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sábado, 24 de junho de 2017

OS RISCOS DA FÉ



Muitos anos atrás, visitando um mosteiro trapista, conversei longamente com o Prior da comunidade. Falávamos especificamente sobre vocação monástica. Por algum motivo, discutimos a respeito dos riscos de se entregar à vida cristã, naturalmente considerando que o cristianismo foi muitas vezes perseguido durante seus mais de dois mil anos de história. Seguir os passos de Jesus Cristo no Brasil, como leigo ou monge, não representa exatamente um perigo. Às vezes, abordamos questões sobre a secularização da sociedade, o avanço de agendas anticatólicas, tentativas até mesmo de censurar a exposição pública da fé, mas a verdade é que temos ainda ampla liberdade religiosa no Brasil. O Prior e eu concordamos que se entregar à missão cristã em terras brasileiras oferece uma segurança que nem sempre ocorreu de acompanhar a caminhada dos seguidores do Filho de Deus. E, não obstante, também levamos em consideração o fato de que, às vezes, as coisas se transformam muito radicalmente, e o que antes era segurança logo se muda em perigo.

Sou um estudioso de temas relacionados à espiritualidade. Sempre me interessaram as obras escritas a respeito da vida monástica – em particular a beneditina – e quanto mais mística a exposição, mais suscita o meu interesse. Mergulhar de cabeça em uma via contemplativa exige ter à disposição certa estabilidade que só encontramos em tempos de paz. Os primeiros monges se direcionavam ao deserto a fim de escapar da balbúrdia citadina. No deserto encontravam serenidade, afastando os sentidos das tentações exteriores, e criando assim o cenário adequado ao encontro com Deus. Um encontro regado a silêncio e solidão. Sem esse ambiente, os exercícios espirituais necessários à vida contemplativa dificilmente chegariam a bom termo. Quando lemos as obras de São João da Cruz ou de Santa Teresa de Ávila, e acompanhamos os passos que são descritos no caminho daqueles que se encontram com o Senhor em oração, urge concluir que, fora de uma situação repleta de paz e segurança, dificilmente o indivíduo seria capaz de seguir escrupulosamente os conselhos religiosos desses mestres da vida espiritual. Não que a santidade deva ser compreendida como algo unicamente possível em tempos de tranquilidade. Não se trata disso. Quero tão somente afirmar que o ambiente externo fornece a circunstância adequada a esse caminho.

Os que padecem a perseguição – ocorrida em outros tempos e atualmente também – dão o seu testemunho sacrificando a existência. Decerto não se pode encontrar facilmente ascensões místicas ao monte Carmelo ou então excursões às moradas interiores. Os cristãos que conservam a fé em momentos de perigo são santos não porque tenham conquistado um conhecimento superior do caminho espiritual, mas sim porque seguem a Cristo em seu instante mais radical: o do martírio. E nenhum seguidor de Jesus deve excluir a possibilidade de ser obrigado a entregar totalmente à vida em holocausto. Mesmo que o contexto social não seja adverso, o fiel necessita sempre manter na consciência essa realidade como alguma coisa manifesta na história da Igreja. Sobre isso exatamente conversava com aquele Prior do mosteiro trapista: muitos vocacionados à vida religiosa buscam talvez um destino confortável, entretanto, nunca devem esquecer que, em última instância, o cristão precisa estar, inclusive, perfeitamente preparado até para o martírio, o testemunho definitivo do amor a Deus.

Recordo a obra O Silêncio, escrita pelo romancista japonês Shusako Endo, cujo enredo narra as peripécias de dois sacerdotes jesuítas que deixam terras portuguesas com o intuito de levar o evangelho ao Japão. Historicamente, os primeiros missionários que se arriscaram naquela nação do oriente encontraram um campo fecundo para expandir o cristianismo. Porém, com o advento do shogunato Togukawa, houve uma mudança significativa: cristãos antes aceitos normalmente, começaram a ser perseguidos com virulência. O enredo de Shusako Endo desenrola-se exatamente nesse período. Frente a uma circunstância adversa, os dois sacerdotes esforçam-se no sentido de conservar a fé em Cristo a despeito das torturas a que são submetidos quando capturados. Mas o verdadeiro drama não se encontra centrado nas dores físicas, e sim no dilema que significa manter a crença em Jesus Cristo quando o silêncio de Deus é a única resposta. Vive-se assim, forçosamente, aquela dimensão complexa que está contida na frase do Filho crucificado: “Pai, por que me abandonaste?” Nesse estado radical de vivência cristã, toda a teologia mística demonstra-se inócua. De que servem as moradas interiores quando tudo ao redor persegue e massacra? Como se sentir consolado espiritualmente dentro de uma cela gélida de onde é possível escutar os gritos terríveis dos irmãos sendo dilacerados? Nesse momento, toda a teologia sucumbe, e só o que resta é a fé viva, sem argumentos além do desejo de comungar com Cristo também o martírio. Tudo se resume a isso.

Para além da mera literatura, atualmente testemunhamos uma perseguição acirrada a comunidades cristãs no Oriente Médio. Inúmeros seguidores de Jesus Cristo, irmãos na fé, oferecem o sacrifício integral de sua existência. No evangelho de Mateus, o Filho de Deus afirma: Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Ser possuidor de tão alta recompensa é o que de mais excelso o Senhor concede, e essa concessão ele a conserva exatamente aos que se defrontam com o martírio. Derramar o sangue em nome de Deus revela-se, assim, o apogeu da vida espiritual, e ainda que em nosso ambiente essa atitude não se demonstre necessário, sempre é bom recordar que os exercícios de espiritualidade – todos eles! – ainda são inferiores a imitar o Cristo na cruz. 


