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quarta-feira, 26 de abril de 2017

POR QUE NÃO ME TORNEI SOCIALISTA



Por que alguém se torna socialista? Há uma resposta supostamente óbvia: para acabar com as desigualdades sociais e saciar os famintos. Trocando em miúdos, por um impulso de generosidade. Mas se alguém se torna socialista realmente por esse motivo, por que não se tornaria também um benfeitor de características religiosas como, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá? Se observarmos bem, o impulso caridoso como fenômeno humano antecede historicamente o surgimento do socialismo, e é um fator mais intenso e marcante nas religiões institucionalizadas. Sem dúvida, não há partido ou regime socialista no mundo inteiro que sustente mais pobres do que as igrejas. Logo, o impulso de generosidade não deve constituir-se em argumento suficiente para justificar o fato de alguém se transformar em socialista. Nesse caso, qual seria, então, o motivo? Talvez a influência exercida deliberadamente sobre os indivíduos. É notório que o socialismo tem um eficiente método de doutrinação, e através dele arregimenta seus prosélitos. Sendo assim, muitos provavelmente acabam sendo apanhados nas redes do socialismo. Se considerarmos que a esquerda conquistou uma espécie de hegemonia cultural na sociedade brasileira após décadas de doutrinação eficiente, surpreende que algumas pessoas não se tenham tornado socialistas desde o berço ou, ao menos, durante a juventude quando estão mais expostos à influência.

Sou uma dessas exceções, admito. Nunca me deixei seduzir pela retórica do socialismo. Durante a adolescência, sendo então um frequentador assíduo de bibliotecas, e tendo-me interessado pelo estudo da filosofia, comecei a buscar os temas que versassem sobre essa temática. Na ocasião, o nome que me surgiu primeiramente foi o de Karl Marx. Costumava ver cartazes de manifestações e simpósios comunistas espalhados pela cidade de São Paulo naquele tempo, e o rosto do ideólogo alemão, em gravuras conhecidas, neles figurava. Sempre houve ao redor do socialismo certa aura de intelectualidade, e um leitor ávido como eu não ignorava esse fato. Por isso busquei ingressar no terreno filosófico abordando, de início, textos marxistas, na esperança de que pudessem construir-me intelectualmente. Tudo o que eu desejava era que a filosofia expandisse meus horizontes, me oferecesse profundidade e, sobretudo, que respondesse as questões essenciais da alma humana. Nisso consistia minha sede de conhecimento, e era o que eu ansiava fruir nas obras de filosofia.

Foi uma abordagem sincera, afinal, eu estava realmente interessado em destrinchar o pensamento marxista. Mas à medida em que avançava na leitura do Manifesto do Partido Comunista, do 18 de Brumário de Luís Bonaparte e das Teses Sobre Feuerbach, por exemplo, notei que nesses escritos decerto não encontrava aquilo que estava buscando. Tive a nítida impressão de que estava habitando um terreno raso e árido. As análises sociais de Karl Marx, cujo intuito consistia em revolucionar o sistema, levando o modelo capitalista a um estado socialista através de um processo dialético não entusiasmava o meu espírito. Além disso, o materialismo histórico do autor, redundando em um ateísmo militante, não chegava a convencer-me. Honestamente, Marx não oferecia qualquer resposta às questões fundamentais da alma humana. Talvez alguém possa objetar que os problemas sociais e econômicos tratados por Karl Marx não me tocavam particularmente, sendo assim, isso explicaria a pouca atração que sua obra exercia sobre minha pessoa. Contudo, a realidade é que sempre estive mais próximo da classe dos proletariados – a qual o autor dirigia seu pensamento. Logo, supostamente deveria encontrar-me suscetível à retórica marxista. Mas o fato é que, em momento algum, isso aconteceu.

Desiludido, abandonei o marxismo e me aventurei por outras estantes da biblioteca. Na ocasião, despertou-me o interesse as obras de um autor especialista em religiões comparadas: Mircea Eliade. Sua análise das crenças religiosas revelou-se de grande fôlego. O autor abordava as mais variadas tradições espirituais, do cristianismo ao islamismo, dos cultos de mistérios da Grécia antiga às várias seitas gnósticas, do hinduísmo às tribos norte-americanas, etc. Com argúcia e uma cultura enciclopédica, Eliade comparava as inúmeras manifestações religiosas do oriente e do ocidente, lançando luzes sobre as origens da experiência sobrenatural no ser humano. Havia alguma coisa de místico naqueles livros, como se ao desvendar as culturas tradicionais, o autor conseguisse traduzir elementos da alma humana, desde os primórdios à modernidade. Porque o homem religioso, no fundo, é intimamente o mesmo, não importa o período histórico. Mesmo que seu estudo não se centralizasse no homem contemporâneo, oferecia instrumentos suficientes para interpretá-lo também.

Havia diferenças substanciais entre os trabalhos de Karl Marx e os de Mircea Eliade. Enquanto os limites do primeiro eram estreitos, os limites do outro mostravam-se abrangentes. Enquanto Marx negava a transcendência, Eliade fazia disso o mote de sua investigação intelectual. Um tencionava romper com as tradições, e o outro supunha preservá-las. Um era horizontal, o outro vertical. Metido entre os dois, inclinei-me seguramente no sentido do estudioso de religiões comparadas. De fato, com muita satisfação, dediquei-me à leitura da maioria dos livros deste autor, e além de compreender melhor o fenômeno religioso, também compreendi melhor a mim mesmo. Estou absolutamente convencido de que, naquele momento, meu destino intelectual foi definido, e eu me desviei da visão superficial e materialista da realidade marxista para vislumbrar uma realidade de características profundas e sobrenaturais. 

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

AS DIMENSÕES DA VIAGEM EM ADALBERTO DE QUEIROZ



Se o poeta tiver a possibilidade de expandir os horizontes, não lhe perdoaremos que se limite à estreiteza. Para que seu destino se cumpra, é necessário viajar. Pôr os pés na estrada com ousadia, desvendando os mistérios do caminho, descobrindo em cada porto o amor e a solidão, em cada estadia os sabores variados da realidade, e tudo fruindo, transformar posteriormente em discurso poético. Eis o espírito que atravessa a obra Destino Palavra, do poeta goiano Adalberto de Queiroz. Na peregrinação que permeia as páginas do livro, Queiroz revisita os tempos de infância, evocando o menino-poeta que, então, somente poderia ansiar as terras distantes a que se arrojaria no futuro.

Eu sou esse menino no corpo do velho d’agora.
Sou o que vi; novas terras seriam anunciadas;
com o brilho do luar, terras a conquistar.

Suas asas ainda não se haviam aberto totalmente, as viagens se encontravam insipientes, mas o fato é que o poeta estava realmente destinado à liberdade de se aventurar, e suas aventuras não eram apenas geográficas – embora estas fossem imprescindíveis –, mas também literárias e espirituais.

