de mais nada a criar conscientemente e certo, pois esse é o melhor meio de abrir caminho para o florescimento do inconsciente que é a inspiração. Quanto mais momento conscientemente criadores vocês tiverem nos seus papéis, maiores serão as possibilidades de um surto de inspiração.”

Nessa exposição, Stanislavski mostra a tradução em linguagem teatral de termos relativos à psicanálise. Para atuar com qualidade, o ator necessita submeter-se à inspiração, e essa tal inspiração depende de revelar-se o conteúdo do inconsciente – ou subconsciente, conforme o texto –, de modo espontâneo, manifestando-se depois de maneira consciente. Há uma força oculta na constituição psicológica de todos os indivíduos, e sabendo-se utilizá-la convenientemente, é possível transmutá-la em ato criativo. Sendo também o ator dotado de uma estrutura psicológica complexa, ou seja, subdividida tal como Freud idealizou na sua teoria topográfica, existe uma correlação entre inconsciente e consciente, mediada pelo pré-consciente. No caso do processo de formação proposto por Stanislavski, os conceitos psicanalíticos não se prestam exatamente à cura de neuroses, mas sim ao aprimoramento do trabalho teatral, e isso então nos demonstra que as descobertas freudianas não se limitam exclusivamente ao processo psicoterápico, mas a toda uma gama de situações que transcendem o que é usual.

Mais adiante, no texto, o professor Tórtsov ensina:

“A utilização do vapor, da eletricidade, do vento e de outras forças involuntárias da natureza depende da inteligência do engenheiro. O nosso poder subconsciente não pode funcionar sem o seu respectivo engenheiro – nossa técnica consciente. Só quando o ator sente que sua vida interior e exterior em cena está fluindo natural e normalmente, nas circunstâncias que o envolvem, é que as fontes mais profundas do seu subconsciente se entreabrem de leve e delas lhe chegam sentimentos que, nem sempre, podemos analisar. Durante um maior ou menor período de tempo, eles se apossam de nós, sempre que algum instinto interior os comanda. Como não entendemos esse poder soberano e não o podemos estudar, nós, atores, contentamo-nos em chamá-lo simplesmente natureza. Mas se infringirmos as leis da vida orgânica normal e deixarmos de funcionar certo, então esse subconsciente sensibilíssimo assusta-se e vai-se. Para evitar que isso aconteça, planejem primeiro o papel conscientemente e depois representem-nos com veracidade. A esta altura é essencial o realismo e até mesmo o naturalismo na elaboração interior do papel, pois isto obriga o subconsciente a funcionar e induz surtos de inspiração”.

Todo o diálogo suscitado acima reafirma novamente aquilo que antes mencionei, a saber: quando uma teoria revela-se bem-sucedida – e esse é o caso da teoria topográfica da psicanálise –, dissemina-se pela sociedade, deitando influência sobre outros ramos de atividade. Em sua viagem à América do Norte, no ano de 1909, Sigmund Freud teria dito a Jung: “eles não sabem que estamos lhes trazendo a peste”, referindo-se às ideias revolucionárias que chegavam, então, aos médicos norte-americanos. De fato, a psicanálise “contaminou” o debate, talvez de um modo positivo, e desde seu surgimento podemos constatar em diversas áreas do conhecimento o quanto isso é verdadeiro.    


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).



OS JOVENS E A LITERATURA


sexta-feira, 25 de maio de 2018

SEI QUE ALGURES...




Sei que algures, neste próprio momento, está uma mulher à minha espera e que se proceder muito calmamente, muito suavemente, muito lentamente, chegarei junto dela. Estará talvez à espera numa esquina e, quando eu aparecer, reconhecer-me-á. Reconhecer-me-á imediatamente. Acredito nisso, assim Deus me ajude como acredito! Acredito que tudo é justo e foi tudo determinado. A minha casa? Ora, é o mundo, o mundo inteiro! Estou em casa em toda a parte; agora sei-o, mas não o sabia.

Henry Miller, Trópico de Capricórnio.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

O SHEMÁ DA PSICANÁLISE



Tendo a psicanálise surgido como resultado das investigações médicas de um neurologista judeu, eu não estaria enganado se evocasse certo aspecto concernente à história religiosa dos israelitas no intuito de tentar entender a contribuição de seu criador. Mesmo que Sigmund Freud fosse ateu por convicção, ainda assim devemos admitir que determinadas características da tradição de um indivíduo não desaparecem tão facilmente, sobretudo quando nos referimos a uma tradição marcante como a judaica. Isso talvez até ele próprio fosse capaz de concordar, considerando o fato de que escreveu uma análise importante sobre Moisés, e a si mesmo muitas vezes se identificou com esse personagem bíblico. Mas a que vem essa observação? Trata-se de compreender a existência de características religiosas no processo da psicanálise, características essas que foram provavelmente secularizadas pelo labor científico de Freud, e que, no entanto, podem ser identificadas pelo escrutínio atento de um bom estudioso. Provavelmente, não chegaremos a discernir isso se nos cegarmos por qualquer visão ideológica acerca da psicanálise. Não se tenciona aqui batizar o trabalho intelectual de Freud nas águas sacras da argumentação espiritual, porém sim descobrir as origens mais remotas de aspectos marcantes no processo analítico.