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segunda-feira, 1 de maio de 2017

PREVIEW DO ROMANCE O ARCANO DA MORTE



– Confesso que entre mim e o seu marido nunca existiu contato. Foi através do noticiário que acabei tomando conhecimento desse caso trágico... Me refiro ao suicídio do doutor Aristides, naturalmente – o detetive observa a cantora com o intuito de flagrar sinais de abatimento, não obstante, a morte deixa de suscitar nela a sensação imediata de horror. Sasha Menezes parece resignada ou meramente insensível. – Mesmo assim, recentemente me aconteceu descobrir que seu esposo manteve em posse algo que durante certo tempo me pertenceu...
– Isso me surpreende – diz a cantora.
– Por quê?
– Durante anos convivi com Aristides, e sei perfeitamente que ele era bastante exigente. Gostava de mesas reservadas em restaurantes, lugares exclusivos nos teatros, roupas finas, carros de último tipo, viagens de primeira classe, e não costumava compartilhar o uso das coisas. Me diga então, neste caso, detetive, que interesse teria ele de utilizar algo que pertenceu antes a outra pessoa? Isto é um absurdo!
– O interesse eu não saberia definir, senhora Menezes. Por isso solicitei essa conversa.
– O objeto... Penso que seja um objeto...
– Sim. É um objeto de uso pessoal, algo bastante particular.
– Que seria?
– Uma carteira.
– Posso vê-la? – a cantora estende a mão.
– Sem dúvida.
O detetive entrega a ela. De imediato, algo sucede na expressão de Sasha Menezes, certa mudança significativa que dissipa a dureza insensível de antes, trocando isso pela turbação momentânea. A cantora reage finalmente, mostra instabilidade, como se houvesse uma rachadura na superfície artificial de sua aparência. Os músculos da testa contraem-se, os lábios apertam-se de forma contundente, e ela estremece de modo ligeiro, embora o bastante para ser notado.
– A senhora reconhece? – Santa Rosa questiona.
– Sim.
– Esteve com seu marido, não é?
– Eu admito realmente que Aristides chegou a usar esta carteira.
– Me diga, senhora Menezes, será que, em alguma circunstância, teve a oportunidade de abri-la?
– Para ser sincera não.
– Gostaria de fazê-lo agora? – ele sugere.
– Sem dúvida.
Outra vez a expressão de Sasha Menezes modifica-se, revelando algo de penetrante no semblante da cantora ao constatar a gravação interna no couro da carteira.
– É o seu nome – ela afirma.
– Isto mesmo. Agora observe, senhora Menezes, que seu marido não apenas utilizou algo que pertencia a outra pessoa, contrariando os costumes dele, mas também agiu assim sabendo que ali existia uma inscrição delatando essa circunstância.
– Percebo agora.
– Poderia me esclarecer uma coisa? – o detetive solicita.
– Mas é claro.
– Como essa carteira chegou ao doutor Aristides?
Ela sorri, e o sorriso ardiloso e desvelado dissipa o resto da camuflagem.
– Foi um amigo de Aristides quem ofereceu a ele essa carteira.
– Como presente?
– Eu não diria isso.
– E então...
– Para ser sincera, eu nunca entendi bem o tipo de relação que os unia em amizade. O amigo apareceu de repente, nos visitou uma vez uns meses atrás. Veio jantar, e depois daquilo acredito que ambos se encontraram em ocasiões diferentes, provavelmente em outros lugares. Não suponho que tratassem de negócios e também não imagino que o homem fosse um dos clientes de Aristides. Parecia haver entre os dois um vínculo íntimo e, pelo que me consta, não fui exatamente convidada a participar da intimidade dessa relação.
– Posso saber como essa pessoa se chama?
– Aristides se dirigia a ele sempre chamando de Conde.
– Esse é o nome?
– Talvez seja – a cantora responde.
– E como descreveria o Conde? – Santa Rosa pergunta.
– Um tipo extravagante, eu diria no mínimo. Tinha ideias estranhas, me incomodou lidar diretamente com ele. Pareceu ser culto, acredito que ele tenha viajado bastante, corrido o mundo inteiro – a cantora responde. – Fisicamente atarracado. Magro. Cabelos cortados rente à cabeça. Firme de corpo sem parecer exatamente atlético.
– Por que disse que ele tinha ideias estranhas?
– Depois do jantar, acomodados na sala de repouso, o Conde sugeriu que Aristides e eu participássemos de um jogo que, naquele momento, me pareceu um tipo de encenação. A ideia consistia basicamente em trocarmos de identidade durante certo tempo. Sou uma artista de palco, e não digo que assumir outra personagem esteja distante do que estou acostumada, mas Aristides sempre se mostrou um homem sério e pragmático, nunca afeito a situações dessa natureza. Sendo assim, supus que ele não aceitaria a proposta, no entanto, o fato é que terminei surpreendida. Meu marido acatou a sugestão de imediato, e procurou desempenhar o papel com diligência, assumindo uma identidade que jamais foi a dele. Porém, antes de começarmos, o Conde afirmou ser conveniente termos um símbolo de realidade capaz de garantir a estrutura do jogo, algo que servisse como totem. Ele utilizou exatamente esse termo: totem. Foi nesse momento que apresentou a carteira, ela seria nosso totem, e deveria ficar em posse de Aristides durante a encenação. Garanto que eu particularmente não toquei na carteira, somente Aristides teve permissão. Me recordo que ele observou o totem com gravidade, analisou o exterior e o interior, e deve ter reconhecido que se tratava decerto de um artigo elegante. Desse modo, tudo começou. O Conde dirigiu a encenação: Aristides deveria encarnar inicialmente um tutor de atitudes conservadoras, o católico tipicamente tradicionalista, cheio de moralismo e severidade, em contrapartida, eu assumiria a postura de uma estudante universitária, algo ingênua e inexperiente. O curioso é que não existia nunca exatamente um roteiro. O Conde ia orientando as coisas, insinuando algumas situações, estimulando conflitos e debates, e embora eu tivesse achado muito confuso, de início, logo me envolvi totalmente no jogo, e comecei a considerá-lo estimulante. Creio que Aristides também estivesse se comprazendo, mas de uma maneira diferente, sendo rigoroso, por exemplo, cumprindo fielmente o papel designado, se submetendo aos desígnios do Conde de modo absoluto. Houve mudanças de personagens, em determinado momento, e Aristides deixou de se apresentar como católico conservador, se tornando um degenerado afeito a compromissos com mulheres de caráter leviano. E a mim me coube assumir a carapuça desse tipo de pessoa. Isso naturalmente foi um choque, porém, como aceitara participar daquilo, decidi encarnar a tal personagem que, diferente da anterior, tinha uma alcunha específica. Conforme a cena ia se desenrolando, o convidado de Aristides fomentava nele um comportamento mais agressivo, dominador, dando a entender que àquele indivíduo degenerado cabia o papel de macho dominante. Portanto, eu deveria me comportar como uma fêmea submissa. Como da vez anterior, meu marido cumpria fielmente o acordo, agindo com arrogância e me tratando rudemente. Eu, sem coragem de abandonar o jogo, suportava tudo, me esforçando por admitir uma tolerância que não é da minha natureza. Mas a verdade era que eu me encontrava já exasperada com a excentricidade do Conde, e não compreendia bem por que motivo Aristides se permitia dirigir tão tranquilamente. Por isso, em dado momento, argumentei um desconforto estomacal, e deixei a sala com o intuito de repousar no meu cômodo particular.
– E a carteira? – o detetive indaga.
– Honestamente, supus que Aristides devolveria o totem ao Conde, porém, algum tempo depois, aqui em casa, tive a oportunidade de ver a carteira sobre a mesa de trabalho do meu marido – responde a cantora. – Isso me desconcertou um tanto, recordar as encenações daquela noite, a figura extravagante do tal sujeito, a mudança de postura do Aristides...