Quando a alma conhece a emoção de sair em descobrimento, e faz desse exercício um método de se desvendar no caminho, mais profundamente estabelece um diálogo com a obra poética de Adalberto de Queiroz. Neste sentido, entre mim e ele se fortalece uma verdadeira afinidade. Desde a juventude, também eu compreendi a relevância de expandir o espírito colocando os pés na estrada. As paisagens que vislumbramos, as comidas que provamos, as bebidas que consumimos, as pessoas que conhecemos, as línguas que aprendemos e as literaturas com as quais dialogamos, tudo, absolutamente tudo significa uma rota de descoberta, e a descoberta evolui em variadas dimensões. Ser nesse caminho exige ser inteiro. Exige carregar consigo toda a sua história, todos os anseios, e desdobrar-se a si mesmo não somente de maneira natural, mas também sobrenatural. Mesmo na poeira da estrada, essa intenção é que transforma a atitude em coisa elevada.

Ei-nos, naves: o espaço e o corrosivo
da memória, na clave fundante.
Passageiros que somos, ó naves
imbicadas no jade; nosso destino:
igualzinho ao de folhas no cedro
ou do baobá – infinitas e desejosas
se atracadas, de o espaço singrar.

E ainda:

Eis-me em busca da alma:
à caça de tesouros indecifráveis
de riquezas incontáveis.
Eis-me, aqui, como Cabral catando versos
porém sem tanta decifração e tato.

Queiroz compreende que as navegações geográficas, as excursões físicas através do mundo, representam um argumento importante para justificar a navegação essencial e verdadeira: aquela que o espírito realiza. Por isso o poeta avança a sua embarcação poética rumo a continentes teológicos tradicionais. Sua expedição aborda portos seguros nas obras espirituais de Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Ali Adalberto de Queiroz empreende a sua exploração em busca do conhecimento de Deus presente em si mesmo e na escuridão sensorial que a alma necessita ultrapassar a fim de atingir a comunhão divina. E essa comunhão é o objetivo real, o motivo dessa busca constante, de tudo aquilo que seus olhos testemunharam, daquilo que seu intelecto fruiu artisticamente. O menino da Vila Jaiara ainda mal pressentia a gravidade das navegações futuras, mas o poeta amadurecido pelas experiências isto não desconhece, e expõe o destino em seus versos.

Valei-me, João da Cruz, que a noite em dia
se transforme por milagre: e o sonho venha
por melhores águas nos levar a um prado.

E ainda:

Teresa, a castelhana d’Ávila
santificou sua vida; venceu o mundo
contra o mundo, contra todos.

O termo do itinerário percorrido por Adalberto de Queiroz consiste realmente nesse encontro sobrenatural com o Criador. Como já evidenciado nesta análise, as viagens do poeta – tanto geográficas quanto literárias – simbolizam o percurso existencial, do nascimento à velhice, da ignorância infantil à sabedoria madura, do pecado à redenção. Assim como estreamos neste mundo desnudos, também desnudos nos apresentaremos diante de Deus. Trata-se de uma nudez que extrapola o plano meramente corporal, atingindo uma dimensão metafísica, e o poeta antecipa em seus discursos o encontro com Deus no qual a criatura se desvestirá de todos os conceitos limitados, de todas as suas fraquezas, defrontando-se com a verdade em dimensão absoluta.

De toda veste despido
com a roupa da alma se vê –
de toda máscara,
de toda persona
de toda leitura

de todo orgulho
rompido; destituído –
Despiram-no
banharam-no
para a passagem.


Diante do cenário cultural brasileiro, onde campeia o discurso ideológico e no qual a literatura limitou-se a abordagens mesquinhas, abolindo qualquer referência às questões metafísicas mais relevantes, a obra poética de Adalberto de Queiroz auxilia no esforço tão necessário de reabrir o ofício da escrita às temáticas universais. Há muitos motivos suficientemente convincentes para degustar seus poemas, mas ainda que não fossem tantos motivos assim – e são! – somente o aludido acima seria o bastante para o leitor se lançar à descoberta da obra Destino Palavra.
 

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quarta-feira, 5 de abril de 2017

O ELOGIO DA BONDADE



Há em mim um hábito puramente literário que consiste no seguinte: buscar nas páginas das grandes obras escritas as referências que sirvam de analogia com situações reais ou elucubrações filosóficas. Por exemplo, se acaso me confrontasse com uma circunstância na qual determinado indivíduo, tendo-se aventurado a conhecer um país longínquo, encontrasse uma cultura atrasada e afeita a violências, isto evocaria automaticamente o enredo do livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Na mesma linha bibliográfica, veio-me rápido à memória Lord Jim, o personagem marcante do mesmo autor, quando em anos recentes, na Itália, o capitão do navio Costa Concórdia abandonou seu posto de comando durante um acidente, enquanto a nau afundava. O episódio envergonhou a marinha italiana, e o capitão foi severamente punido pela atitude. Para os que leram Lord Jim, o enredo versa exatamente sobre um tripulante que, tendo-se defrontado com a possibilidade de um naufrágio, evade-se do navio como um verdadeiro covarde. Ocorre que o barco não afunda, de fato, e o protagonista – protótipo do anti-herói – passa a carregar, desde o momento, essa mancha vexatória em sua existência posterior.

Buscar referências na literatura é uma forma de tentar compreender melhor a realidade. Antes de nós, grandes escritores procuraram refletir a respeito de temas universais, e com exímio talento transformaram esses temas em leituras peculiares. O amor, a coragem, a morte, o temor, a persistência, a fé, a liberdade, etc., todas as questões fundamentais da humanidade foram transformadas em obras memoráveis. Quando se estabelece correlação entre uma circunstância verídica e seu símile literário, essa experiência encontra o estado de perfeição. Porém, quando a referência literária se torna mais intensa, sobrepujando o real, corre-se o risco de perder o contato com os fatos do cotidiano. Nesse caso, os conceitos adquirem status de importância excessiva, e o indivíduo distancia-se da consistência do real. O amor na literatura é realmente inspirador, no entanto, não se compara com a vivência amorosa na prática. Em situações como as mencionadas acima, ocorre um processo de evasão do mundo palpável rumo ao mundo da fantasia.