Um desses aspectos consiste na questão da fala ou, melhor dizendo, da cura através da fala. Com o expediente da livre associação, o analisando manifesta-se verbalmente, dando assim a oportunidade ao psicanalista de identificar em seu discurso elementos do inconsciente que se revelam espontaneamente. O que se encontra oculto, ou seja, aquilo que em muitas ocasiões é a origem de transtornos psicológicos, acaba sendo trazido à superfície, dessa maneira oferecendo ao analista a chance de interpretar a personalidade do sujeito. Trata-se de um processo criado por Freud depois de ter buscado acessar as verdades enterradas no inconsciente por meio da hipnoterapia, por exemplo, e de outros métodos que não se mostraram tão eficazes. Na posição de ouvinte, o psicanalista atenta-se aos vestígios da realidade obscura que se camufla sob as palavras, na tentativa de decifrar de modo competente as estruturas psíquicas daquele que ali está submetido à análise. Portanto, estabelece-se uma relação em que duas posições distintas se completam: aquela do indivíduo que fala utilizando-se com isso da livre associação e a outra do psicanalista que escuta fazendo uso dos instrumentos técnicos que possui.

Pode-se relacionar isso com algo da tradição judaica? De uma forma bastante liberal, evoco a conhecida sentença hebraica Shemá Israel, cuja tradução é Ouve, Israel. O ato de ouvir é algo essencial dentro da cultura dos judeus, em princípio no que tange a ouvir as palavras divinas – neste caso, o indivíduo se coloca na posição de escutar passivamente tudo aquilo que Deus lhe diz –, e em segunda instância na transmissão dos ensinamentos que acontece através da oralidade, ou seja, é falando que um judeu transfere ao outro a verdade de sua religião. Usei o termo verdade, e ele se aplica aqui muitíssimo bem, porque para o judaísmo o Senhor representa justamente a verdade, não uma verdade entre muitas, mas sim a verdade única, oriunda de um Deus único. Quando observamos o shema no âmbito da psicanálise, entendemos que o ato de falar, próprio do analisando, transmite também a verdade de seu interior. Essa analogia talvez pareça contraditória se considerarmos que muito frequentemente na história da psicanálise parece ter havido certa indisposição entre suas principais teorias e os ensinamentos das religiões instituídas, no entanto, nem sempre é assim tão necessário colocar psicanálise e religião em conflito. De fato, nas conferências realizadas na Universidade católica de Bruxelas, Jacques Lacan afirma: “... se a psicanálise não triunfar sobre a religião, é porque a religião é inquebrantável. A psicanálise não triunfará: sobreviverá ou não.” E ainda: “Não triunfará apenas sobre a psicanálise, triunfará sobre muitas outras coisas. É inclusive impossível imaginar quão poderosa é a religião.”

Pois bem, a escuta psicanalítica insere-se nessa dinâmica que conserva laços ancestrais com o judaísmo. Dentro de cada ser humano existe uma situação psíquica que solicita certa via de expressão, e a psicanálise oferece exatamente essa oportunidade, colocando o analista na posição de quem se atenta a tudo o que é falado, com o objetivo de conduzir o analisando à descoberta de si mesmo e, também, ao alívio de seus sofrimentos. Eis que a tradição vetusta do shemá se manifesta, não em uma circunstância essencialmente espiritual, contudo, mantendo ainda elementos relevantes de consistência. É o verdadeiro que se revela, é algo que se transmite de um indivíduo ao outro, sigilosamente, de fato, como se ali existisse um segredo precioso, algo que necessita ser tratado com o devido respeito. Sem dúvida, cabe ao psicanalista tratar esse processo com imenso desvelo, entendendo sempre que tudo aquilo que é dito representa a intimidade de alguém, não raramente uma intimidade dolorosa que só se manifesta no desenrolar da terapia, de forma muito paciente.

O falar é o modus operandi dentro da psicanálise, o caminho rumo ao inconsciente, e a escuta é parte importante da elaboração intelectual do psicanalista.

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).