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).

quarta-feira, 26 de abril de 2017

POR QUE NÃO ME TORNEI SOCIALISTA



Por que alguém se torna socialista? Há uma resposta supostamente óbvia: para acabar com as desigualdades sociais e saciar os famintos. Trocando em miúdos, por um impulso de generosidade. Mas se alguém se torna socialista realmente por esse motivo, por que não se tornaria também um benfeitor de características religiosas como, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá? Se observarmos bem, o impulso caridoso como fenômeno humano antecede historicamente o surgimento do socialismo, e é um fator mais intenso e marcante nas religiões institucionalizadas. Sem dúvida, não há partido ou regime socialista no mundo inteiro que sustente mais pobres do que as igrejas. Logo, o impulso de generosidade não deve constituir-se em argumento suficiente para justificar o fato de alguém se transformar em socialista. Nesse caso, qual seria, então, o motivo? Talvez a influência exercida deliberadamente sobre os indivíduos. É notório que o socialismo tem um eficiente método de doutrinação, e através dele arregimenta seus prosélitos. Sendo assim, muitos provavelmente acabam sendo apanhados nas redes do socialismo. Se considerarmos que a esquerda conquistou uma espécie de hegemonia cultural na sociedade brasileira após décadas de doutrinação eficiente, surpreende que algumas pessoas não se tenham tornado socialistas desde o berço ou, ao menos, durante a juventude quando estão mais expostos à influência.

Sou uma dessas exceções, admito. Nunca me deixei seduzir pela retórica do socialismo. Durante a adolescência, sendo então um frequentador assíduo de bibliotecas, e tendo-me interessado pelo estudo da filosofia, comecei a buscar os temas que versassem sobre essa temática. Na ocasião, o nome que me surgiu primeiramente foi o de Karl Marx. Costumava ver cartazes de manifestações e simpósios comunistas espalhados pela cidade de São Paulo naquele tempo, e o rosto do ideólogo alemão, em gravuras conhecidas, neles figurava. Sempre houve ao redor do socialismo certa aura de intelectualidade, e um leitor ávido como eu não ignorava esse fato. Por isso busquei ingressar no terreno filosófico abordando, de início, textos marxistas, na esperança de que pudessem construir-me intelectualmente. Tudo o que eu desejava era que a filosofia expandisse meus horizontes, me oferecesse profundidade e, sobretudo, que respondesse as questões essenciais da alma humana. Nisso consistia minha sede de conhecimento, e era o que eu ansiava fruir nas obras de filosofia.