Faço essas meditações porque também eu, vivendo imerso na literatura, padeço dessa tendência de idealizar demasiadamente as situações, vivendo assim mais no íntimo das páginas escritas do que no contexto físico da realidade. Ultimamente, refletindo acerca de uma virtude tão necessária quanto a bondade, procurei ao redor as referências palpáveis que a representassem, e lamentei não poder encontrar nenhuma que fosse eloquente como os exemplos característicos contidos na tradição literária. E nisso incluo tanto a tradição religiosa quanto a secular. Penso na figura do patriarca José, administrador do Egito, submetido apenas ao Faraó, que tendo sido rejeitado e agredido pelos próprios irmãos – além de ser vendido como escravo – oferece aos mesmos o perdão movido pelo sentimento de compaixão, e recebe-os generosamente em uma terra de fartura. Recordo-me também de Sônia, a prostituta misericordiosa de Crime e Castigo, obra de Fiódor Dostoievski, que a despeito de sua condição social inferior, serve como oportunidade de redenção para Raskólnikov, o protagonista do enredo. Ambas as referências são literárias, embora no primeiro caso trate-se de um personagem histórico.

Talvez seja demasiado exigente escrutinar o mundo em busca de exemplos semelhantes aos referidos. Mas em termos de virtude, se o que se deseja consiste em testemunhar a sua existência, urge procurá-la na sua maior expressão. O problema todo, no entanto, não reside no caráter sublime das referências, e sim na tábua de valores morais da sociedade contemporânea. Onde encontrar a bondade como virtude primordial no comportamento humano em um mundo no qual o dinheiro conquista mais corações do que qualquer beldade? Nesta sociedade em que o rancor revolucionário costuma ser ensinado a crianças e adolescentes, como descobrir o aroma agradável da generosidade? Estamos soterrados debaixo de materialismo, consumismo, ideologias esfarrapadas, sexualização exacerbada, e em um contexto dessa magnitude, a verdadeira bondade transformou-se em um elemento de segunda ou terceira categoria. Para testemunhar sua suavidade, às vezes revela-se imprescindível evadir-se um pouco da realidade a fim de saciar-se nas águas tradicionais da literatura. Porém, esse é um subterfúgio que tem certos limites, e a alma do ser humano exige a consistência daquilo que pode ser vivenciado.

Por um momento, no entanto, meditando acerca desse assunto, ocorreu-me que provavelmente seria demasiado confortável postar-me somente na posição de espectador. Para que a bondade seja um fato, basta que o indivíduo assuma para si mesmo o propósito de habituar-se à virtude. Mesmo não alcançando a sublimidade das referências mencionadas, o esforço sincero de agir com generosidade terá um valor louvável. Buscar os benesses da bondade nos outros e esquecer que seu princípio como manifestação humana encontra-se na livre decisão do indivíduo significa adequar-se à situação social em que os valores rejeitam esse tipo de virtude. Significa nivelar-se com aquilo que há de mais baixo. Não obstante, quando existe quem se encarregue de ser a referência faltante, o movimento torna-se inverso, e o indivíduo alça-se acima da categoria comum, oferecendo às demais pessoas a suavidade daquilo que anteriormente buscava.

Há nisso certo heroísmo. Tomar em seu encargo a responsabilidade de atuar na contramão da maioria, admitindo ofertar o que seja raro, embora não exista qualquer garantia de receber o mesmo em contrapartida. Porém, acredito também que me pareça a melhor escolha dentre as possíveis. Disso é preciso, sobretudo, fazer um propósito, decidir-se peremptoriamente e seguir adiante. Fazer de si mesmo um centro de bondade, ainda que timidamente no começo, e talvez alumiar o mundo com esse comportamento. 



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quarta-feira, 29 de março de 2017

VIAGEM A TERESÓPOLIS


Sozinho na rodoviária de Teresópolis, às seis e meia da manhã, em pleno carnaval, tive que escolher, em breves momentos, se tomava o próximo ônibus de retorno a São Paulo ou se aceitava a aventura de viver experiências não exatamente programadas. Saíra da capital paulistana no sábado, e viajara a noite inteira na expectativa de me encontrar com alguém. Mas tendo chegado à rodoviária, não encontrei quem se comprometera a me aguardar. Não conhecia Teresópolis, nunca havia estado naquela cidade da região serrana do Rio de Janeiro. Somente pesquisara alguns pontos turísticos na internet, e trazia na mochila as esperanças de vivenciar aqueles dias na companhia da pessoa com quem planejara a viagem. Se retornasse a São Paulo, carregaria comigo o sentimento de frustração. Se ficasse, admitindo outra solução, abriria as portas para me surpreender. Convicto, preferi ficar, mesmo que o projeto inicial tivesse fracassado redondamente.

Pouco antes de embarcar, acessando sites sobre a cidade de Teresópolis, tomei conhecimento de um hostel chamado A Casa Azul. Para lá me dirigi a pé, em uma manhã nublada de sábado, com o endereço na mão e a curiosidade de fruir uma experiência inesperada. Quando cheguei ao local, fui recepcionado por Maria Leão, a proprietária do hostel que, com muita simpatia e hospitalidade, me acolheu. Logo na entrada fui surpreendido por uma estante onde alguns livros encontravam-se em exposição. Dentre eles, observei imediatamente Morangos Selvagens, o romance da autoria de Maria Leão. Naturalmente, isso foi uma boa surpresa. Maria logo se identificou como escritora, e eu fiz exatamente o mesmo, estabelecendo rapidamente uma via interessante de diálogo.

– Vamos ter oportunidade de conversar sobre literatura, Gabriel – disse Maria. – Mas antes deixa eu te mostrar os aposentos do hostel, assim você toma um banho e descansa um pouco. Deve estar exausto devido à viagem.

Sentia-me realmente tão fatigado que desabei na cama, e dormi durante horas. Quando despertei, tempos depois, refleti sobre aqueles dias que passaria em Teresópolis. Como tinha planejado minha viagem com outra pessoa, a mesma que me abandonara na rodoviária sem dar qualquer satisfação, na realidade não dispunha de nenhuma expectativa. Mas, em contrapartida, achava-me aberto às possibilidades. Foi com esse espírito que entrei em contato com os outros hóspedes do hostel. Como eu, existiam ali indivíduos que estavam na cidade pela primeira vez. Todos dispostos a se aventurar um pouco.

Na cozinha, Alexandra, do Rio de Janeiro, me ofereceu um café, e conversando com ela, soube que era a primeira vez que viajava sozinha e se hospedava em um hostel. Pensando nos pontos turísticos da cidade, eu disse:

– Gostaria de visitar o mirante do Dedo de Deus.

– Quando pretende ir? – ela perguntou.

– Amanhã.

– Eu estou aqui há dois dias e ainda não conheci quase nada de Teresópolis.

– Se quiser, pode me acompanhar ao mirante.

– Sério?

– Mas é claro.

– Então ficamos combinados.

No dia seguinte, uniu-se a nós outro hóspede chamado Isaac. Diferente de Alexandra, o nosso amigo já havia viajado bastante e era mais experiente. Seguimos, assim, até o mirante que, muito frequentemente, figura como cartão-postal de Teresópolis.

