" " NOVA CASTÁLIA: ENTREVISTA COM O ESCRITOR HILTON VALERIANO

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domingo, 27 de agosto de 2017

ENTREVISTA COM O ESCRITOR HILTON VALERIANO



Hilton Valeriano é formado em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCC), Pós-graduado em filosofia da educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pedagogia e História pela Universidade Metropolitana de Santos (Unimes). É professor e coordenador pedagógico na Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo.

GABRIEL SANTAMARIA: Caro Hilton, sua formação acadêmica sintetiza filosofia, pedagogia e história. Quais foram, em essência, os interesses intelectuais que conduziram você a trilhar esse caminho?

HILTON VALERIANO: Meu interesse pela filosofia surgiu por questões existenciais. Na verdade, poderíamos perguntar: como se interessar de forma legítima pela filosofia que não seja por questões existenciais? As grandes questões atemporais que marcam a humanidade em seu percurso existencial e que acabam por transcender a contingência histórica: felicidade, amor, morte, Deus, justiça, o bem e o mal etc. Todos os questionamentos que surgem dessas “temáticas” filosóficas podem ser sintetizados na questão maior sobre o Sentido do Ser, ou da vida.  A filosofia não é monopólio de acadêmicos e, tampouco, se constitui de títulos. Evidentemente, a filosofia possui uma Tradição, e não pode prescindir dela. Mas essa Tradição se constitui pelas grandes “temáticas” filosóficas, ou seja, em última instância, a vida. Eu diria que a filosofia, ou melhor, o espírito filosófico é essencial, e está sempre ameaçado por ideologias autoritárias que visam impedir o exercício da consciência crítica. Essas ideologias também podem surgir no mundo acadêmico quando querem fazer da filosofia exercício de comentários textuais ou meros instrumentos retóricos de ativismos partidários. Com isso não quero dizer que o mundo acadêmico e sua formação não sejam importantes; apenas que a filosofia não se restringe aos muros da universidade. A história e a pedagogia foram decorrentes do magistério.

GABRIEL SANTAMARIA: Seu livro Margens busca recuperar o gênero dos aforismos. Como a revalorização desse gênero em particular contribui para a cultura contemporânea?

HILTON VALERIANO: O gênero aforismo tem suas origens na Grécia, possui grande tradição nas filosofias francesa e alemã, além de uma grande presença atual na Espanha. Sou um escritor independente, como tantos escritores por esse país. Tenho consciência de minhas limitações. Na verdade, não me preocupo com isso. Agora em termos de contribuição cultural, é sempre bom ter a diversidade de fato e, sobretudo, espaço para que ela ocorra. Vivemos o monopólio da cultura de massa. A palavra pluralidade sempre está em voga nos discursos políticos, mas o que vemos é a homogeneização constante, a imposição da padronização da indústria cultural na música, nas artes plásticas, no cinema e no mercado editorial. Conheço inúmeros escritores independentes de alta qualidade, poetas, romancistas, contistas, ensaístas. A verdadeira diversidade existe, mas o mercado, ávido por lucro, não quer que ela se manifeste. As redes sociais se tornaram um caminho para a luta contra esse monopólio da anemia cultural. Pequenas editoras de diversos gêneros têm feito a diferença. É uma questão de procura.

GABRIEL SANTAMARIA: Você escreve: "Nem mesmo no amor prescindimos da solidão". Muitos escritores tiram proveito da solidão em seu trabalho. Como essa experiência fecunda sua escrita?

HILTON VALERIANO: Preciso da solidão apenas para escrever e repensar o que escrevo. Margens não nasceu da solidão. Nasceu da experiência concreta da vida, no trabalho, ônibus, faculdade, lar e de inúmeras leituras.  Sou um observador da vida. Observo, reflito e escrevo. Observar, refletir e escrever mediante vivências. Acredito que o leitor possa perceber esses aspectos em meus aforismos. Espero.