Foi uma abordagem sincera, afinal, eu estava realmente interessado em destrinchar o pensamento marxista. Mas à medida em que avançava na leitura do Manifesto do Partido Comunista, do 18 de Brumário de Luís Bonaparte e das Teses Sobre Feuerbach, por exemplo, notei que nesses escritos decerto não encontrava aquilo que estava buscando. Tive a nítida impressão de que estava habitando um terreno raso e árido. As análises sociais de Karl Marx, cujo intuito consistia em revolucionar o sistema, levando o modelo capitalista a um estado socialista através de um processo dialético não entusiasmava o meu espírito. Além disso, o materialismo histórico do autor, redundando em um ateísmo militante, não chegava a convencer-me. Honestamente, Marx não oferecia qualquer resposta às questões fundamentais da alma humana. Talvez alguém possa objetar que os problemas sociais e econômicos tratados por Karl Marx não me tocavam particularmente, sendo assim, isso explicaria a pouca atração que sua obra exercia sobre minha pessoa. Contudo, a realidade é que sempre estive mais próximo da classe dos proletariados – a qual o autor dirigia seu pensamento. Logo, supostamente deveria encontrar-me suscetível à retórica marxista. Mas o fato é que, em momento algum, isso aconteceu.

Desiludido, abandonei o marxismo e me aventurei por outras estantes da biblioteca. Na ocasião, despertou-me o interesse as obras de um autor especialista em religiões comparadas: Mircea Eliade. Sua análise das crenças religiosas revelou-se de grande fôlego. O autor abordava as mais variadas tradições espirituais, do cristianismo ao islamismo, dos cultos de mistérios da Grécia antiga às várias seitas gnósticas, do hinduísmo às tribos norte-americanas, etc. Com argúcia e uma cultura enciclopédica, Eliade comparava as inúmeras manifestações religiosas do oriente e do ocidente, lançando luzes sobre as origens da experiência sobrenatural no ser humano. Havia alguma coisa de místico naqueles livros, como se ao desvendar as culturas tradicionais, o autor conseguisse traduzir elementos da alma humana, desde os primórdios à modernidade. Porque o homem religioso, no fundo, é intimamente o mesmo, não importa o período histórico. Mesmo que seu estudo não se centralizasse no homem contemporâneo, oferecia instrumentos suficientes para interpretá-lo também.

Havia diferenças substanciais entre os trabalhos de Karl Marx e os de Mircea Eliade. Enquanto os limites do primeiro eram estreitos, os limites do outro mostravam-se abrangentes. Enquanto Marx negava a transcendência, Eliade fazia disso o mote de sua investigação intelectual. Um tencionava romper com as tradições, e o outro supunha preservá-las. Um era horizontal, o outro vertical. Metido entre os dois, inclinei-me seguramente no sentido do estudioso de religiões comparadas. De fato, com muita satisfação, dediquei-me à leitura da maioria dos livros deste autor, e além de compreender melhor o fenômeno religioso, também compreendi melhor a mim mesmo. Estou absolutamente convencido de que, naquele momento, meu destino intelectual foi definido, e eu me desviei da visão superficial e materialista da realidade marxista para vislumbrar uma realidade de características profundas e sobrenaturais. 

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quarta-feira, 19 de abril de 2017

AS DIMENSÕES DA VIAGEM EM ADALBERTO DE QUEIROZ



Se o poeta tiver a possibilidade de expandir os horizontes, não lhe perdoaremos que se limite à estreiteza. Para que seu destino se cumpra, é necessário viajar. Pôr os pés na estrada com ousadia, desvendando os mistérios do caminho, descobrindo em cada porto o amor e a solidão, em cada estadia os sabores variados da realidade, e tudo fruindo, transformar posteriormente em discurso poético. Eis o espírito que atravessa a obra Destino Palavra, do poeta goiano Adalberto de Queiroz. Na peregrinação que permeia as páginas do livro, Queiroz revisita os tempos de infância, evocando o menino-poeta que, então, somente poderia ansiar as terras distantes a que se arrojaria no futuro.

Eu sou esse menino no corpo do velho d’agora.
Sou o que vi; novas terras seriam anunciadas;
com o brilho do luar, terras a conquistar.

Suas asas ainda não se haviam aberto totalmente, as viagens se encontravam insipientes, mas o fato é que o poeta estava realmente destinado à liberdade de se aventurar, e suas aventuras não eram apenas geográficas – embora estas fossem imprescindíveis –, mas também literárias e espirituais.

Quando a alma conhece a emoção de sair em descobrimento, e faz desse exercício um método de se desvendar no caminho, mais profundamente estabelece um diálogo com a obra poética de Adalberto de Queiroz. Neste sentido, entre mim e ele se fortalece uma verdadeira afinidade. Desde a juventude, também eu compreendi a relevância de expandir o espírito colocando os pés na estrada. As paisagens que vislumbramos, as comidas que provamos, as bebidas que consumimos, as pessoas que conhecemos, as línguas que aprendemos e as literaturas com as quais dialogamos, tudo, absolutamente tudo significa uma rota de descoberta, e a descoberta evolui em variadas dimensões. Ser nesse caminho exige ser inteiro. Exige carregar consigo toda a sua história, todos os anseios, e desdobrar-se a si mesmo não somente de maneira natural, mas também sobrenatural. Mesmo na poeira da estrada, essa intenção é que transforma a atitude em coisa elevada.

Ei-nos, naves: o espaço e o corrosivo
da memória, na clave fundante.
Passageiros que somos, ó naves
imbicadas no jade; nosso destino:
igualzinho ao de folhas no cedro
ou do baobá – infinitas e desejosas
se atracadas, de o espaço singrar.

E ainda:

Eis-me em busca da alma:
à caça de tesouros indecifráveis
de riquezas incontáveis.
Eis-me, aqui, como Cabral catando versos
porém sem tanta decifração e tato.