Embora o céu não estivesse totalmente aberto, ocorreu-nos a felicidade de visualizar o Dedo de Deus e outras formações montanhosas. Trata-se realmente de uma visão exuberante. Há uma sequência de elevações rochosas, sendo que, entre elas, uma se caracteriza pela aparência alongada, muito semelhante a um indicador apontando na direção do firmamento. Tivemos também a sorte de admirar, a distância, a Baía de Guanabara. Mesmo estando a quilômetros de distância do Rio de Janeiro, Teresópolis encontra-se a tal atitude que o vislumbre daquela região torna-se possível.

Tiramos inúmeras fotografias, e depois decidimos ir caminhando até a Granja Comary, visitar o local de treinos da seleção brasileira e o lago artificial. O trajeto foi longo e bem cansativo, mas o passeio valeu o sacrifício.

À noite, no hostel, finalmente tive a oportunidade de conversar sobre literatura com a escritora Maria Leão.

– Me fale sobre os Morangos Selvagens – eu comecei.

– Esse livro foi idealizado como uma peça de teatro, mas em algum momento alguém me sugeriu transformá-lo em um romance. Na hora fiquei assustada, mas decidi aceitar o desafio. Depois de escrito, mandei os originais para várias editoras, no entanto, só tive respostas negativas. Estava quase desistindo quando, numa noite, bebendo um vinho e me sentindo decepcionada, aceitei fazer uma última tentativa. Mandei o livro para uma editora portuguesa, e, tempos depois, recebi uma resposta positiva. Os editores estavam interessados em publicar o Morangos Selvagens.

– Com meus livros a história foi diferente – eu disse. – Preferi não ir atrás de editoras. Mandei publicá-los por conta própria e assim vou vendendo principalmente no Facebook. É onde encontro meus leitores.

– Pois é, encontrar leitores é o grande desafio.

Maria Leão contou-me que participava de um círculo de escritores de Teresópolis que reunia textos e publicava em coletâneas.

– Acho muito interessante a convivência com outros autores, Maria. Porém, a verdade é que, mais importante do que constituir um círculo de escritores, é construir um círculo de leitores. Afinal de contas, escrevemos para ser lidos.

– Concordo. Mas confesso que venho encontrando alguma dificuldade.

– Uma coisa que o autor precisa entender é que muito provavelmente os leitores não virão atrás do livro. É necessário que o escritor se dedique arduamente a conquistar esses leitores. É tolice pensar que basta publicar o livro e ficar esperando que a editora faça a divulgação do trabalho. Na realidade, cabe ao autor dar o sangue para fazer seus escritos se tornarem conhecidos.

Pouco a pouco fui explicando a Maria meu método de divulgação, e ela se comprometeu a colocá-lo em prática.

No dia seguinte, embora alguns hóspedes do hostel tenham me convidado para um passeio que fariam, decidi ir sozinho até o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Sabendo disso, Maria Leão me aconselhou que fizesse duas trilhas: Mozart Catão e Cartão-postal. Para subir a trilha Mozart Catão demorei cerca de quarenta minutos, embrenhando-me em meio à vegetação da serra, cansando-me, muitas vezes, e seguindo as indicações que encontrava no caminho. Finalmente, depois do esforço, cheguei ao ponto final, onde existe um miradouro que oferece a belíssima perspectiva da cidade de Teresópolis do alto. São setecentos metros de subida, e dali vemos o município totalmente. Uma paisagem de tirar o fôlego. A descida foi naturalmente tranquila, e como me havia comprometido a fazer ambas as trilhas, segui um tanto até encontrar a entrada para a trilha Cartão-postal. Para ser muito sincero, estava um tanto cansado, mas não desejava abandonar o parque sem antes ter as duas experiências. Foi com esse intuito que me embrenhei na segunda trilha e comecei a subir. São mil e duzentos metros em ascensão, em um caminho muito bem sinalizado, embora em um grau de dificuldade algo exigente. Muitas vezes tive a necessidade de interromper a subida para descansar ou me hidratar. Quando cheguei ao topo, tive a belíssima visão do Dedo de Deus, mas agora de uma posição diferente: estava praticamente na mesma altura. Lamentavelmente, meu celular se danificou durante a subida, e não tive a oportunidade de tirar fotografias, mas, independente disso, garanto que a experiência foi realmente inesquecível.

Depois desse exercício corporal pesado, sentia-me fisicamente consumido. Há tempos não me exauria assim. Como sou uma criatura do elemento água, o único desejo que sentia naquele momento era mergulhar em alguma cachoeira ou coisa semelhante a fim de readquirir as energias. Por sorte, dentro do parque existe uma piscina natural, e foi exatamente ali que nadei durante quase uma hora, sentindo o líquido gelado em contraste com o corpo, relaxando os músculos, e me reconfortando após o esforço empreendido. De fato, quando me sequei e sai do parque, praticamente não me encontrava exausto como antes. O contato com a água tinha recuperado minha disposição.

Como ficaria somente três dias em Teresópolis, à noite embarquei de retorno a São Paulo. Mesmo que a viagem não tivesse ocorrido do modo planejado, estava bastante satisfeito com o resultado. Pois aceitara o desafio de enfrentar uma situação adversa, e além de conhecer lugares fantásticos e viver experiências marcantes, ainda tinha também entrado em contato com pessoas interessantes.

Realmente valeu cada segundo.



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quarta-feira, 22 de março de 2017

LEANDRO KARNAL E A RUÍNA DA INTELIGÊNCIA




O cenário intelectual brasileiro não é exatamente dos mais profícuos. Por esse mesmo motivo não me surpreendo com a nova polêmica que tomou conta da internet: o professor universitário Leandro Karnal, de tendências progressistas, figura televisiva e sempre muito chegado à agenda liberal dos esquerdistas, foi fotografado em um restaurante jantando com o juiz Sérgio Moro. Na realidade, a foto foi postada na página de Facebook do próprio professor, com um breve comentário acerca dos projetos que ambos teriam em comum. Todos sabem que Sérgio Moro notabilizou-se na Lava Jato, e justamente por isso tornou-se inimigo número um do petismo. Para ser sincero, quando vi a fotografia, além do fato de observar duas figuras antagônicas social e intelectualmente compartilhando a mesma cena, não cheguei considerar que a própria circunstância pudesse suscitar qualquer tipo de escândalo. Mesmo não seguindo a linha de pensamento de Leandro Karnal, admito que ele goze do status de intelectual junto a um público expressivo, e nada mais natural que, sendo assim, eventualmente se relacione com as personalidades proeminentes da nação. Mas ocorre que para a corriola esquerdista que o admirava, esse encontro soou como uma espécie de traição à causa. Parece que o careca roeu a corda.