GABRIEL SANTAMARIA: Você me disse que durante certo tempo entrevistou outros escritores em um blog. Como foi essa experiência e como é a sua relação atualmente com os demais autores?

HILTON VALERIANO: Eu diria que foi uma grande experiência. A certeza de que existe literatura de qualidade, independente, que não se curva aos ditames do mercado editorial e suas frivolidades voltadas para o lucro. O objetivo era divulgar esses escritores. Foram muitos. Tenho contato com muitos deles. Vou citar alguns grandes poetas, romancistas, desenhistas e pintores da época do Poesia Diversa e que merecem ter sua obra conhecida: Silvério Duque, Iacyr Anderson Freitas, Jorge Tufic, Majela Colares, Nydia Bonetti, Andréia Carvalho, Cláudio Neves, o grande romancista Karleno Bocarro, os artistas plásticos Felipe Stefanni e Felipe Góes. Da época do Poesia Diversa, eu conheci o poeta Gustavo Felicíssimo, editor da Mondrongo, pela qual Margens foi lançado. Através do Gustavo, conheci dois grandes escritores que se tornariam grandes amigos: Jorge Elias Neto e W. J. Solha. Interlocutores com quem sempre estou aprendendo. Devo muita gratidão a esses dois. Não posso deixar de citar o belíssimo trabalho da Mondrongo. Esse ano, tive contato com duas obras poéticas de altíssima qualidade: Natal de Herodes, do poeta Wladimir Saldanha, e Auto da Romaria, do poeta João Filho. Um belíssimo trabalho do Gustavo em encontrar escritores de grande talento. São muitos nomes. Peço perdão pelos que não foram citados. A inspiração para o Poesia Diversa foi o trabalho do poeta Soares Feitosa, pioneiro em divulgação de poesia na internet com seu Jornal de Poesia.

GABRIEL SANTAMARIA: Um dos aforismos do livro expressa o seguinte: "Para aqueles que foram felizes há um momento em que a morte se faz necessária." Considerando que atualmente a cultura hedonista cria distrações que nos afastam dessa realidade da morte, como fazer para que o ser humano compreenda novamente a importância dessa questão?

HILTON VALERIANO: Quando se perde o horizonte da transcendência, evita-se a todo custo questões cruciais ligadas à vida. Nossa época é banal porque reivindica para si um horizonte totalmente materialista. O homem moderno quer viver num autoexílio espiritual, mas se recusa a assumir sua finitude. O homem moderno não quer ter alma, mas não consegue lidar com seu niilismo. Essa evasão de si só pode ser preenchida pelo subterfúgio de uma cultura hedonista, cujo principal objetivo é obstruir a capacidade intelectual do homem de indagar sobre as questões cruciais de sua vida, ou seja, as “temáticas” existenciais que alimentam o questionamento filosófico. É preciso lutar contra a tirania do secularismo.

GABRIEL SANTAMARIA: Com quais filósofos o seu trabalho intelectual dialoga com mais afinidade?

HILTON VALERIANO: Platão, Santo Agostinho, Blaise Pascal, Chesterton, Kierkegaard, o estoicismo, Nietzsche, Karl Kraus, Camus, Ricoeur, Montaigne, Cioran, os grandes moralistas franceses La Rochefoucauld, La Bruyère, Vauvenargues e Chamfort.  

GABRIEL SANTAMARIA: Quando você escreve que "por viver de crenças e não de certezas o ser humano não é capaz da verdade", isso me parece uma influência do ceticismo em sua ótica filosófica. Como você encara o destino da existência humana nessa realidade na qual o que é verdadeiro se encontra inacessível?