Queiroz compreende que as navegações geográficas, as excursões físicas através do mundo, representam um argumento importante para justificar a navegação essencial e verdadeira: aquela que o espírito realiza. Por isso o poeta avança a sua embarcação poética rumo a continentes teológicos tradicionais. Sua expedição aborda portos seguros nas obras espirituais de Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Ali Adalberto de Queiroz empreende a sua exploração em busca do conhecimento de Deus presente em si mesmo e na escuridão sensorial que a alma necessita ultrapassar a fim de atingir a comunhão divina. E essa comunhão é o objetivo real, o motivo dessa busca constante, de tudo aquilo que seus olhos testemunharam, daquilo que seu intelecto fruiu artisticamente. O menino da Vila Jaiara ainda mal pressentia a gravidade das navegações futuras, mas o poeta amadurecido pelas experiências isto não desconhece, e expõe o destino em seus versos.

Valei-me, João da Cruz, que a noite em dia
se transforme por milagre: e o sonho venha
por melhores águas nos levar a um prado.

E ainda:

Teresa, a castelhana d’Ávila
santificou sua vida; venceu o mundo
contra o mundo, contra todos.

O termo do itinerário percorrido por Adalberto de Queiroz consiste realmente nesse encontro sobrenatural com o Criador. Como já evidenciado nesta análise, as viagens do poeta – tanto geográficas quanto literárias – simbolizam o percurso existencial, do nascimento à velhice, da ignorância infantil à sabedoria madura, do pecado à redenção. Assim como estreamos neste mundo desnudos, também desnudos nos apresentaremos diante de Deus. Trata-se de uma nudez que extrapola o plano meramente corporal, atingindo uma dimensão metafísica, e o poeta antecipa em seus discursos o encontro com Deus no qual a criatura se desvestirá de todos os conceitos limitados, de todas as suas fraquezas, defrontando-se com a verdade em dimensão absoluta.

De toda veste despido
com a roupa da alma se vê –
de toda máscara,
de toda persona
de toda leitura

de todo orgulho
rompido; destituído –
Despiram-no
banharam-no
para a passagem.


Diante do cenário cultural brasileiro, onde campeia o discurso ideológico e no qual a literatura limitou-se a abordagens mesquinhas, abolindo qualquer referência às questões metafísicas mais relevantes, a obra poética de Adalberto de Queiroz auxilia no esforço tão necessário de reabrir o ofício da escrita às temáticas universais. Há muitos motivos suficientemente convincentes para degustar seus poemas, mas ainda que não fossem tantos motivos assim – e são! – somente o aludido acima seria o bastante para o leitor se lançar à descoberta da obra Destino Palavra.
 

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quarta-feira, 5 de abril de 2017

O ELOGIO DA BONDADE



Há em mim um hábito puramente literário que consiste no seguinte: buscar nas páginas das grandes obras escritas as referências que sirvam de analogia com situações reais ou elucubrações filosóficas. Por exemplo, se acaso me confrontasse com uma circunstância na qual determinado indivíduo, tendo-se aventurado a conhecer um país longínquo, encontrasse uma cultura atrasada e afeita a violências, isto evocaria automaticamente o enredo do livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Na mesma linha bibliográfica, veio-me rápido à memória Lord Jim, o personagem marcante do mesmo autor, quando em anos recentes, na Itália, o capitão do navio Costa Concórdia abandonou seu posto de comando durante um acidente, enquanto a nau afundava. O episódio envergonhou a marinha italiana, e o capitão foi severamente punido pela atitude. Para os que leram Lord Jim, o enredo versa exatamente sobre um tripulante que, tendo-se defrontado com a possibilidade de um naufrágio, evade-se do navio como um verdadeiro covarde. Ocorre que o barco não afunda, de fato, e o protagonista – protótipo do anti-herói – passa a carregar, desde o momento, essa mancha vexatória em sua existência posterior.

Buscar referências na literatura é uma forma de tentar compreender melhor a realidade. Antes de nós, grandes escritores procuraram refletir a respeito de temas universais, e com exímio talento transformaram esses temas em leituras peculiares. O amor, a coragem, a morte, o temor, a persistência, a fé, a liberdade, etc., todas as questões fundamentais da humanidade foram transformadas em obras memoráveis. Quando se estabelece correlação entre uma circunstância verídica e seu símile literário, essa experiência encontra o estado de perfeição. Porém, quando a referência literária se torna mais intensa, sobrepujando o real, corre-se o risco de perder o contato com os fatos do cotidiano. Nesse caso, os conceitos adquirem status de importância excessiva, e o indivíduo distancia-se da consistência do real. O amor na literatura é realmente inspirador, no entanto, não se compara com a vivência amorosa na prática. Em situações como as mencionadas acima, ocorre um processo de evasão do mundo palpável rumo ao mundo da fantasia.

Faço essas meditações porque também eu, vivendo imerso na literatura, padeço dessa tendência de idealizar demasiadamente as situações, vivendo assim mais no íntimo das páginas escritas do que no contexto físico da realidade. Ultimamente, refletindo acerca de uma virtude tão necessária quanto a bondade, procurei ao redor as referências palpáveis que a representassem, e lamentei não poder encontrar nenhuma que fosse eloquente como os exemplos característicos contidos na tradição literária. E nisso incluo tanto a tradição religiosa quanto a secular. Penso na figura do patriarca José, administrador do Egito, submetido apenas ao Faraó, que tendo sido rejeitado e agredido pelos próprios irmãos – além de ser vendido como escravo – oferece aos mesmos o perdão movido pelo sentimento de compaixão, e recebe-os generosamente em uma terra de fartura. Recordo-me também de Sônia, a prostituta misericordiosa de Crime e Castigo, obra de Fiódor Dostoievski, que a despeito de sua condição social inferior, serve como oportunidade de redenção para Raskólnikov, o protagonista do enredo. Ambas as referências são literárias, embora no primeiro caso trate-se de um personagem histórico.