Consta que Leandro Karnal surpreendeu-se com a repercussão causada pela circunstância e com a indignação causada entre os seguidores da esquerda. Sentar-se à mesma mesa com o inimigo número um do petismo e ainda afirmar projetos em comum é indesculpável. Karnal conheceu na pele uma das facetas mais doentias do socialismo: a perseguição ideológica a todos aqueles que saem da casinha. Mas isso não deveria causar nele tanto espanto. Na prática, Leandro Karnal sempre foi um adepto do marxismo cultural, e esse seguimento da corrente ideológica cria cenários próprios à perseguição. No máximo, o professor provou do veneno que vem ajudando a disseminar no Brasil. Suponho que não deva ter sido uma experiência muito agradável, e o referido acusou o golpe, tendo retirado velozmente a fotografia de sua página no Facebook. Publicou também uma espécie de mea-culpa patético. Enfim, queimou o filme com os esquerdistas primeiramente, e se chegou a despertar a simpatia de alguns conservadores, logo perdeu isso também ao se persignar servilmente diante desses petistas indignados.

Na justificativa esdrúxula apresentada por Leandro Karnal, o professor argumenta não enxergar problema no encontro com figuras proeminentes do cenário nacional – também eu afirmei o mesmo acima. Nisto nós concordamos. De fato, um intelectual que se preze necessita estar atento aos diversos fenômenos políticos da sociedade brasileira, e ainda que pertença a um grupo específico ou defenda determinados valores particulares, não deve se furtar ao conhecimento em primeira mão de um personagem emblemático: neste caso, o juiz Sérgio Moro. Realmente, no momento histórico atual, o magistrado ostenta um dos papéis mais importantes do país, e, tendo oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, o intelectual teria a obrigação de aproveitar. Sou um escritor de pensamento mais tradicionalista e católico por devoção, mas também não me furtaria a conhecer pessoalmente alguma figura de convicção ou credo diferentes, pois algo sempre se aproveita desse contato. O equívoco de Leandro Karnal não foi ter postado a foto com Sérgio Moro. Seu verdadeiro erro consiste em não ter sido pedagógico, e digo isso porque em seu mea-culpa, o professor gaba-se de algumas décadas ofertadas ao ensino. Diante da reação, Karnal deveria ter-se dirigido ao público com uma lição: testemunhar a história com proximidade é tudo o se exige de um intelectual. Um intelectual não se abstém dessa obrigação, e tira da experiência as conclusões que lhe parecerem mais corretas. No entanto, ao ceder tão rapidamente à investida dos seguidores esquerdistas, talvez Leandro Karnal tenha dado a entender que não merece, de forma alguma, o título de intelectual.

Se isso não fosse suficiente, em seu pedido público de desculpas, o professor cometeu uma incongruência vexatória. Na ânsia de mostrar-se compreensivo, um exemplo de tolerância, admite que seus admiradores e detratores têm total liberdade de amá-lo ou odiá-lo. Aparentemente, ele se manterá imune a isso. Nesse ato de extrema condescendência, revela o aspecto mais cômico de sua tentativa de bancar o típico sujeito inclinado a defender direitos e liberdades. Não obstante, como é possível conceder aos outros inclusive o direito de odiá-lo quando a si mesmo não concede a possibilidade de postar uma fotografia no Facebook? Em seu impulso irresistível e liberalizante, Leandro Karnal sacrifica a independência de uma suposta atividade intelectual apenas para satisfazer a sanha de um determinado grupo.

Honestamente, a figura de Leandro Karnal nunca chegou a me convencer. Se hoje essa mesma impressão deixou de ser uma particularidade minha, e tornou-se uma convicção pública, isto somente comprova que, ao fim e ao cabo, eu não estava equivocado.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

TRUMP COMO LE GUSTA (OU NÃO)



O presidente eleito dos Estados Unidos deve ter certamente suas virtudes – afinal, conquistou delegados suficientes para superar sua adversária: a democrata Hillary Clinton –, mas entre essas virtudes não computo a sutileza. Os primeiros decretos presidenciais comprovam isto. Se a política é a arte da negociação, construir um muro na fronteira com o país vizinho e impedir a entrada de cidadãos de nações muçulmanas em território norte-americano está distante de revelar um perfil diplomático. Donald Trump não se mostra para muita conversa, e talvez seja essa faceta de sua personalidade que tenha atraído a simpatia do eleitorado conservador. Trump faz o tipo chefão austero e carrancudo que se notabilizou no ramo dos negócios imobiliários, cassinos, hotéis e entretenimento. Uma figura avessa a qualquer inclinação politicamente correta que não se constrange em afirmar que obrigará o governo mexicano a pagar os gastos da construção do famigerado muro e nem tampouco de suscitar dúvidas a respeito da nacionalidade de Barack Obama. Goste-se de Donald Trump ou não, é preciso admitir que se trata de uma figura política sui generis. 

Mesmo que a imprensa tente construir uma imagem exageradamente negativa de Donald Trump, o fato inegável é que ele representa uma mudança política cujas consequências não se restringem à sua atuação. O discurso de Trump tem elementos conservadores e nacionalistas que se coadunam com o ressurgimento de linhas políticas mais direitistas na Europa. Sua visão a respeito dos imigrantes – principalmente árabes – é compartilhada por Marine Le Pen, candidata à presidência da França. Outros países da comunidade europeia também já demonstraram estar dispostos a dar uma guinada no sentido de um conservadorismo político. Sem dúvida, existe também um discurso mais tradicionalista na atual ideologia vigente do governo russo, o que justifica, de certo modo, a aproximação que houve entre Donald Trump e Vladimir Putin durante a campanha presidencial dos Estados Unidos. Portanto, o cenário mundial está distante de ser antagônico ao surgimento de um personagem do quilate de Donald Trump. 

Por mais que surpreendam os decretos iniciais de Donald Trump, urge tentar entendê-los dentro de um contexto mais amplo. Certamente suas decisões não se tratam apenas de características da personalidade que lhe cabe. Trump tem realmente seu estilo, e gostem ou não, ele caiu nas graças de um eleitorado que clamava por ordem e segurança. Porém, como disse antes, o modo Trump de ser mais se encaixa em um cenário específico do que o constrói. É evidente que o fato de ser o presidente da nação mais importante do mundo dá a seu papel protagonismo, no entanto, neste momento não se pode afirmar que ele esteja manifestando-se em um idioma político indiscernível. Ele se expressa em um tom que parece ser a tônica da atualidade. Pois além do pânico causado pelo terrorismo islâmico – o qual pretende justificar o impedimento de cidadãos muçulmanos de certos países ingressarem em território norte-americano –, existe também um saturamento com linhas ideológicas que tradicionalmente defendem conceitos como, por exemplo, o globalismo e o multiculturalismo. Em um mundo no qual o Islã esforça-se na tentativa de impor um califado universal sob a égide da sharia, dizimando populações inteiras em uma limpeza étnica sem precedentes, é natural que surjam vozes no Ocidente com discurso anti-islâmico. Gente que não está disposta a oferecer aos muçulmanos a tolerância que eles próprios se negam a outorgar, por exemplo, aos cristãos residentes em território árabe. Depois de décadas de abertura a outras culturas, os ocidentais começam a fazer contas, e concluir que os projetos globalistas e multiculturalistas decerto ocasionaram uma situação catastrófica. 