HILTON VALERIANO: Penso que o homem não pode, por essência, ter posse da certeza absoluta, pois sua natureza é contingente, sujeita ao tempo, portanto, histórica. Mas a impossibilidade da certeza absoluta não impede a posse da verossimilhança, daquilo que foi conquistado pelo pensamento humano ao longo dos séculos e, se torna, assim, patrimônio de uma “verdade” comum. Ponho-me do lado da razão, da tradição agostiniana do credo ut intelligam, de uma perspectiva filosófica alimentada por elementos da fé que são apropriados como categorias de reflexão. Devemos em qualquer tempo nos opor contra o espírito do Grande Inquisidor. A fé deve sempre estar aberta para o mistério da vida, mesmo que isso seja em certos aspectos uma ameaça ao dogma, à doutrina. Uma fé isenta de dúvida, é uma fé morta pelo conformismo do costume que pode degenerar em fanatismo. Devemos ter em mente que quando falamos de História, falamos do ser humano, de sua natureza propensa ao bem e ao mal. A famosa parábola do joio e do trigo pode ser aplicada aqui, a dualidade humana, que traz dentro de si a possibilidade do vício e da virtude, da verdade e da mentira. Em seu tratado A verdadeira religião, Santo Agostinho nos diz: “A primeira deformidade da alma racional é a vontade de executar o que a suma e íntima Verdade lhe proíbe.” Não teríamos a verdade apenas pelo avesso? Pela revelação da mentira que caracteriza inúmeros atos humanos ao longo dos séculos? Vejo o ceticismo como um ato de prudência em relação às nossas falhas. É mais um mecanismo de defesa contra a usurpação da dimensão racional que nos caracteriza, mas que também, não está isenta de erro. Não sou um cético propriamente falando. 

GABRIEL SANTAMARIA: Qual a sua posição pessoal diante das manifestações do sagrado?

HILTON VALERIANO: Pode o sagrado prescindir de uma tradição? O homem é um ser que se apropria de significações, ao tempo em que cria outras. Ele é, por essência, instaurador de sentido. O Cristianismo foi responsável, durante séculos, por um processo civilizador de amplo espectro. Vive sua crise, mas se mantém como uma proposta de significação existencial incomparável, em relação às outras grandes narrativas - no dizer de Paul Ricoeur - como o Iluminismo ou o Marxismo.  Podemos pensar que essa crise tem demonstrado os limites da subjetividade humana, da herança filosófica do cogito cartesiano, quando nos deparamos com o vazio presente nas artes, na literatura, e mesmo na filosofia. Vivemos o encarceramento do “eu”, da autorreferência. Consequentemente, refletimos a ausência de conteúdo em obras literárias, uma verdadeira afasia, além da polissemia estéril no campo das artes plásticas, onde tudo pode ser dito por nada significar. Evidentemente, há exceções que rompem com essa estética do feio, da desfiguração, do sem sentido. Não sou contra a modernidade, vanguardas e experimentalismos artísticos. É preciso ter em mente que a crise do cristianismo é, em seu âmago, a crise da transcendência, e a crise da transcendência, é a crise da dimensão sacra, é a recusa não apenas do cristianismo, mas também da tradição grega. Penso em uma perspectiva dialética. Por isso, a crise da transcendência é também a crise da razão. No dizer de Pascal: “O último passo da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam. Ela é apenas fraca se não vai até reconhecer isso. Que se as coisas naturais a ultrapassam, que se dirá das sobrenaturais? Sou cristão por ser herdeiro de um patrimônio cultural de milênios, por habitar simbolicamente sua cosmovisão, por agir moralmente a partir de suas dimensões morais, por usufruir de sua estética. Pensar o cristianismo em seu desdobramento cultural, ou seja, na teologia, nas artes plásticas, na filosofia, na literatura, na arquitetura e música, além da esfera ética e política, é impossível, sem a referência a seu “corpo” institucional, seja ele católico ou protestante. Mas é possível ser católico ou protestante de uma forma muito específica, singular. Eu diria até mesmo que a essência dessa grande narrativa existencial estaria na singularidade de quem a assume, de quem incorpora essa narrativa, que, portanto, sempre transfigura a história. Como disse o apóstolo: “há muitas moradas na casa de meu pai”.