Talvez seja demasiado exigente escrutinar o mundo em busca de exemplos semelhantes aos referidos. Mas em termos de virtude, se o que se deseja consiste em testemunhar a sua existência, urge procurá-la na sua maior expressão. O problema todo, no entanto, não reside no caráter sublime das referências, e sim na tábua de valores morais da sociedade contemporânea. Onde encontrar a bondade como virtude primordial no comportamento humano em um mundo no qual o dinheiro conquista mais corações do que qualquer beldade? Nesta sociedade em que o rancor revolucionário costuma ser ensinado a crianças e adolescentes, como descobrir o aroma agradável da generosidade? Estamos soterrados debaixo de materialismo, consumismo, ideologias esfarrapadas, sexualização exacerbada, e em um contexto dessa magnitude, a verdadeira bondade transformou-se em um elemento de segunda ou terceira categoria. Para testemunhar sua suavidade, às vezes revela-se imprescindível evadir-se um pouco da realidade a fim de saciar-se nas águas tradicionais da literatura. Porém, esse é um subterfúgio que tem certos limites, e a alma do ser humano exige a consistência daquilo que pode ser vivenciado.

Por um momento, no entanto, meditando acerca desse assunto, ocorreu-me que provavelmente seria demasiado confortável postar-me somente na posição de espectador. Para que a bondade seja um fato, basta que o indivíduo assuma para si mesmo o propósito de habituar-se à virtude. Mesmo não alcançando a sublimidade das referências mencionadas, o esforço sincero de agir com generosidade terá um valor louvável. Buscar os benesses da bondade nos outros e esquecer que seu princípio como manifestação humana encontra-se na livre decisão do indivíduo significa adequar-se à situação social em que os valores rejeitam esse tipo de virtude. Significa nivelar-se com aquilo que há de mais baixo. Não obstante, quando existe quem se encarregue de ser a referência faltante, o movimento torna-se inverso, e o indivíduo alça-se acima da categoria comum, oferecendo às demais pessoas a suavidade daquilo que anteriormente buscava.

Há nisso certo heroísmo. Tomar em seu encargo a responsabilidade de atuar na contramão da maioria, admitindo ofertar o que seja raro, embora não exista qualquer garantia de receber o mesmo em contrapartida. Porém, acredito também que me pareça a melhor escolha dentre as possíveis. Disso é preciso, sobretudo, fazer um propósito, decidir-se peremptoriamente e seguir adiante. Fazer de si mesmo um centro de bondade, ainda que timidamente no começo, e talvez alumiar o mundo com esse comportamento. 



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quarta-feira, 29 de março de 2017

VIAGEM A TERESÓPOLIS


Sozinho na rodoviária de Teresópolis, às seis e meia da manhã, em pleno carnaval, tive que escolher, em breves momentos, se tomava o próximo ônibus de retorno a São Paulo ou se aceitava a aventura de viver experiências não exatamente programadas. Saíra da capital paulistana no sábado, e viajara a noite inteira na expectativa de me encontrar com alguém. Mas tendo chegado à rodoviária, não encontrei quem se comprometera a me aguardar. Não conhecia Teresópolis, nunca havia estado naquela cidade da região serrana do Rio de Janeiro. Somente pesquisara alguns pontos turísticos na internet, e trazia na mochila as esperanças de vivenciar aqueles dias na companhia da pessoa com quem planejara a viagem. Se retornasse a São Paulo, carregaria comigo o sentimento de frustração. Se ficasse, admitindo outra solução, abriria as portas para me surpreender. Convicto, preferi ficar, mesmo que o projeto inicial tivesse fracassado redondamente.

Pouco antes de embarcar, acessando sites sobre a cidade de Teresópolis, tomei conhecimento de um hostel chamado A Casa Azul. Para lá me dirigi a pé, em uma manhã nublada de sábado, com o endereço na mão e a curiosidade de fruir uma experiência inesperada. Quando cheguei ao local, fui recepcionado por Maria Leão, a proprietária do hostel que, com muita simpatia e hospitalidade, me acolheu. Logo na entrada fui surpreendido por uma estante onde alguns livros encontravam-se em exposição. Dentre eles, observei imediatamente Morangos Selvagens, o romance da autoria de Maria Leão. Naturalmente, isso foi uma boa surpresa. Maria logo se identificou como escritora, e eu fiz exatamente o mesmo, estabelecendo rapidamente uma via interessante de diálogo.

– Vamos ter oportunidade de conversar sobre literatura, Gabriel – disse Maria. – Mas antes deixa eu te mostrar os aposentos do hostel, assim você toma um banho e descansa um pouco. Deve estar exausto devido à viagem.

Sentia-me realmente tão fatigado que desabei na cama, e dormi durante horas. Quando despertei, tempos depois, refleti sobre aqueles dias que passaria em Teresópolis. Como tinha planejado minha viagem com outra pessoa, a mesma que me abandonara na rodoviária sem dar qualquer satisfação, na realidade não dispunha de nenhuma expectativa. Mas, em contrapartida, achava-me aberto às possibilidades. Foi com esse espírito que entrei em contato com os outros hóspedes do hostel. Como eu, existiam ali indivíduos que estavam na cidade pela primeira vez. Todos dispostos a se aventurar um pouco.

Na cozinha, Alexandra, do Rio de Janeiro, me ofereceu um café, e conversando com ela, soube que era a primeira vez que viajava sozinha e se hospedava em um hostel. Pensando nos pontos turísticos da cidade, eu disse:

– Gostaria de visitar o mirante do Dedo de Deus.