Para além das polêmicas suscitadas pelas decisões do presidente norte-americano, duas questões exigem ser discutidas:

1ª) A forma como Donald Trump começa o mandato é realmente tão problemática – conforme coloca a mídia liberal – quanto a ameaça do terrorismo islâmico?

2ª) Quais serão os limites próprios do estilo de Trump no contexto do sistema político norte-americano?

Parece curioso como a sensibilidade de certos grupos sociais e de determinada linha de imprensa aflora-se diante da postura do atual governo, pois o que se observa, em contrapartida, é muitas vezes indiferença no que tange à perseguição islâmica às comunidades cristãs no Oriente. Se existe uma situação calamitosa na atualidade, esta não é decerto o posicionamento de Donald Trump contrário à imigração, mas sim o ataque civilizacional ao cristianismo. Permitir-se forjar uma visão pessoal da realidade baseada única e exclusivamente no noticiário liberal é acreditar em uma exacerbação do caráter problemático da atual presidência norte-americana, e, sobretudo, não enxergar com clareza suficiente onde se localiza, de fato, a verdadeira crise. Significa assumir uma ótica interpretativa distorcida. Observe-se, por exemplo, que na última semana de seu mandato, o ex-presidente Barack Obama retirou as prerrogativas dadas aos imigrantes cubanos de adquirem direito de moradia em território norte-americano quando em fuga da ilha. Tal decisão, no entanto, não suscitou semelhante má vontade da classe jornalística e nem tampouco de outros governantes estrangeiros, o que prova cabalmente a existência de uma distorção.

Urge também considerar, como contraponto, que as atitudes primeiras de Donald Trump refletem a posição que escolheu durante toda a sua vida no comando de suas empresas e no programa televisivo que apresentou. Trump sempre foi o chefão poderoso cuja determinação tornava-se lei independente do quanto isso pudesse ocasionar desagrado. Trata-se, sem qualquer dúvida, de um empresário bem-sucedido que edificou uma imagem pessoal de homem severo cujos resultados financeiros são de competência assegurada. Nessa situação, ele não necessita confrontar-se com outros poderes – ele é o poder absoluto! – porém, como presidente, suas ações estarão parcialmente limitadas pela coexistência dos poderes legislativo e judiciário. Isto já começa a acontecer com o embate que, neste momento, Trump tem travado com o juiz federal de Seattle que suspendeu a medida que proibia a entrada no país de refugiados e cidadãos de sete países. Essa circunstância talvez revele que a falta de tarimba diplomática e sua personalidade centralizadora poderá inviabilizar, na prática, o mandato do presidente eleito.

Só o tempo dirá, afinal, se essa onda conservadora protegerá Donald Trump de suas dificuldades ou se ele será tragado pelo ataque daqueles que se mostram reticentes às suas posturas. 




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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A VOCAÇÃO E SEUS PERCALÇOS



Toda vocação consiste em uma aposta. De fato, não existe qualquer garantia de que ao segui-la ocorrerá o sucesso. O sucesso não é garantido, o reconhecimento também não, e, em última instância, nem mesmo a felicidade é garantida. A história mostra que muitos artistas, intelectuais, cientistas, etc., que decidiram seguir sua vocação morreram em estado de frustração. E aqui não estou aludindo às pessoas que traíram sua vocação ou então que preferiram enterrá-la. Refiro-me, especificamente, àqueles que não somente foram fiéis a ela, mas sobretudo realizaram algo de valioso. Mesmo estes muito frequentemente não encontraram o êxito esperado, nem tampouco a felicidade. A despeito disso, somos levados a acreditar que a vocação é o caminho que nos conduz a uma espécie de júbilo profundamente humano, acompanhado de aplausos. Contudo, não seria o caso de encarar a vocação como se encara o martírio?

Mesmo não oferecendo sempre o sucesso como recompensa, e a despeito de ser, às vezes, um peso difícil de carregar, há na vocação algo que nos coage a sacrificar em seu altar o melhor daquilo que somos. Suor e sangue. A essência da alma. As fibras de nossa musculatura tensa. Tudo isso empenhamos na esperança de saciar um impulso interior. E a miséria não se torna obstáculo. A doença também não. Aliás, nem tampouco a prisão consegue impedir o esforço aflito de trazer à tona todas as forças latentes da vocação. Nesse quesito, ou seja, no que tange ao sacrifício, o indivíduo que a ela se entrega aproxima-se bastante daquela virtude da santidade.

Dentre as experiências marcantes da minha vida, ter lido Recordações da Casa dos Mortos certamente está na escala das mais intensas. Neste livro, o autor relata os anos terríveis transcorridos no cárcere devido a uma condenação política. Na companhia de indivíduos com características violentas, no frio austero da Sibéria, Fiódor Dostoievski testemunhou sua vocação literária ser testada ao extremo. A descrição da angústia de um homem sufocado por um ambiente adverso, tendo sua liberdade usurpada, e necessitando proteger a todo custo o talento, oferece à obra tons magistrais. Foram a convivência com círculos intelectuais russos e a atividade subversiva contra o Czar a motivação de seu encarceramento, mas nem tamanha frustração conduziu Dostoievski a desistir de realizar sua vocação. Tendo sido libertado, anos depois, durante certo tempo esteve ainda proibido de publicar seus escritos. Faminto e doente, dependeu exclusivamente da boa vontade do irmão. A despeito de tudo isso, e vencendo as adversidades, produziu romances paradigmáticos como Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov e Os Demônios.

Também na prisão, o filósofo Boécio escreveu um memorável texto no qual personifica a Filosofia, servindo-se dela para se consolar. A tese central de Boécio é precisamente que, mesmo nas adversidades, a busca da Verdade necessita continuar sendo o sentido máximo da existência. Decerto o pensamento de Boécio lança luminosidade sobre o problema da vocação, pois a questão toda em seu trabalho reside na capacidade humana de transcender os limites físicos e circunstanciais através da elevação do espírito. Inclusive no cárcere, o filósofo encontra uma forma de aliviar os sofrimentos da alma através do conhecimento. No caso específico dele – e, contudo, não somente dele – isso constitui a vivência integral da vocação. Uma vivência que alcança ultrapassar os obstáculos e realizar algo de louvável apesar de todas as condições contrastantes.

