" " NOVA CASTÁLIA: Junho 2017

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sábado, 24 de junho de 2017

OS RISCOS DA FÉ



Muitos anos atrás, visitando um mosteiro trapista, conversei longamente com o Prior da comunidade. Falávamos especificamente sobre vocação monástica. Por algum motivo, discutimos a respeito dos riscos de se entregar à vida cristã, naturalmente considerando que o cristianismo foi muitas vezes perseguido durante seus mais de dois mil anos de história. Seguir os passos de Jesus Cristo no Brasil, como leigo ou monge, não representa exatamente um perigo. Às vezes, abordamos questões sobre a secularização da sociedade, o avanço de agendas anticatólicas, tentativas até mesmo de censurar a exposição pública da fé, mas a verdade é que temos ainda ampla liberdade religiosa no Brasil. O Prior e eu concordamos que se entregar à missão cristã em terras brasileiras oferece uma segurança que nem sempre ocorreu de acompanhar a caminhada dos seguidores do Filho de Deus. E, não obstante, também levamos em consideração o fato de que, às vezes, as coisas se transformam muito radicalmente, e o que antes era segurança logo se muda em perigo.

Sou um estudioso de temas relacionados à espiritualidade. Sempre me interessaram as obras escritas a respeito da vida monástica – em particular a beneditina – e quanto mais mística a exposição, mais suscita o meu interesse. Mergulhar de cabeça em uma via contemplativa exige ter à disposição certa estabilidade que só encontramos em tempos de paz. Os primeiros monges se direcionavam ao deserto a fim de escapar da balbúrdia citadina. No deserto encontravam serenidade, afastando os sentidos das tentações exteriores, e criando assim o cenário adequado ao encontro com Deus. Um encontro regado a silêncio e solidão. Sem esse ambiente, os exercícios espirituais necessários à vida contemplativa dificilmente chegariam a bom termo. Quando lemos as obras de São João da Cruz ou de Santa Teresa de Ávila, e acompanhamos os passos que são descritos no caminho daqueles que se encontram com o Senhor em oração, urge concluir que, fora de uma situação repleta de paz e segurança, dificilmente o indivíduo seria capaz de seguir escrupulosamente os conselhos religiosos desses mestres da vida espiritual. Não que a santidade deva ser compreendida como algo unicamente possível em tempos de tranquilidade. Não se trata disso. Quero tão somente afirmar que o ambiente externo fornece a circunstância adequada a esse caminho.

Os que padecem a perseguição – ocorrida em outros tempos e atualmente também – dão o seu testemunho sacrificando a existência. Decerto não se pode encontrar facilmente ascensões místicas ao monte Carmelo ou então excursões às moradas interiores. Os cristãos que conservam a fé em momentos de perigo são santos não porque tenham conquistado um conhecimento superior do caminho espiritual, mas sim porque seguem a Cristo em seu instante mais radical: o do martírio. E nenhum seguidor de Jesus deve excluir a possibilidade de ser obrigado a entregar totalmente à vida em holocausto. Mesmo que o contexto social não seja adverso, o fiel necessita sempre manter na consciência essa realidade como alguma coisa manifesta na história da Igreja. Sobre isso exatamente conversava com aquele Prior do mosteiro trapista: muitos vocacionados à vida religiosa buscam talvez um destino confortável, entretanto, nunca devem esquecer que, em última instância, o cristão precisa estar, inclusive, perfeitamente preparado até para o martírio, o testemunho definitivo do amor a Deus.

Recordo a obra O Silêncio, escrita pelo romancista japonês Shusako Endo, cujo enredo narra as peripécias de dois sacerdotes jesuítas que deixam terras portuguesas com o intuito de levar o evangelho ao Japão. Historicamente, os primeiros missionários que se arriscaram naquela nação do oriente encontraram um campo fecundo para expandir o cristianismo. Porém, com o advento do shogunato Togukawa, houve uma mudança significativa: cristãos antes aceitos normalmente, começaram a ser perseguidos com virulência. O enredo de Shusako Endo desenrola-se exatamente nesse período. Frente a uma circunstância adversa, os dois sacerdotes esforçam-se no sentido de conservar a fé em Cristo a despeito das torturas a que são submetidos quando capturados. Mas o verdadeiro drama não se encontra centrado nas dores físicas, e sim no dilema que significa manter a crença em Jesus Cristo quando o silêncio de Deus é a única resposta. Vive-se assim, forçosamente, aquela dimensão complexa que está contida na frase do Filho crucificado: “Pai, por que me abandonaste?” Nesse estado radical de vivência cristã, toda a teologia mística demonstra-se inócua. De que servem as moradas interiores quando tudo ao redor persegue e massacra? Como se sentir consolado espiritualmente dentro de uma cela gélida de onde é possível escutar os gritos terríveis dos irmãos sendo dilacerados? Nesse momento, toda a teologia sucumbe, e só o que resta é a fé viva, sem argumentos além do desejo de comungar com Cristo também o martírio. Tudo se resume a isso.

Para além da mera literatura, atualmente testemunhamos uma perseguição acirrada a comunidades cristãs no Oriente Médio. Inúmeros seguidores de Jesus Cristo, irmãos na fé, oferecem o sacrifício integral de sua existência. No evangelho de Mateus, o Filho de Deus afirma: Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Ser possuidor de tão alta recompensa é o que de mais excelso o Senhor concede, e essa concessão ele a conserva exatamente aos que se defrontam com o martírio. Derramar o sangue em nome de Deus revela-se, assim, o apogeu da vida espiritual, e ainda que em nosso ambiente essa atitude não se demonstre necessário, sempre é bom recordar que os exercícios de espiritualidade – todos eles! – ainda são inferiores a imitar o Cristo na cruz. 


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