– Quando pretende ir? – ela perguntou.

– Amanhã.

– Eu estou aqui há dois dias e ainda não conheci quase nada de Teresópolis.

– Se quiser, pode me acompanhar ao mirante.

– Sério?

– Mas é claro.

– Então ficamos combinados.

No dia seguinte, uniu-se a nós outro hóspede chamado Isaac. Diferente de Alexandra, o nosso amigo já havia viajado bastante e era mais experiente. Seguimos, assim, até o mirante que, muito frequentemente, figura como cartão-postal de Teresópolis.

Embora o céu não estivesse totalmente aberto, ocorreu-nos a felicidade de visualizar o Dedo de Deus e outras formações montanhosas. Trata-se realmente de uma visão exuberante. Há uma sequência de elevações rochosas, sendo que, entre elas, uma se caracteriza pela aparência alongada, muito semelhante a um indicador apontando na direção do firmamento. Tivemos também a sorte de admirar, a distância, a Baía de Guanabara. Mesmo estando a quilômetros de distância do Rio de Janeiro, Teresópolis encontra-se a tal atitude que o vislumbre daquela região torna-se possível.

Tiramos inúmeras fotografias, e depois decidimos ir caminhando até a Granja Comary, visitar o local de treinos da seleção brasileira e o lago artificial. O trajeto foi longo e bem cansativo, mas o passeio valeu o sacrifício.

À noite, no hostel, finalmente tive a oportunidade de conversar sobre literatura com a escritora Maria Leão.

– Me fale sobre os Morangos Selvagens – eu comecei.

– Esse livro foi idealizado como uma peça de teatro, mas em algum momento alguém me sugeriu transformá-lo em um romance. Na hora fiquei assustada, mas decidi aceitar o desafio. Depois de escrito, mandei os originais para várias editoras, no entanto, só tive respostas negativas. Estava quase desistindo quando, numa noite, bebendo um vinho e me sentindo decepcionada, aceitei fazer uma última tentativa. Mandei o livro para uma editora portuguesa, e, tempos depois, recebi uma resposta positiva. Os editores estavam interessados em publicar o Morangos Selvagens.

– Com meus livros a história foi diferente – eu disse. – Preferi não ir atrás de editoras. Mandei publicá-los por conta própria e assim vou vendendo principalmente no Facebook. É onde encontro meus leitores.

– Pois é, encontrar leitores é o grande desafio.

Maria Leão contou-me que participava de um círculo de escritores de Teresópolis que reunia textos e publicava em coletâneas.

– Acho muito interessante a convivência com outros autores, Maria. Porém, a verdade é que, mais importante do que constituir um círculo de escritores, é construir um círculo de leitores. Afinal de contas, escrevemos para ser lidos.

– Concordo. Mas confesso que venho encontrando alguma dificuldade.

– Uma coisa que o autor precisa entender é que muito provavelmente os leitores não virão atrás do livro. É necessário que o escritor se dedique arduamente a conquistar esses leitores. É tolice pensar que basta publicar o livro e ficar esperando que a editora faça a divulgação do trabalho. Na realidade, cabe ao autor dar o sangue para fazer seus escritos se tornarem conhecidos.

Pouco a pouco fui explicando a Maria meu método de divulgação, e ela se comprometeu a colocá-lo em prática.

No dia seguinte, embora alguns hóspedes do hostel tenham me convidado para um passeio que fariam, decidi ir sozinho até o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Sabendo disso, Maria Leão me aconselhou que fizesse duas trilhas: Mozart Catão e Cartão-postal. Para subir a trilha Mozart Catão demorei cerca de quarenta minutos, embrenhando-me em meio à vegetação da serra, cansando-me, muitas vezes, e seguindo as indicações que encontrava no caminho. Finalmente, depois do esforço, cheguei ao ponto final, onde existe um miradouro que oferece a belíssima perspectiva da cidade de Teresópolis do alto. São setecentos metros de subida, e dali vemos o município totalmente. Uma paisagem de tirar o fôlego. A descida foi naturalmente tranquila, e como me havia comprometido a fazer ambas as trilhas, segui um tanto até encontrar a entrada para a trilha Cartão-postal. Para ser muito sincero, estava um tanto cansado, mas não desejava abandonar o parque sem antes ter as duas experiências. Foi com esse intuito que me embrenhei na segunda trilha e comecei a subir. São mil e duzentos metros em ascensão, em um caminho muito bem sinalizado, embora em um grau de dificuldade algo exigente. Muitas vezes tive a necessidade de interromper a subida para descansar ou me hidratar. Quando cheguei ao topo, tive a belíssima visão do Dedo de Deus, mas agora de uma posição diferente: estava praticamente na mesma altura. Lamentavelmente, meu celular se danificou durante a subida, e não tive a oportunidade de tirar fotografias, mas, independente disso, garanto que a experiência foi realmente inesquecível.

Depois desse exercício corporal pesado, sentia-me fisicamente consumido. Há tempos não me exauria assim. Como sou uma criatura do elemento água, o único desejo que sentia naquele momento era mergulhar em alguma cachoeira ou coisa semelhante a fim de readquirir as energias. Por sorte, dentro do parque existe uma piscina natural, e foi exatamente ali que nadei durante quase uma hora, sentindo o líquido gelado em contraste com o corpo, relaxando os músculos, e me reconfortando após o esforço empreendido. De fato, quando me sequei e sai do parque, praticamente não me encontrava exausto como antes. O contato com a água tinha recuperado minha disposição.