Há existências humanas tão avessas ao impulso vocacional que sua experiência pode ser continuamente contraditória. Quando me refiro a isso não estou somente aludindo à natureza íntima do indivíduo, porém sim à sua situação externa. Por exemplo, cito os casos do pintor holandês Vincent Van Gogh e do escritor francês Léon Bloy. O primeiro vitimado tanto pela penúria quanto pela loucura, e o segundo refém de uma existência atribulada. Não houve para nenhum dos dois consolo mais benfazejo do que a arte realizada. Não houve o reconhecimento merecido em vida, e não se pode afirmar categoricamente que tenha existido mesmo a compreensão de seus pares. Porém, tais espíritos, sendo inquietos, não se vergaram tão facilmente diante das dificuldades, deixando como legado obras consistentes. Tê-los como exemplo de talento e persistência talvez seja aconselhável, entretanto, quantos desejam igualmente admitir as consequências negativas dessas biografias? Quantos suportariam estoicamente tantos sofrimentos em nome de um ideal superior? Nisto reside a verdadeira questão!

Por vezes, seguir a vocação é semelhante a caminhar no escuro, ou seja, trata-se substancialmente de um ato de fé. Crê-se em algo. Mas em quê? Isto quase ninguém consegue definir. Há diversas portas e algumas sugerem a possibilidade de se franquearem, mas o que sobrevirá a essa passagem? Outra solução não resta: se o indivíduo está intimamente comprometido, avança na expectativa quase religiosa de que seus esforços serão recompensados – de algum modo – senão nesta existência frequentemente ingrata, ao menos no acaso de uma posteridade gloriosa.


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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

AS SUTILEZAS DA JUSTIÇA



No romance O Homem Sem Qualidades, do escritor alemão Robert Musil, existe um debate estimulante acerca da circunstância de um assassinato cometido por Moosbrugger. Digo que seja estimulante porque o protagonista do enredo – Ulrich – intercede em nome do acusado que, segundo ele, não teria consciência absoluta da gravidade do crime que, objetivamente, escandalizou a sociedade: Moosbrugger matara uma jovem prostituta com dezenas de golpes desferidos com tesoura. Musil desloca a narrativa, em dado momento, apresentando a circunstância a partir da perspectiva do assassino, e então testemunhamos um indivíduo de parcos recursos intelectuais – conquanto não desprovido de forças corporais – que confessa o ato afirmando haver agido de maneira brutal não porque estivesse premeditado, mas sim por acreditar que a prostituta representasse um risco. Portanto, fica assim estabelecido um contraste entre o rigor da justiça que condena Moosbrugger e a visão próxima do criminoso que, na opinião de Ulrich, não parece ser exatamente um mau sujeito, nem tampouco perigoso. 

As nuances da justiça nos colocam, às vezes, em situações semelhantes a essa apresentada por Robert Musil em seu romance, e decidir exatamente o grau de consciência do criminoso é algo que excede muito frequentemente a capacidade humana. 

 O filósofo Josef Pieper escreve: 

 “Dar valor ao outro por ser outro – isso é ser justo (...) A justiça diz: há um outro, que não é como eu, e que tem os seus direitos. Assim, o justo mostra-se justo porque confirma o outro naquilo em que ele é diferente, e procura dar-lhe o que lhe pertence.” 

 Pieper define o justo como aquele que dá valor ao outro, e isto significa afirmar que a justiça é uma virtude que está vinculada à relação. Ou seja, na ausência do outro, a justiça não tem cabimento.  

Dentro de uma perspectiva teológica, o termo justo encontra o seu equivalente na palavra santo. Um santo é necessariamente um justo. Pode-se entender, dentro dessa perspectiva, que o justo se encontra perfeitamente adequado (ajustado) às normas divinas, vive segundo as leis de Deus, e nele não existe dissensão. Ora, o mandamento sublime de Deus consiste em Amar a Deus acima de todas as coisas e aos outros como a si mesmo. Portanto, só pode ser justo aquele que confirma o amor na sua atitude, tanto vertical quanto horizontalmente, o que significa dizer também que ama a Deus assim como ama os homens. E não somente como está disposto a amar os seus amigos, mas igualmente como ama os seus inimigos. Isso caracteriza o santo ou o justo: a vivência do amor na relação.   

Porém, cumprir o mandamento de amar o próximo, inclusive o criminoso, não significa corroborar o crime cometido. Nesse caso a justiça ficaria comprometida porque o criminoso é, em si mesmo, um indivíduo injusto por não ter amado suficientemente o outro. Observar a situação desde a sua perspectiva também não representa justificá-lo socialmente em decorrência de alguma circunstância desfavorecida, pois mais desfavorecido foi aquela vítima da injustiça do crime. Trata-se sobretudo, então, de não pagar a injustiça com o preço idêntico da injustiça, não violentar o violento, oferecendo, em contrapartida, a bondade ao invés da maldade, a compreensão ao invés da incompreensão, o amor ao invés do ódio e, consequentemente, a justiça no lugar da injustiça.  

Para analisar a existência daqueles criminosos brasileiros que recentemente protagonizaram chacinas em diversas penitenciárias com a mesma perspectiva suscitada por Robert Musil no que tange ao caso Moosbrugger, ou seja, de modo imparcial e objetivo, urge admitir que a justiça não é uma forma de vingança e que ela não começa no ato de punição, mas antes começa na alma de quem analisa a questão externamente. Moosbrugger não é inocente do crime cometido, entretanto, isso não significa declarar a inexistência de sua versão nessa circunstância. De maneira semelhante, não são inocentes os criminosos brasileiros, conquanto essa afirmação não lhes retire o direito de ter uma perspectiva pessoal dos acontecimentos reais.  

Sem dúvida, existe uma tendência ideológica que, a pretexto de encarar as situações sob o ponto de vista do bandido, tenciona justificá-lo ou desculpá-lo exageradamente, inclusive chegando ao cúmulo de retirar dele a responsabilidade, atribuindo-a ao status quo social. Com isto, o criminoso torna-se vítima, e a verdadeira vítima é negligenciada. Fique suficientemente claro que não estou escolhendo essa hermenêutica, não pretendo argumentar segundo preceitos de caráter revolucionário, e acredito que todo crime deve ser punido e toda vítima verdadeira deve ser protegida. Porém, continua havendo, a despeito das paixões ideológicas, uma perspectiva particular que, se não necessita ter primazia na análise, é importante, no entanto, que seja levada em consideração. O escritor alemão Robert Musil leva em consideração a história de Moosbrugger e quem deseje impor a justiça dentro das penitenciárias brasileiras terá que seguir o mesmo preceito do romancista.  