GABRIEL SANTAMARIA: Você afirma que "quando na política o poder é o único fim almejado, os interesses privados predominam em detrimento das necessidades coletivas". Estamos vivendo atualmente um momento crucial na história política do Brasil, com a prisão de políticos que, de fato, fizeram dos interesses privados seu objetivo máximo. Quais são as suas considerações a respeito desse assunto?

HILTON VALERIANO: Tudo parece indicar que vivemos uma crise política sem precedentes na história de nosso país. Parece evidente, também, que os partidos que governam este país há anos, independentemente de rivalidades ideológicas e da busca promíscua pelo poder, tornaram-se o centro de um esquema criminoso de espólio do dinheiro público e de usurpação da verdadeira representatividade política da população. A crise moral que assola a política brasileira parece não tocar a “consciência” dos partidos. Talvez, um dos grandes obstáculos para que nós, brasileiros, enquanto povo, possamos, de fato, adquirir uma consciência política crítica, seja a superação das ideologias partidárias. Nenhum partido político deve estar acima do povo ao qual representa. Mas nossa situação parece ser contrária. Os antagonismos que surgiram devido à crise econômica fomentada pelos escândalos de corrupção, não raro, têm proporcionado divisões cegas marcadas pela condenação irrestrita da dimensão social da política. Junto ao ódio à corrupção, parece ter surgido o ódio ao pobre, ao popular, não obstante, o desprezo quanto à pobreza. Programas sociais necessitam de manutenção, devem ser purificados das distorções ideológicas partidárias e da corrupção, não necessitam de ódio. A reforma das leis trabalhistas foi um claro indicativo do desprezo com o trabalhador. Ouvimos constantemente que os partidos políticos estão em crise de representatividade, mas o principal envolvido ainda aparece com grande índice de aprovação nas pesquisas eleitorais, tendo como sombra, um candidato impulsionado por discursos marcados por racismo, xenofobia, homofobia, machismo e vazio político. Ainda continuamos presos ao populismo. Não estamos ameaçados apenas pela corrupção. Estamos ameaçados também pela intolerância e autoritarismo. Há um vazio semântico em nossa política, e ao mesmo tempo um crescente clamor de discursos extremistas surgidos de fatos concretos de ineficácia do Estado em setores vitais como segurança, saúde e educação. Esse clamor necessita de apuração racional. Estaremos maduros para isso? O momento é de ceticismo político. A prudência exige.

GABRIEL SANTAMARIA: Como educador, conte o que pensa acerca do futuro da cultura no Brasil.

HILTON VALERIANO: O termo cultura é muito amplo. Não se restringe apenas ao universo educacional institucional. Vivemos um momento de monopólio da cultura de massa, que acaba por ocultar a legítima cultura popular. Mas uma elevação dos padrões culturais passa necessariamente por uma elevação educacional. Vivemos uma falência educacional gravíssima. Há uma verdade, que todo brasileiro em seu mais profundo íntimo sabe, mas parece se recusar a aceitar: nunca seremos uma grande Nação se não valorizarmos a educação. E nunca valorizaremos de fato a educação ignorando seu principal protagonista: o professor. Isso parece tão óbvio e simples. Mas, a capacidade de negar o óbvio, é uma das principais artimanhas do cinismo e da demagogia que assola nossa política. Quando se trata de educação, a única bandeira que os partidos políticos podem reivindicar é a bandeira da vergonha. Nas pautas de nossos governantes, os professores, verdadeiros heróis anônimos de nosso país, estão sempre presentes como objetos secundários de propostas mirabolantes que desgraçadamente se repetem nos círculos partidários. Mas diante dos péssimos resultados avaliativos de nossa qualidade educacional, o centro das atenções recai sempre sobre o professor, ou seja, ele passa a ser o principal alvo de condenação de um desastre anunciado, mas sempre cinicamente negligenciado. A vergonha educacional de nosso país é nacional, e não apenas de uma única classe profissional. Politicamente, o Brasil despreza sua própria cultura ao não valorizar sua educação.

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