Como ficaria somente três dias em Teresópolis, à noite embarquei de retorno a São Paulo. Mesmo que a viagem não tivesse ocorrido do modo planejado, estava bastante satisfeito com o resultado. Pois aceitara o desafio de enfrentar uma situação adversa, e além de conhecer lugares fantásticos e viver experiências marcantes, ainda tinha também entrado em contato com pessoas interessantes.

Realmente valeu cada segundo.



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quarta-feira, 22 de março de 2017

LEANDRO KARNAL E A RUÍNA DA INTELIGÊNCIA




O cenário intelectual brasileiro não é exatamente dos mais profícuos. Por esse mesmo motivo não me surpreendo com a nova polêmica que tomou conta da internet: o professor universitário Leandro Karnal, de tendências progressistas, figura televisiva e sempre muito chegado à agenda liberal dos esquerdistas, foi fotografado em um restaurante jantando com o juiz Sérgio Moro. Na realidade, a foto foi postada na página de Facebook do próprio professor, com um breve comentário acerca dos projetos que ambos teriam em comum. Todos sabem que Sérgio Moro notabilizou-se na Lava Jato, e justamente por isso tornou-se inimigo número um do petismo. Para ser sincero, quando vi a fotografia, além do fato de observar duas figuras antagônicas social e intelectualmente compartilhando a mesma cena, não cheguei considerar que a própria circunstância pudesse suscitar qualquer tipo de escândalo. Mesmo não seguindo a linha de pensamento de Leandro Karnal, admito que ele goze do status de intelectual junto a um público expressivo, e nada mais natural que, sendo assim, eventualmente se relacione com as personalidades proeminentes da nação. Mas ocorre que para a corriola esquerdista que o admirava, esse encontro soou como uma espécie de traição à causa. Parece que o careca roeu a corda.

Consta que Leandro Karnal surpreendeu-se com a repercussão causada pela circunstância e com a indignação causada entre os seguidores da esquerda. Sentar-se à mesma mesa com o inimigo número um do petismo e ainda afirmar projetos em comum é indesculpável. Karnal conheceu na pele uma das facetas mais doentias do socialismo: a perseguição ideológica a todos aqueles que saem da casinha. Mas isso não deveria causar nele tanto espanto. Na prática, Leandro Karnal sempre foi um adepto do marxismo cultural, e esse seguimento da corrente ideológica cria cenários próprios à perseguição. No máximo, o professor provou do veneno que vem ajudando a disseminar no Brasil. Suponho que não deva ter sido uma experiência muito agradável, e o referido acusou o golpe, tendo retirado velozmente a fotografia de sua página no Facebook. Publicou também uma espécie de mea-culpa patético. Enfim, queimou o filme com os esquerdistas primeiramente, e se chegou a despertar a simpatia de alguns conservadores, logo perdeu isso também ao se persignar servilmente diante desses petistas indignados.

Na justificativa esdrúxula apresentada por Leandro Karnal, o professor argumenta não enxergar problema no encontro com figuras proeminentes do cenário nacional – também eu afirmei o mesmo acima. Nisto nós concordamos. De fato, um intelectual que se preze necessita estar atento aos diversos fenômenos políticos da sociedade brasileira, e ainda que pertença a um grupo específico ou defenda determinados valores particulares, não deve se furtar ao conhecimento em primeira mão de um personagem emblemático: neste caso, o juiz Sérgio Moro. Realmente, no momento histórico atual, o magistrado ostenta um dos papéis mais importantes do país, e, tendo oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, o intelectual teria a obrigação de aproveitar. Sou um escritor de pensamento mais tradicionalista e católico por devoção, mas também não me furtaria a conhecer pessoalmente alguma figura de convicção ou credo diferentes, pois algo sempre se aproveita desse contato. O equívoco de Leandro Karnal não foi ter postado a foto com Sérgio Moro. Seu verdadeiro erro consiste em não ter sido pedagógico, e digo isso porque em seu mea-culpa, o professor gaba-se de algumas décadas ofertadas ao ensino. Diante da reação, Karnal deveria ter-se dirigido ao público com uma lição: testemunhar a história com proximidade é tudo o se exige de um intelectual. Um intelectual não se abstém dessa obrigação, e tira da experiência as conclusões que lhe parecerem mais corretas. No entanto, ao ceder tão rapidamente à investida dos seguidores esquerdistas, talvez Leandro Karnal tenha dado a entender que não merece, de forma alguma, o título de intelectual.

Se isso não fosse suficiente, em seu pedido público de desculpas, o professor cometeu uma incongruência vexatória. Na ânsia de mostrar-se compreensivo, um exemplo de tolerância, admite que seus admiradores e detratores têm total liberdade de amá-lo ou odiá-lo. Aparentemente, ele se manterá imune a isso. Nesse ato de extrema condescendência, revela o aspecto mais cômico de sua tentativa de bancar o típico sujeito inclinado a defender direitos e liberdades. Não obstante, como é possível conceder aos outros inclusive o direito de odiá-lo quando a si mesmo não concede a possibilidade de postar uma fotografia no Facebook? Em seu impulso irresistível e liberalizante, Leandro Karnal sacrifica a independência de uma suposta atividade intelectual apenas para satisfazer a sanha de um determinado grupo.

Honestamente, a figura de Leandro Karnal nunca chegou a me convencer. Se hoje essa mesma impressão deixou de ser uma particularidade minha, e tornou-se uma convicção pública, isto somente comprova que, ao fim e ao cabo, eu não estava equivocado.

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