Resta ainda uma questão delicada nessa análise: dentro de uma sociedade laicizada como é a nossa, em que o âmbito religioso mantém-se excluído, como a justiça terá essa visão imparcial e essencialmente amorosa quando este conceito se origina no contexto teológico? Ater-se unicamente à frieza do código penal significa afastar o senso de caridade, e sem isto decerto com mais probabilidade será implantado um sistema antes injusto do que justo. Meditar a respeito desse problema deveria estar no centro da discussão. 


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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A LITERATURA POR COMPANHEIRA





Os monges escolhem livremente a solidão: é nesse estado que se encontram com Deus. Os estrangeiros muito frequentemente também conhecem a solidão. Ser um estranho em terra distante, cercado por pessoas de língua e cultura diferentes, tentando decifrar os signos da nova realidade, sentindo a ausência de amigos e familiares, tudo isso tem correspondência com a solidão. Os amantes abandonados experimentam a solidão em seu aspecto um tanto obscuro. Pode certamente não ser a condição mais ambicionada, contudo, não devemos esquecer que muitas obras artísticas nasceram inspiradas pela figura dos amantes frustrados. Há outra espécie de indivíduo cujo status encontra-se ligado à imagem do solitário: trata-se do escritor. Sozinho no estúdio, cercado de livros e silêncio, escrevendo durante horas a fio, o escritor constitui o protótipo do ser humano que, utilizando-se de um elemento originalmente adverso – a solidão – consegue transformar a adversidade em criação artística. Sempre que bem-sucedido, o autor de livros estabelece um diálogo frutuoso com os leitores, e é curioso que esse colóquio nasça e se desenvolva exatamente no terreno da solidão, como se ela se metamorfoseasse no seu contrário, como se fosse necessário construir um silêncio absoluto a fim de atingir a essência da natureza humana e então transmiti-la. Da mesma forma, o leitor necessita buscar a solidão se o intuito for compreender a mensagem transmitida, e isolado, tendo somente a companhia do livro, torna-se testemunha silente daquele desnudar-se audacioso da alma que empreende o escritor nas páginas. No espaço da solidão, dois espíritos distantes entendem-se discretamente.
Gosto da imagem tradicional do escritor caminhando à beira-mar, em uma tarde fria de outono, o oceano cinza e encapelado, o ruído da ventania, o homem como uma sombra vagando com aquela sensação de que acolhido em seus pensamentos está seguro. Talvez esses momentos sejam mesmo imprescindíveis, sem essa reclusão voluntária as obras provavelmente ficariam sufocadas, como a semente que encontra terra árida e não consegue desenvolver-se. A solidão é fecundante muitas vezes. Decerto ele procura essa situação tentando calar a balbúrdia exterior, afastar os intrusos do seu território literário, dar espaço ao nascimento dos textos, permitindo que amadureçam antes na intimidade do coração. Os leitores também buscam esse retiro, o barulho sincopado das ondas, o zumbido discreto da brisa, e ali mergulham confortavelmente na leitura. Precisam fazer o exercício do distanciamento porque essa voz distante é sutil, e exige toda a atenção, sim, ela exige fidelidade, deseja que o indivíduo se afine ao ritmo de alguma coisa que agora se encontra longe no tempo e no espaço, embora se conserve viva nas páginas de um livro. Sempre que o encontro acontece a contento, eis a compreensão sucedida como se os limites naturais da existência se rompessem, tornando possível um tipo de comunicação improvável.
Quando tomei a literatura por companheira, descobri a consistência dessa solidão. Havia um território no qual me embrenhava e decifrava segredos, um hemisfério que a mim se franqueava, conquanto estabelecesse limites à entrada dos outros. Tornei-me frequentador constante de bibliotecas, e farejei cada estante de livros à procura daquelas obras que não somente me acrescentassem cultura, mas que sobretudo me transformassem totalmente. O hábito da leitura não era apenas distração, existia nele um caráter existencial, não era só me distinguir dos demais porque conhecia os clássicos, era, na realidade, a busca do conhecimento de mim mesmo refletido nos escritos de seres humanos a quem eu não conhecera pessoalmente, autores de culturas e idiomas diversos que, de certo modo, traduziam parte daquilo que sou. Em Fiódor Dostoievski padeci a angústia do autor confinado em um ambiente hostil, sendo obrigado a conviver com a brutalidade, e protegendo a todo custo o seu talento. Em Franz Kafka eu reconheci a angústia do indivíduo massacrado pela burocracia do estado e oprimido por um ofício carente de significado. Nos versos de Fernando Pessoa compreendi minha natureza multifacetada, os eus diferentes dialogando comigo, e o sufoco de tentar expressá-los como personagens literárias. E no surrealismo de Hermann Hesse deparei-me com um espírito tão semelhante que ambos buscávamos o autoconhecimento transcendendo a realidade meramente comezinha, e alcançando ambientes livres de convenções e espiritualmente elevados, onde a alma conseguia alçar voos libertadores. Todas essas vivências iam sendo acumuladas, e embora no comércio das vulgaridades não valessem muito, considerei que fossem uma espécie de tesouro que deveria manter guardado com todo cuidado.
Era natural que eu ansiasse compartilhar essa herança, oferecer às demais pessoas um bocado dessas experiências adquiridas, no entanto, fui compreendendo algo perturbador: na mesma medida em que a vivência literária me tomava e também me distinguia, criava igualmente uma dificuldade de comunicação. Havia demasiada densidade em tudo aquilo, demasiada consistência, e a realidade terrível era que os outros preferiam entreter-se com assuntos mais superficiais. Foi exatamente assim que admiti o fato de que, embora fosse um tipo de diálogo, a literatura tinha alguma coisa de seletivo, construindo amiúde uma torre de marfim onde se refugiavam todos os que estavam encantados. Sim, eis que me havia transformado em um homem recluso naquele território com raríssimos interlocutores, um ser humano sapiente de uma linguagem fundamental conhecida por uma estirpe única. Isso naturalmente favorecia os diálogos interiores, contudo, eu precisava descobrir uma maneira de dar vazão a tudo que se acumulava por dentro, eu precisava sair daquele sufoco do isolamento excessivo.
Tendo utilizado a literatura como entrada, observei que deveria utilizá-la então como via de saída. Se o colóquio não conseguisse atingir multidões, ao menos atingiria aqueles que estavam dispostos a edificar uma ponte de comunicação estimulante através dos textos. Fui assim traduzindo o que sou em escritos que ficavam como registro das experiências, e as testemunhas que encontrasse no caminho seriam os interlocutores que, conquanto não pudessem ser tocados fisicamente falando, decerto seriam tocados intimamente. Como eu fora a testemunha de Dostoievski, Pessoa, Kafka e Hesse, agora necessitaria buscar aqueles que me testemunhassem também, e isso consistia no fechar de um círculo, o cumprimento da missão de leitor e escritor. Isso era o verdadeiro significado daqueles anos de silêncio e solidão mergulhado na leitura dos clássicos.


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